Lenda da guitarra angolana e da renovação estética
Carlitos Vieira Dias, lenda da guítarra que personalizou um estilo que o identifica
Fotografia: Jornal de Angola
Carlitos Vieira Dias é um nome estreitamente ligado à renovação estética da guitarra angolana, e personalizou um estilo que facilmente o identifica. Colado às harmonias e ao fraseado dissonante característico do jazz, introduziu novas sonoridades à estrutura tradicional de execução do semba que, até então, nunca se emancipara dos acordes naturais. É um longo processo que vem das experiências rítmicas da guitarra do Ngola Ritmos, com Liceu Vieira Dias, Nino Ndongo e José Maria.
Filho do não menos célebre Liceu Vieira Dias, Carlos de Aniceto Malheiros Vieira Dias nasceu em Luanda, no dia 17 de Novembro de 1947 e ajudou a fundar os mais paradigmáticos agrupamentos musicais angolanos, exceptuando os “Águias Reais”, Jovens do Prenda e Kissanguela, e aponta o nome de grandes figuras da música que, no início dos anos 60 e finais dos 70, impulsionaram a intelectualidade musical angolana – Eleutério Sanches, Tonito, Sara Chaves, Lilly Tchiumba, Garda e seu conjunto, Alberto Teta Lando, Rui Mingas, Vun-Vun e Alba Clington.
Reconhece-se na sonoridade do guitarrista a alma de um povo e o som cadenciado de uma música que pretende dialogar com o mundo. Ele é a soma artística de vários indivíduos musicais, um perfil que o coloca, de forma inequívoca, na vanguarda da Música Popular Angolana.
Primórdios e formação
Foi com o conjunto “Os Gingas” que aparece em palco, pela primeira vez, no Ngola Cine, levado pelo seu primo Aguinaldo Vieira Dias que o impulsionou a consolidar uma carreira musical.
Muito novo, teve o privilégio de assistir, com frequência, aos ensaios do “Ngola Ritmos”, e ouvia o pai, em casa, quando este se sentava ao piano. De notar que o avô paterno tocava concertina, factores que em muito contribuíram para a formação da sua personalidade musical.
O desterro de Liceu Vieira Dias para o Tarrafal (Cabo Verde), por razões políticas, inibiu a possibilidade de um contacto mais frequente com o pai. Quando este regressa, após o período de reclusão, Carlitos começa a ter noção, de facto, das linhas estéticas que definiam o estilo do “Ngola Ritmos”, descobrindo nítidas diferenças em relação aos instrumentistas da época.
“O meu pai – recorda Carlitos – extraía do piano e da guitarra sons de uma grande diversidade estilística. Sinto que tenho uma forte influência dele na forma como toco actualmente, embora tenha incorporado algumas sonoridades somente de ouvido, ou seja, não tive lições directas do meu pai. Eu ouvia-o, atentamente, enquanto executava e quando ele chegou do Tarrafal eu já sabia tocar. Eu e o Mário Fernandes (Negoleiros do Ritmo), que foi meu vizinho, aprendemos a tocar sozinhos, e dividíamos uma única guitarra”.
Para além da integração no “África Show”, Carlitos chegou a formar um grupo inexpressivo com Alberto Teta Lando (harmónica) e conviveu intensamente com Jajão, dos “Negoleiros do Ritmo”, e com a sonoridade do guitarrista Duia – figura emblemática dos “Gingas”.
Foi pela mão de Mário Fernandes que apareceu nos “Negoleiros do Ritmo” (1967). Nessa época adquire um manual de “Violão sem mestre”, enveredando por ser autodidacta. “Por incrível que pareça nós naquela altura aprendemos a fazer as notas, contudo, desconhecíamos a sua designação. Era o Pitoko que nos dizia: isto é Fá aquilo é Lá”.
Carlitos Vieira Dias pertence a uma época em que eclodiam, em Luanda, e um pouco por todo o país, as formações de rock. Era o tempo dos “Electrónicos” do Zezinho de Andrade e Vun-Vun, “Os Rock’s” do Eduardo do Nascimento, Os Manos Saraiva e “Os Jovens” do Mário Bento e Tino Catela. A esse movimento, designado de “música moderna”, Carlitos Vieira Dias teve sempre uma distância prudente, porque tinha a consciência e a percepção da força dos ritmos angolanos. Era a adopção de uma filosofia estética, assente na valorização e estilização dos padrões da rítmica angolana. No quadro da integração de Carlitos Vieira Dias no “África Show”, de 1969 a 1971, surge o encontro com Alberto Teta Lando – um dos períodos mais criativos do guitarrista. Deste encontro, uma das fases mais belas e prolíferas de Alberto Teta Lando, resultou a gravação de “Kimbemba”, “Luvuamu”, entre outros temas, e do álbum “Independência” (1974), com o agrupamento “Os Merengues”.
Carlitos nas bandas musicais
Carlos Vieira Dias começou no conjunto “Os pérolas” (1959-60) – uma formação que integrava o Octávio, a Garda e a Alba Clington. Passou pelos Negoleiros do Ritmo (1964), Os gingas (1966), os Kiezos (1968), África Show (1969) e “Merengues” (1974). Guitarrista de grande versatilidade e notável criatividade, a nível dos arranjos, ajudou a fundar o agrupamento musical Semba Tropical (1985), a Banda Maravilha (1993) e fundou a Banda Xangola (1996), uma formação que se exibia, fundamentalmente, em recintos fechados, com Nando Tambarino (trompete), Sabalo (trombone), Louro (guitarra), Juca (bateria) Manú (voz e tumbas), Eliseu (baixo), e Rufino Cipriano (teclas).
