Cultura

A ambiguidade do ser humano

04 de Dezembro, 2011

Elinga Teatro dá continuidade a uma linha a favor da valorização da mulher na defesa da dignidade e do seu lugar no mundo

Fotografia: Francisco Bernardo

A peça “As Grávidas”, do brasileiro Adriano Marcena, que o Elinga Teatro estreou esta semana, aborda temas de grande actualidade, como a gravidez indesejada, a fuga à paternidade, a violência doméstica e a degradação dos valores morais. Num abrigo a elas reservado, quatro grávidas e uma jovem conversam sobre os seus dramas pessoais e a falta de perspectivas para as suas vidas.
A peça, escrita em 1991, compõe a “Trilogia da Miséria Humana” (“Os Leprosos”, “As Grávidas” e “Os Cristãos”) e foi pela primeira vez representada em 1995, no Recife, com direcção de Izaltino Caetano. Em 1996, foi realizada uma segunda montagem do texto em Pernambuco. Os espectáculos envolviam homens interpretando as personagens femininas. Em 2001, o grupo Dominus Soli, do Rio de Janeiro, sob a direcção de César Burnier, montou pela primeira vez o texto com um elenco feminino.
A versão angolana tem adaptação, cenografia e direcção de José Mena Abrantes, assistido por Adão Correia e Vírgula Capomba, e é interpretada por Anacleta Pereira, Cláudia Nobre, Cláudia Púkuta, Mayer Martins e Cesaltina dos Santos. Os figurinos são da autoria de Anacleta Pereira, o desenho de luzes de Nuno Nobre e a produção executiva de Cláudia Nobre.
Informado da montagem desta sua obra em Angola, Adriano Marcena escreveu que este texto “aborda as ambiguidades da barbárie adormecida dentro do ser humano” e acha “lamentável que em Angola, como em qualquer parte do mundo, o texto ainda seja bastante actual”.
Com a escolha desta peça, o Elinga Teatro dá continuidade a uma linha marcadamente a favor da valorização da mulher na defesa da sua dignidade e do seu lugar no mundo, patente em obras por si anteriormente apresentadas, como “Antígona”, de Jean Anouilh, “Casa da Boneca”, de Ibsen, “Yerma”, de Garcia Lorca, “Adriana Mater”, de Amin Maalouf e “Kimpa Vita”, de José Mena Abrantes.
José Mena Abrantes entrevistado pelo poeta e jornalista brasileiro Rogério Generoso.
Rogério Generoso - Em “As Grávidas” (1991), de Adriano Marcena, o texto percorre a tragédia brasileira da maternidade e seus óbices, como a violência doméstica, fuga à paternidade e outras tantas mazelas: “ambiguidades da barbárie adormecida dentro do ser humano”. Como foi adaptar (desbrasileirar) e dirigir esse texto em 2011 para a realidade de Angola, hoje?


