A "rota árabe" e os rituais do Islão
Fotogravura do artista Ahmed Mater com o título Magnetism exposta no Museu Britânico
Fotografia: AFP
A pé, sobre o dorso do camelo, à vela, milhões de peregrinos tomaram, século após século, o caminho de Meca. Para lembrar a maior romaria religiosa do mundo, o “British Museum” inaugurou uma grande e inédita exposição sobre os rituais muçulmanos do ‘hadj’, denominada “Journey to the heart of islam” que poderá ser admirada até ao dia 15 Abril.
“Esta ‘viagem ao coração do Islã’ é destinada a muçulmanos e a não muçulmanos, a todos os que querem saber mais sobre uma das grandes manifestações religiosas do mundo”, explicou Neil MacGregor, director do museu de Londres.
“O hadj é a única prática do Islão inacessível aos não muçulmanos”, e Meca, a terra sagrada, também lhes é proibida, lembra. “Parece-nos muito importante tentar compreender o que significa a peregrinação para os muçulmanos, hoje, e medir a sua importância através dos séculos”.
A exposição exigiu três anos anos de preparação e negociações com museus do mundo inteiro para reunir as peças apresentadas de maneira muito didáctica, tendo ao fundo o som da convocação às preces e o rumor dos peregrinos. Objectos do quotidiano e obras de arte estão ao lado de vídeos, manuscritos, gravações e fotografias para tentar transmitir a dimensão desse périplo, um dos cinco “pilares do Islão” e que todos os fieis são obrigados a realizar pelo menos uma vez na vida, se tiverem meios.
Uma epopeia
Durante séculos, a viagem em direção ao lugar sagrado do Islã, situado na Arábia Saudita, foi considerada uma verdadeira epopeia: semanas de caminhada a pé ou no dorso de camelos, em caravana, através de montanhas e desertos, com meses de uma viagem de grande risco no Oceano Índico, enfrentando assaltos, doenças ou naufrágios. Na “rota árabe” Bagdad-Meca, a mais antiga das cinco grandes rotas feitas pelos peregrinos, ao longo da história, poços, e demarcações e locais de repouso foram instalados, ao lado de oásis, como lembra a exposição quilométrica apresentada pelo Museu Britânico. Mapas antigos e astrolábios contribuíram para que as preces fossem feitas na hora exacta, assim como bússolas, guia dos rituais, contos de viagem e o soberbo palanquim vermelho e de ouro, a liteira luxuosa destinada ao transporte dos sultões: a essa versão histórica responde a logística moderna, com os peregrinos a viajarem em autocarros ou aviões, marcando mesmo a viagem numa agência turística especializada em programas para Meca.
A fórmula moderna foi iniciada por Thomas Cook, um empresário inglês nascido em 1808, que foi o primeiro agente de viagens do mundo. Cook utilizou um comboio fretado e criou a primeira excursão em grupo, chegando a promover o passeio à cidade santa muçulmana a partir das Índias Britânicas, como testemunha um antigo bilhete de passagem.
A exposição também partilha com os visitantes a experiência vivida por alguns poucos ocidentais que conseguiram chegar a Meca - disfarçados, como o explorador Richard F. Burton, que escreveu logo um livro sobre a sua vida e que se tornou um “best seller”.
Ou como o escocês Evelyn Cobbold. Embora não convertido oficialmente, Cobbold, que dizia “sentir-se um verdadeiro muçulmano” obteve das autoridades locais, em 1933, o direito de fazer a peregrinação, quando tinha 65 anos.
A palavra também foi dada a artistas contemporâneos, como Ahmed Mater, que criou um enorme cubo negro imantado que atrai milhares de partículas metálicas - ilustrando o fascínio exercido nos peregrinos pela Kaa’Ba, a construção que fica no centro da grande mesquita de Meca.
Milhões de peregrinos
A exposição também apresenta uma maquete da cidade santa, organizada em parceria com a biblioteca do rei Abdelaziz em Riad, mas passa muito rápido pelos problemas causados pelo afluxo de peregrinos (três milhões no ano passado) em termos de segurança. Em 2006, 364 pessoas morreram pisoteadas. Em 1990, morreram 1.426, em parte sufocadas, depois de um momento de pânico num túnel.

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