Expressão telúrica da angolanidade
Viriato da Cruz foi pioneiro na expressão da angolanidade
Fotografia: Jornal de Angola
Nascido a 19 de Março de 1928 o poeta de “Makezu” morreu fulminado por um ataque do miocárdio a 6 de Junho de 1973 com apenas 45 cacimbos cinzentos do ambiente telúrico que tão bem soube cantar nos seus versos em ruptura permanente com o cânone literário então vigente à luz da estética e ordem coloniais.
Gente amiga pediu-me que falasse de Viriato da Cruz, uma das vozes mais salientes no processo diacrónico de (re)fundação da Literatura Moderna Angolana, “démarche” que se processa não só através das leituras que lhe vinham do Brasil, mas, sobretudo, lançando luz sobre o resgate da rica tradição literária angolana engendrada desde os finais do século XIX e princípio do XX até ao princípio dos 1930 e anos subsequentes da mesma década, pelos chamados precursores da literatura angolana, tais como Cordeiro da Mata, Apolinário Van-Dúnem, Fontes Pereira, passando por Paixão Franco e desembocando em Assis Júnior e Óscar Ribas, sem esquecer a segunda fase de Castro Soromenho, na assumpão do facho nativista. Cumpre-nos, pois, prestar tributo à atenção dispensada, desde o ressurgimento do “Vida Cultural”, por esses e outros leitores assíduos. Os votos de apreço que temos recebido são disso um forte indício, pelo que desde já retribuímos com a devida vénia.
Viriato Francisco Clemente da Cruz nasceu a 19 de Março de 1928, na antiga vila portuária do Porto Amboim, o principal interposto comercial da provÌncia do Kwanza-Sul, onde se escoava a maior riqueza de Angola - o café - na época em que atinge a maturidade psíquica e literária, entre a segunda metade dos anos 40 e o dealbar dos anos 50, entre outros produtos que faziam mexer a economia da colónia de Angola, como o sisal e o algodão.
Contrariamente à maior parte dos homens de letras, cedo começou a abalançar-se na prática do ensaio literário. Depois viria a poesia e a reflexão doutrinária à luz da teoria de inspiração marxizante, traduzido na redacção do “Manifesto” do MPLA, em Dezembro de 1956, redigido durante 15 dias, a suas expensas, na então chique Pensão Magestic, nas imediações do sugestivamente Cine Colonial, convertido em Cine Popular depois da independência.
Em 1946, aos 18 anos, publica um ensaio literário intitulado “A Arte Antiga e a Arte Moderna”.
Depois viriam os poemas marcantes do regionalismo da terra, através dos poemas encantatórios do Bairro Operário, bairro onde cresceu e viveu até à sua partida para o exílio.
(Certo dia, passando pelo “B.Ó.”, nas imediações do falecido mercado Beato Salú, senti o pulsar da poesia de Viriato da Cruz, profundamente enraizada nos hábitos da nossa terra e da nossa gente., com a invocação da kissângua, acompanhada da cola e gengibre).
Viriato da Cruz escreveu pouco mais que meia dúzia de antológicos poemas, que entraram definitivamente para história cultural do seu país. Entre eles estão o magistral “Namoro”, “Makezu”, “Sô Santo”, “Canto de Esperança” e “Serão de Menino”, este último a fazer apelo ao imaginário da tradição oral.
Além dos poemas citados e mais conhecidos, recentemente tomámos conhecimento de alguns outros poemas da sua autoria, como o dedicado à cidade de Sá da Bandeira, actual Lubango, onde trabalhou, no princípio dos anos 50, como funcionário publico.