José Mena Abrantes – O principal processo de “desbrasileiração” não foi em relação ao conteúdo, mas sim em relação à linguagem. Há expressões e palavras brasileiras que não são facilmente reconhecidas pelo público angolano e, por essa razão, foi necessário alterar os diálogos para modos de falar que lhe são mais familiares. Esse processo começou logo no nome das próprias personagens. Quanto ao conteúdo, não foi infelizmente necessário fazer qualquer novo enquadramento, nem contextualizar melhor os problemas, porque eles são perfeitamente identificáveis entre nós. A questão da gravidez indesejada, da fuga à paternidade, da violência doméstica, da perda de valores cívicos e morais está ainda muita viva na sociedade angolana, em especial na capital do país, e, apesar de merecer a atenção das entidades vocacionadas para a sua resolução, ainda está longe do seu termo. Foi essa a principal razão para a nossa escolha de “As Grávidas”, porque a peça aborda todas essas questões com verdade e dramatismo, podendo contribuir para acentuar a reflexão da sociedade sobre elas. Tem sempre maior impacto assistir a um drama vivido em cena do que simplesmente falar sobre o assunto em palestras e conferências. 
RG - Como conheceu o texto “As grávidas” e o seu autor Adriano Marcena?
JMA - Em 1998, fui o único escritor africano convidado a participar num Encontro Internacional de Dramaturgos, que teve lugar no Rio de Janeiro, com extensões para S. Paulo e Fortaleza. Eu fiz parte, com o saudoso Plínio Marcos, do grupo que foi a Fortaleza. Nessa cidade tive ocasião de conhecer o dramaturgo Adriano Marcena, que me ofereceu a sua “Trilogia sobre a Miséria Humana”, da qual fazia parte a peça “As Grávidas”. 
RG – Como vê o teatro em Angola, hoje, e como se insere o grupo ElingaTeatro, adaptando textos da dramaturgia universal, e oferecendo ao público, textos próprios, alguns deles seus?
JMA – O grupo Elinga Teatro existe desde 21 de Maio de 1988 e faz parte dos poucos que continuam a resistir a todas as adversidades ocorridas nestas mais de duas décadas em Angola, sem nunca terem interrompido a sua actividade. Os outros são o Horizonte Njinga Mbande e o Oásis. De uma geração posterior mantêm-se em cena o Etu Lene e poucos mais. Recentemente, têm vindo a afirmar-se grupos como o Miragens, o Henrique Artes, o Pitabel e alguns outros. Todos eles são amadores ou semi-profissionais e vão sobrevivendo como podem, com recurso às bilheteiras ou a apoios pontuais. Ainda não se pode falar em Angola de uma companhia profissional de teatro, com espaço próprio e repertório regular. O Elinga Teatro, que dispõe de instalações próprias adaptadas à prática teatral, tem sido um dos poucos a recorrer, para além dos nacionais, a peças de autores estrangeiros. Do Brasil, por exemplo, já levou à cena Plínio Marcos, João Cabral de Melo Neto e Alcione Araújo. Entre os clássicos, já representámos Garcia Lorca, Henrik Ibsen, Peter Shaffer, Jean Anouilh, Amin Maalouf, José Saramago, Percy Mtwa, etc. No entanto, entre os 39 espectáculos feitos até agora com produção própria ou em regime de co-produção pelo Elinga Teatro, 23 eram de obras de autores nacionais, 18 das quais de minha autoria.
RG - Na sua adaptação de “As Grávidas”, o que mais se acentua: a denúncia ou o registo do drama social que aflige a sociedade, ou a investigação do ser humano e sua miséria moral diante da sociedade?
JMA - Julgo que ambos os aspectos estão contemplados. A simples exposição do drama vivido por aquelas personagens é já, em si, uma denúncia da sociedade que os permite. Com a agravante de que há na peça uma entidade administrativa oficial que não se preocupa sequer em minimizar esses dramas, por razões egoístas – a sua mulher é a presidente da associação das infecundas. O caso vi além desse mero registo, pois a história pessoal e a própria reacção das personagens indicia a existência de um processo de degradação moral, que, para além de ter expressão nos problemas, se revela no próprio desejo de recorrer à morte, própria ou dos outros, para se tentar resolver os problemas.
RG – Dê-nos uma ideia do processo realizado por si e o elenco, desde a sua leitura do texto original, passando pela adaptação, ensaios, até à encenação.
JMA – A ideia de fazer uma peça só com mulheres surgiu do facto de praticamente todo o elenco masculino do grupo estar envolvido num outro projecto, dirigido por uma encenadora amiga, que deixou de lado a maior parte das actrizes. Foi na busca de uma peça que as pudesse incluir que me lembrei da obra do Adriano Marcena. Mas fiz a adaptação do texto antes mesmo de propor a sua leitura, porque já sabia que a linguagem brasileira não seria facilmente aceite. Depois passei a fazer o que normalmente faço, que é imaginar de imediato o espaço onde a peça vai decorrer. Nesta, a dificuldade é que as cenas são muito curtas e a acção está constantemente a mudar para três lugares distintos. Para garantir a sua continuidade, sem quebras, imaginei um cenário em que esses três lugares estão em permanência à vista do público, definidos por uma estrutura metálica que emoldura as diferentes cenas (é mais fácil de perceber vendo as fotos) e pela luz. As personagens nunca abandonam o palco e circulam de um lugar para outro, à medida que estes vão sendo iluminados. Não há qualquer quebra de ritmo. Como música de fundo escolhi um “Nocturno” de Chopin, que define bem o tom lírico-dramático da obra. Os ensaios demoraram um pouco mais do que é habitual, porque houve muitas interrupções, derivadas dos afazeres profissionais ou de estudo das actrizes ou da montagem da outra peça.