Sociedade

Católicos e anglicanos em sintonia no diálogo ecuménico

Muanamosi Matumona | - 23 de Setembro, 2010

Papa Bento XVI num encontro com o Arcebispo da Cantuária Rowan Williams

Fotografia: Reuters

A recente viagem do Papa Bento XVI à Inglaterra (de 16 a 19 deste mês) foi mais um acto de coragem e de humildade do Sumo Pontífice, no âmbito da difícil caminhada do diálogo ecuménico, especialmente no que toca à relação entre católicos e anglicanos, “manchada” e rompida sobretudo aquando do nascimento da Igreja Anglicana (1534), ocorrido na sequência do corte de relações do rei Henrique VIII com Roma.
Claro que, depois deste incidente, grande na história das duas comunidades, o ecumenismo, aceite por muitas igrejas cristãs (entre elas a Católica e a anglicana), nunca sofreu qualquer interrupção, apesar de algumas dificuldades que tem registado, facto que ainda complica um pouco o seu progresso, sobretudo em termos de resultados práticos. Nesta toada, o lema tem sido este: “esquecer o passado e realçar o muito que une os cristãos e o pouco que os separa”. É, pois, esta proposta que tem sido um verdadeiro ponto de apoio do diálogo ecuménico que, apesar do seu dinamismo e do seu impacto, ainda não deu os frutos desejados e esperados: o retorno à comunhão plena entre todos os cristãos.
Pois, se a nível de base a “política da boa convivência” entre católicos e anglicanos vai sendo uma realidade, também pode dizer-se o mesmo a nível mais alto, pois, ultimamente, Bento XVI tem sido muito flexível, demonstrando uma grande abertura no que diz respeito a intensificação do diálogo, com a admissão de alguns membros comprometidos da igreja anglicana na confissão católica, um gesto que, no ponto de vista histórico, e com alguma polémica à mistura, é visto por muitos como um mero regresso destes fiéis anglicanos à “igreja mãe”. Agora, mais do que nunca, com a presença do Papa Bento XVI na Inglaterra, o mundo acaba de reconhecer os esforços da Santa Sé para que a comunhão plena entre as duas confissões se concretize.

Desenvolvimento das relações

Durante a sua estadia, o Sumo Pontífice abordou, sem complexo, pela primeira vez, as questões levantadas ao diálogo entre católicos e anglicanos pela promulgação, em 2009, da constituição apostólica “Anglicanorum Coetibus”, que apresenta as normas para o regresso de alguns grupos à Igreja Católica. Apesar da sua seriedade, na verdade, não faltaram algumas “tendências conservadoras”, que não acolheram a notícia com agrado. Mesmo assim, o dossier continua a aparecer como um assunto muito complexo e sensível, pois há ainda um longo caminho por percorrer antes de atingir cabalmente a meta pretendida.


Entretanto, no seu discurso aos bispos da Inglaterra, Bento XVI disse que esta decisão pretendia ser “um gesto profético que pode contribuir de forma positiva para o desenvolvimento das relações entre católicos e anglicanos”, recordando que “o fim último da actividade ecuménica é a restauração da total comunhão eclesial, no contexto da qual a troca recíproca de dons das nossas respectivas tradições espirituais serve como um enriquecimento para todos”. Neste sentido, reconhecendo a complexidade do processo, Bento XVI convidou os prelados a rezarem e a trabalharem sem cessar em ordem a celebrar o dia feliz em que este objectivo será alcançado.
Todavia, este discurso não foi o único ponto relevante que marcou a passagem de Bento XVI pela Inglaterra, pois, o líder espiritual da Igreja Católica Romana foi mais além, com encontro tido com o primaz da igreja anglicana, o Arcebispo da Cantuária, Rowan Williams, tornando-se, assim, o primeiro Papa a visitar a residência do líder anglicano, no palácio de Lambeth; e com a visita à histórica Abadia de Westminster, em Londres, o coração do anglicanismo. Na visita de cortesia ao palácio de Lambeth, em Londres, o Papa sublinhou o “notável progresso feito em várias áreas de diálogo”, sob o impulso de uma comissão internacional anglicana-católica. Foi mesmo neste sentido que Bento XVI convidou os fiéis das duas Igrejas a explorar, com membros de outras tradições religiosas, os caminhos para testemunhar a dimensão transcendente da pessoa humana e o chamamento universal à santidade.

Declaração conjunta

Neste mesmo contexto, Rowan Williams (arcebispo de Cantuária) e Bento XVI assinaram uma declaração conjunta, onde se afirma “o compromisso de proclamar a mensagem evangélica de salvação em Jesus Cristo, de maneira racional e convincente, no actual contexto de profunda transformação cultural e social”. Nesse horizonte, apesar das divergências existentes, o Papa e o Arcebispo da Cantuária comprometeram-se a aprofundar o diálogo, em especial no que diz respeito à “noção de Igreja como comunhão, local e universal”.
Decididamente, das palavras e gestos de ambos, fica a sensação de que a longa história de desconfiança e mesmo de disputas recíprocas pode vir a conhecer capítulos diferentes, nos próximos tempos. De qualquer forma, o mundo prefere esperar para não cair numa esperança que pode tornar-se um “vazio”, já que, ao longo da história, várias iniciativas já foram organizadas com vista a uma comunhão plena entre os fiéis das duas congregações. Porém, volvidos anos, não se registou ainda nada de especial que pudesse concretizar o tão esperado “regresso às fontes do cristianismo”.
Na verdade, as barreiras vão persistindo e a tarefa vai surgindo cada vez mais “pesada”, pois o diálogo entre católicos e anglicanos não é a única “frente” que preocupa a Santa Sé: ortodoxos, luteranos, por exemplo, são também outras confissões que interpelam o Vaticano, na linha do ecumenismo, enquanto as “negociações” para estabilizar as relações com os judeus e muçulmanos surgem como desafio situado no horizonte do diálogo inter-religoso. E para Bento XVI, “no momento presente, testemunha-se uma cultura cada vez mais distante das raízes cristãs, apesar de uma profunda e disseminada fome de alimento espiritual”.