Sociedade

Descoberta de cientista português abre caminho para travar surdez

22 de Fevereiro, 2012

A perda de audição afecta milhões de pessoas de todas as idades em todo o mundo

Fotografia: DR

Uma equipa de cientistas da Universidade de Yale, liderada pelo bioquímico português Nuno Raimundo, desvendou o processo da perda de audição, através da manipulação genética de cobaias, abrindo caminho para um tratamento da surdez.
A descoberta do mecanismo molecular que leva à surdez é narrada na última edição da “Cell”, uma das três principais revistas científicas internacionais a par da “Nature” e “Science”, e vem demonstrar que “ao contrário do que se pensava até agora, a perda de audição não é irreversível”, afirmou à Lusa, o cientista de 35 anos.
As células responsáveis pela audição “estão lá, só não estão a funcionar bem, não estão mortas” e podem ser reactivadas “manipulando duas proteínas fundamentais farmacologicamente”, dentro do ADN.
“Se a perda de audição não é tratada, à medida que passam anos, este é um problema muito comum, sobretudo nos idosos, pode tornar-se irreversível. A descoberta abre algumas janelas de possibilidade terapêutica. Pode vir a reduzir a incidência ou travar”, disse à Lusa o cientista de Yale.
O estudo demonstra que a remoção de uma molécula conhecida como “superóxido” evita a morte de células críticas para a audição e identifica várias outras moléculas que podem servir de alvos terapêuticos. Nuno Raimundo afirma que vai continuar nesta linha de investigação no próximo ano, “para perceber exactamente quando algumas células responsáveis pela audição morrem, e como morrem”.
Já existem medicamentos no mercado que actuam sobre algumas das proteínas em causa, mas têm sido utilizadas para tratar outras doenças, pelo que Nuno Raimundo estima que um tratamento específico para este problema leva “nunca menos de dez anos”. “Desde o momento em que se identifica uma proteína ligada a uma doença até se conseguir acertar com o medicamento eficaz, as quantidades, tudo exige tempo. Uma coisa é tratar ratinhos, outra, pessoas”, disse o cientista à Lusa.
Mas a perda de audição “afecta milhões e milhões de cidadãos” e Nuno Raimundo acredita que não faltam farmacêuticas interessadas em desenvolver um medicamento.


Licenciado em bioquímica em Lisboa, onde chegou a dar aulas, Nuno Raimundo rumou à Finlândia para trabalhar em investigação genética e daí foi para a prestigiada Universidade de Yale em 2008, especificamente para o projecto de estudo da surdez.
O seu objectivo mais vasto é estudar a relação entre a célula e um órgão essencial destas, os mitocôndrios, as “bactérias onde se gera a energia química que mantém as células a funcionar” e cuja “avaria” está ligada a problemas de coração, fígado ou músculos.
Para alargar a sua pesquisa a outras “doenças mitocondriais”, Nuno Raimundo está a planear abrir o seu próprio laboratório, em princípio na Alemanha, onde as condições de financiamento e de investigação são mais generosas e flexíveis.
“Quero perceber como às vezes uma mutação no DNA mitocondrial leva ao desenvolvimento de problemas de coração e às vezes degeneração do cérebro. Quero perceber porque alguns tecidos e órgãos do corpo são mais susceptíveis a mutações”. Sublinha o trabalho bem cotado globalmente de instituições como as universidades do Minho, Aveiro, da Fundação Gulbenkian ou do Instituto Champalimaud.
“Eu não sou ninguém neste momento, mas, na medida do que for a minha capacidade, teria maior gosto e prazer em ajudar os cientistas que em circunstâncias difíceis conseguem fazer trabalho tão meritório”, afirmou Nuno Raimundo.