Como é sobejamente sabido, a literatura tem a função também de documentar uma determinada época, através da imaginação, do engenho e do talento criador dos autores que lhe dão corpo. É o caso do poeta oriundo de Porto Amboim. O ambiente bucólico das paisagens da sua infância não deixam de marcar a sua poesia, bem como a tradição oral vertida nas rodas dançantes nocturnas no subúrbio de Luanda, para onde haviam sido impelidas as populações nativas, com a ocupação progressiva do litoral, em virtude do povoamento branco. Tais particularismos físicos e sociais vão marcar a dinâmica criativa da sua geração literária, a geração da “Mensagem”, sendo que o resgate dos valores culturais nacionais assumem a crista da onda na contestação da ordem colonial. O núcleo temático dos seus poemas falam por si: a degradação do homem angolano despojado, tipo “Sô Santo”, o contrato, reedição da escravatura em pleno século XX, tema privilegiado dos seus coetâneos, como António Jacinto, Agostinho Neto e Mário Pinto de Andrade, este último escrevendo o seu poema “Muimbu ua Salabu” em kimbundu, radicalizando a ruptura cultural com a ordem jurídico-política instituída, manifestando um identidade distinta da potência colonial. O seu coetâneo cultiva e viabiliza literariamente a proibida língua materna (a “língua do quintal”, com que falava com a madrasta e o criado).
A manifestação identitária não se restringe, em Viriato da Cruz, ao plano linguístico e atinge outros patamares, incluindo o antropológico. A procura da identidade com o negro norte-americano e de todo mundo, espalhado nas Antilhas, em França, Portugal e Inglaterra, com destaque para os escravos. Os embarcadiços mensageiros que rasgam o Atlântico, por via dos cruzadores oceânicos, é uma das variáveis discursivas da sua geração, como ocorre no seu “Canto de Esperança”, cujo título guarda intertextualidade com “Sagrada Esperança” de Agostinho Neto, dedicado a “todas as mães negras cujos filhos partiram”. Cantando a esperança Viriato invoca o dia da liberdade, o dia da humanidade.
Aqui captam-se influências, confluências e leituras individuais e geracionais, como já ficou visto. A dedicatória a Jacques Roumain, a quem dedica este poema épico, fala por si.
Destarte, o poeta também era prosador. Havia escrito um romance que se extraviou no seu tirocínio pelo mundo, no vasto triunvirato por si percorrido - África, Europa e Ásia, onde foi locutor dos serviços de língua portuguesa da Rádio China.
O poeta Viriato da Cruz, “animal político” por excelência, morreu amargurado e desiludido na China, em Junho de 1973, por ter apostado vez por outra no cavalo errado em termos de adesão: feito “corpo estranho” no GRAE da FNLA e de Holden Roberto, após ruptura por “insanáveis” divergências político-ideológicas com a liderança do movimento que ajudara a fundar, e a opção geo-estratégica que lhe valeu a fatal vingança chinesa, em virtude da sua apurada contestação do culto da personalidade a Mao Zedong, nos seus próprios domínios, além de não pactuar com a leitura das autoridades que lhe acolhiam sobre a evolução das estruturas sociais em África. Exilado na China, viu ser-lhe tirado o tapete e morreu na maior miséria franciscana deste mundo, sem o que prover a si e aos seus.
De resto, vale sublinhar que as ressonâncias da integridade espiritual africana da poesia de Viriato da Cruz tem encontrado ressonâncias em alguns autores da nova vaga, que experimentam, entre outros recursos, o bilinguismo e a poesia dialógica, cultivada pelos autores em alguns dos seus textos poéticos, resgatando uma vibrante tradição literária angolana, em contraposição com a visão da portugalidade e o mito do lusotropicalismo, e (re)afirmando a angolanidade.
Paz à sua alma no Alto das Cruzes e arredores por onde circunda a sua alma, depois da trasladação das suas ossadas, em 1990(?), da China para Angola, sua terra bem amada, cujos desencontros da vida, conforme canta Bonga, lhe matou de desgosto de tanta saudade da Pátria, porque tanto dera no seu denodado combate de intelectual “engagée”.
O poeta morreu fulminado por um ataque do miocárdio. Desde então deixou de bater o coração do poeta mas a sua poesia continua viva e profunda, inspirada na força telúrica da afirmação da idiossincrasia angolana.

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