Renovação estética com Sara Chaves
Sara Chaves, cantora portuguesa que viveu com intensidade a música angolana, argumenta que embora tivesse a música popular portuguesa como base da sua formação, sentia o pulsar de uma música que se demarcava dos padrões estéticos europeus. Mais do que a sua minimização e desprezo, Sara Chaves adoptou os ritmos angolanos como seus e gravou “Kuricuté” de António Pascoal Fortunato (Tonito): Kuricuté, Kuricuté/ ngolo mbanza/ comboio kuoloiá/ ngolo mbanza/ comboio kuoloiá/ kuoloiá kualá Mariana... Era o reconhecimento da existência de um estilo musical com individualidade e estrutura próprias.
“Os portugueses já sentiam o peso intelectual da nossa música, recorda Carlitos Vieira Dias, no sentido em que alguns autores angolanos rebuscavam a língua portuguesa e o kimbundo na produção dos seus textos. Repare-se que, nesta altura, havia muitos intelectuais envolvidos na música popular, como Eleutério Sanches, Duo Ouro Negro, Tonito e Ana Maria de Mascarenhas”.
“Foi ela”, uma canção com referências textuais angolanas, interpretada por Ana Maria de Mascarenhas, acompanhada pelo conjunto Ngola Ritmos, ganhou o prémio de uma das edições do Festival da Canção de Luanda e foi um escândalo, o júri decidiu mas as autoridades portuguesas rejeitaram.
A formação dos "Merengues"
Carlos Vieira Dias fundou e fez parte da primeira formação dos “Merengues” (grupo musical ligado à Companhia de Discos de Angola) como baixista e supervisor musical. Os “Merengues” surgem após a crise que se instaurou com o 25 de Abril de 1974. O fenómeno atingiu proporções tais que os grupos foram-se desfazendo, muitos por razões de índole política. Os concertos escasseavam e os estúdios de gravação encerravam.
A editora Valentim de Carvalho, em Luanda, e a FADIANG, no Bié, foram os casos mais conhecidos. Os espaços de gravação começaram a ser reduzidos e o Director da Valentim de Carvalho, Fernando Morais, convida Alberto Teta Lando e Carlitos Vieira Dias para uma reunião, e diz: “É urgente salvar a situação”. Vieira Dias passa a dirigir os estúdios de gravação da Valentim de Carvalho, facto que durou muito pouco tempo. Fernando Morais fica por Angola, no dealbar da independência, e decide criar a C.D.A. com o radialista Sebastião Coelho.
Com Alberto Teta Lando, cria os Merengues que, no início, era uma formação de estúdio. Gregório Mulato (bongós e voz), Vate Costa (dikanza e voz), Zeca Tirylene (guitarra ritmo), Joãzinho Morgado (tambores) e Zé Keno (viola solo) integram, depois, os Merengues: o grupo aparece pela primeira vez em público, no Huambo, no dia 31 de Dezembro de 1974 por ocasião do aniversário da Casa Nova York, convidados pelo velho Roque. A partir desta data, começaram os trabalhos fora do estúdio.
Passaram pelos “Merengues”: Webba (teclas), o moçambicano Samora (bateria), Nando Tambarino (trompete), Tony Henriques e Dinho (bateria), Tony Almeida (trombonista), Romeu (saxofone), Betinho Feijó (guitarra ritmo), Moreira Filho (baixo) e Rufino Cipriano (teclas).
O CD "As vozes de um canto"
Conhecido como instrumentista, foi por vicissitudes da vida que Carlitos Vieira Dias começou a cantar, em 1993, numa altura em que residia em Portugal, decidindo enveredar, nesse mesmo período, por uma carreira a solo. Na sequência grava, em 2004, o CD “As vozes de um canto”, com Carlitos Chiemba (baixo), Teddy Nsingui (guitarra), Mário Garnacho (teclas), Marito Furtado (bateria), Chico Santos, Dalú Roger e Joãozinho Morgado (percussão), Nanutu (sax alto), Rowney Scott (sax tenor), Serginho do Trombone (trombone), Joatan Nascimento (trompete) e Dorgan Eleonor, Beth Tavira, e Dodó Miranda (vozes).
“As vozes de um canto” é, inequivocamente, uma referência na carreira musical de Carlitos Vieira Dias e na história da música angolana, um CD onde alinham os temas: Birin-birin, Palamé, Marçalina, Lemba, Colonial, Clube Marítimo Africano, Passo do Sangazuza, Nzala, Mukajame e Eme ngui mona ngola, consagrando o guitarrista num importante intérprete, num álbum em que o autor revisita clássicos da Música Popular Angolana.

[PDF-300 kb]
Mais informações: http://www.comissaoconstitucional.ao/
Pacote Legislativo da Comunicação Social
- [PDF-152 kb] Projecto de Lei Geral de Publicidade »
- [PDF-124 kb] Proposta de Regulamentação da Lei nº 9/02 de 30 de Julho »
- [PDF-64 kb] Projecto de Lei do Regulamento de Publicidade Exterior na República de Angola »
- [PDF-148 kb] Projecto de Lei sobre o Exercício da Actividade de Televisão »
- [PDF-132 kb] Projecto de Lei do Conselho Nacional de Comunicação Social »
- [PDF-172 kb] Projecto de Lei de Rádio Difusão »
- [PDF-312 kb] Projecto de Lei do Estatuto do Jornalista »
O tempo
25ºC
Máx:29ºC Min:22ºC
Máx:29ºC Min:22ºC
Você e o Jornal de Angola
Cartas do leitor
Participe, escreva ao Jornal de Angola.


Início




