Sociedade

Mudar de vida com recurso ao empréstimo

Josina de Carvalho | - 26 de Janeiro, 2010

José Munto

Fotografia: João Gomes

Isabel Ortência, de 37 anos, Pedro Bukassa e José Munto, ambos com 39 anos, pertencem a um grupo de oito pessoas que se juntaram, em 2005, por exigência da empresa “Kixi-Crédito”, para ter acesso a um micro-crédito. O grupo queria apoio desta instituição financeira não bancária para aplicar maior capital aos pequenos negócios que já desenvolviam e, consequentemente, maximizar os lucros e melhorar a vida. Isabel cozinha arroz, feijão, carne ou peixe, e vende cada prato a 250 kwanzas na Praça dos Correios, no bairro Golfe I, em Luanda. Pedro Bukassa e José Munto montaram uma banca à entrada de suas casas, localizadas no mesmo bairro, onde vendem produtos alimentares diversos e guloseimas.

Depois de uma avaliação das garantias de rentabilidade dos negócios praticados pelos membros do grupo, e da capacidade de reembolso do empréstimo, a Kixi-Crédito concedeu, a cada um deles, um crédito, equivalente em kwanzas, no valor de 250 dólares.
Com o dinheiro do micro-crédito, Isabel passou a cozinhar em maior quantidade e a atender mais clientes. Pedro e José arrendaram espaços e transformaram-nos em cantinas. Pedro até já abriu a segunda. Com o aumento dos lucros, Pedro e José puderam fazer créditos de 500, 700, 1000 e 1500 dólares. Ambos estão agora a pagar o sexto crédito.
O negócio de Isabel também está a render, mas ainda não pode fazer um crédito de 1500 dólares, como os colegas do grupo. Está a pagar um de 600 dólares. Da próxima vez, que será a quarta, diz que vai pedir mil, porque quer passar a vender produtos de beleza, deixar de acordar muito cedo e acender o carvão todos os dias para fazer a comida. “Aquela quentura do carvão está a prejudicar a minha saúde”. O objectivo de Isabel, com a venda de produtos de beleza, é criar poupanças para abrir um cyber-café. “Esse é o meu sonho. Quero também terminar o curso médio de informática”, disse.
Pedro e José querem arrendar, a médio prazo, cantinas mais espaçosas, com maior diversidade de produtos. E no futuro, desejam ser empresários, com supermercados e outros empreendimentos ligados ao comércio.



Uma história de sucesso

Joaquim Mendes, 49 anos, também beneficiou de um micro-crédito. Por viver em casa própria, no bairro Malanjinho, não precisou de integrar um grupo solidário, como fizeram Pedro Bukassa, José Munto e Isabel Ortência, para terem acesso a um crédito. Em 2005, Joaquim Mendes, na altura radiotécnico, transformou uma pequena parte de sua casa num bar. Para aumentar o número de produtos e criar melhores condições no local solicitou um empréstimo à Kixi-Crédito. Recebeu 150 dólares e investiu todo o dinheiro, e mais algum da sua poupança, na compra de uma antena parabólica para atrair mais clientes. Joaquim diz que o bar passou a encher muito, sobretudo com clientes amantes de futebol, porque a maioria das casas do bairro não tinha esse equipamento. “Muitos vinham apenas para assistir aos jogos, mas depois acabavam por consumir alguma coisa”. Com o aumento do número de clientes, Joaquim solicitou mais um crédito para alargar o espaço e, depois outro, para cobri-lo. Ainda com apoio da Kixi-Crédito, aproveitou um outro espaço de sua casa e transformou-o numa loja só para venda de bebidas. Ao mesmo tempo prepara um outro espaço para vender apenas produtos alimentares. Joaquim colocou também bancos corridos no quintal e um aparelho de som para permitir que os clientes possam dar um pé de dança à noite. Devido aos negócios ali criados, fruto de vários empréstimos, Joaquim arrendou uma casa, nas proximidades, onde vive actualmente com a família. Mas às vezes dorme na antiga casa, agora transformada num centro de negócios, para velar pela segurança do local. O filho mais velho, de 17 anos, apoia-o nesta tarefa e também na gestão dos negócios. Neste momento, falta-lhe contratar pelos menos dois funcionários para o ajudar no atendimento dos clientes e adquirir uma viatura, de preferência uma carrinha, para deixar de alugar quando necessita de ir às compras. A nível pessoal, deseja acabar de construir a sua casa no Golfe 2 e ampliar cada vez mais os seus empreendimentos, uma vez que já recebe créditos no valor máximo de dez mil dólares. Pelo sucesso alcançado, Joaquim assume a presidência do Corpo de Conselho de Clientes da Kixi-Crédito.

