Cultura

"União Kwanza" é homenageado

Jomo Fortunato| - 08 de Fevereiro, 2010

Homenagem da Cultura ao União Kwanza é um momento de relevo na programação do Carnaval deste ano

Fotografia: Kindala Manuel

O impacto, junto dos compositores e grupos carnavalescos, do Prémio BAI- canção do Carnaval, um contributo da conhecida instituição bancária que visa a melhoria e valorização das canções do Carnaval, e as homenagens do União Kwanza, um grupo carnavalesco com raízes no Bengo, e do União Mundo do Samanyonga, da Lunda-Norte, no dia 11 de Fevereiro, no Cine Tropical, são dois momentos de relevo na programação do Carnaval deste ano.
Vivemos uma época de mudanças e novas tendências do Carnaval, que exigem respostas adequadas às expectativas das mutações sociais e políticas. Tradição e modernidade complementam-se, e o novo Carnaval, resultado da inevitável abertura de Angola, deve incorporar, no seu processo de modernização, os traços culturais mais endógenos, com os quais a colectividade se identifica.
No âmbito de um quadro de feição associativa, é urgente devolver aos grupos carnavalescos a sua dimensão clubística, pela necessidade de captação de recursos, pela quotização, visando a sua melhoria e forma de apresentação na competição, potenciando, financeira e administrativamente, a gestão dos grupos.

Origens do União Kwanza

De origem camponesa, o Grupo União Kwanza foi fundado no dia 30 de Novembro de 1969, com a denominação de União Senguessa, passando a ter a designação que vigora, actualmente, desde 1976. Duas grandes figuras do Carnaval, os comandantes Miguel Duzentos Francisco e Manuel Joaquim Adão, estão na origem da sua fundação.
Ao som do virtuosismo da ngoma, do bate-bate, da dikanza, da puita, dos apitos e do chocalho, os bailarinos do União Kwanza dispõem-se em paralelo, formando duas alas, repartidas por homens e mulheres. Ao sinal do comandante, dois figurantes, saídos um de cada ala, deslocam-se para o centro, num acto de pura sedução, exibindo um sapateado pleno de saracoteios. É nesse instante que, num assomo de volúpia simulada, acontecem as sucessivas e inevitáveis umbigadas, a massemba.
Os bailarinos, muitas vezes travestidos, apresentam-se, normalmente, de camisas de cetim, ou camisola interior, acompanhadas de saias, confeccionadas com lenços de mulher. As bailarinas apresentam-se vestidas de panos, à bessangana, acompanhados de quimono, lenço ou turbante.
Embora tenha as suas origens, mais distantes, no Bengo, o grupo União Kwanza tem a sua sede no Morro Bento e os seus foliões residem nos arredores. Consideramos as homenagens uma forma de reconhecimento, um passo para o registo histórico do perfil biográfico dos grupos de Carnaval.

União Mundo do Samanyonga

Fundado por Estêvão Chirianze, Bernardo Muatxisengue e o Mestre Mualiangueno, o grupo União Mundo do Samanyonga vai ser igualmente homenageado, na edição 2010 do Carnaval. Criado em 1979, no bairro Samanyonga, município do Chitato, o grupo tem 60 elementos e é um dos mais antigos e conhecidos da Província da Lunda-Norte. Exibe, num inequívoco exercício de pureza identitária, a dança “kandjendje” e “tshianda”.
O grupo apresenta-se, normalmente, exibindo uma atraente indumentária colorida, com realce para a vibração da percussão, batuques, panos enrolados com mestria (mafunya), chocalhos, missangas e lenços, tendo arrebatado o primeiro lugar, nas edições provinciais do Carnaval de 1983, 1998, 1999, 2000, 2006, 2008 e 2009.

A dança no Carnaval

A arte da dança é um eixo fundamental no Carnaval que, na sua configuração coreográfica, acaba por concretizar toda a dinâmica da festa carnavalesca. A ordem de movimentação dos dançarinos na pista pode definir, no processo de avaliação do júri, o virtual vencedor. Neste aspecto a criatividade do coreógrafo e o talento dos dançarinos, determinam a peculiaridade estilística de cada grupo.

A extinção da kazucuta

Cidrália, dizanda, kabetula, semba, varina e kazukuta, são os géneros de dança com maior presença no Carnaval de Luanda. Cada grupo de Carnaval possui a sua coreografia específica sendo a mais frequente assente nos ritmos semba e varina, típica das populações de Luanda e Nzeto. Há um sintoma de desaparecimento da cidrália e da kazukuta, o último um género de dança exibido pelo carismático União Operário Kabocomeu.
A coreografia da kazukuta caracteriza-se pelo sapateado lento, seguido de várias oscilações corporais, firmando-se o bailarino, ora nos calcanhares, ora na ponta dos pés, apoiando-se sobre uma bengala ou guarda-chuva, objecto de marca do Kabocomeu.
Os instrumentistas tocam latas, dikanza, garrafas, arcos de barril e cornetas à base de latão, construídas de forma artesanal, para o acompanhamento, cadenciado, de um ritmo, muito peculiar, nos momentos de intensa variação rítmica da música. Os bailarinos apresentam-se de calças listadas e casacos ornamentados com vários adereços e objectos, representando a hierarquia do exército e o trabalho de construção civil.