Kixi-Crédito empresta dinheiro aos pobres

A Kixi-Crédito é uma instituição financeira não bancária vocacionada para a realização de operações de micro-crédito. Criada em 2007, ao abrigo da Lei das Instituições Financeiras (Lei 13/05, de 30 de Setembro), funciona desde 1999 como um projecto da organização Development Workshop (DW). 
Em linguagem simples, o negócio da Kixi-Crédito, de acordo com o director de Operações, Lauriano Tchoia, “é emprestar dinheiro, ou seja, dar micro-créditos aos pobres e tornar essa actividade sustentável, ainda que haja doadores”.
A Kixi-Crédito começou a desenvolver esta actividade com o financiamento do Departamento Internacional de Desenvolvimento do Governo Britânico e, mais tarde, com o financiamento da Agência Internacional das Nações Unidas para o Desenvolvimento (USAID). Para aumentar ainda mais a carteira de crédito, Lauriano Tchoia disse que a Kixi-Crédito recorreu aos bancos, tendo conseguido uma linha de financiamento do BFA e do Banco Millenium. 
O micro-crédito é apenas atribuído às pessoas consideradas pobres economicamente activas. Segundo Lauriano Tchoia, trata-se daquelas pessoas que são pobres mas têm uma actividade geradora de rendimento. 
Para que tenham acesso a um crédito no valor entre 100 e dois mil dólares, explica, os interessados, além de serem maiores de idade, devem constituir grupos solidários, com até 15 pessoas. O valor que cada membro do grupo recebe varia em função do tipo de negócio que cada um prática. Mas, no primeiro crédito, o cliente só pode receber até 500 dólares e só depois vai subindo gradualmente. 
Aqueles que querem créditos de valor entre dois e cinco mil dólares podem constituir grupos pequenos de três a cinco pessoas. A partir de cinco mil dólares até ao valor máximo de dez mil, os clientes já podem receber o crédito individualmente. “Estas pessoas já têm um negócio maior, como uma cantina ou um salão de cabeleireiro e não faz sentido darmos um crédito de 500 dólares. Segmentamos os nossos clientes pelo tipo de negócio”, justificou.
Lauriano Tchoia explicou ainda que a Kixi-Crédito obriga à constituição de grupos solidários para que possam implementar o sistema de garantias mútuas, o que implica cada um ser uma espécie de fiador do outro. Sendo assim, refere, em caso de falha de um ou mais membros, no pagamento mensal para amortização da dívida, os restantes membros do grupo são obrigados a cobrir.
“Este método de funcionamento faz com que eles chamem para integrar o grupo pessoas conhecidas, confiáveis, responsáveis e experientes”. Por essa razão, acrescenta, “damos crédito inclusive a pessoas que não têm nenhum documento de identidade”. Os excluídos são apenas aquelas pessoas que praticam negócio ilícito, como por exemplo os vendedores ambulantes ou quem vende combustível e medicamentos em locais impróprios e corre o risco de perder o negócio em qualquer altura, devido à intervenção da fiscalização. 
Os clientes pertencentes aos grupos solidários com até 15 pessoas, que recebem créditos entre 100 e dois mil dólares, liquidam-no no prazo de cinco ou seis meses. Os integrantes dos grupos com 3 a 5 pessoas, que recebem entre dois e cinco mil dólares, pagam a dívida em dez ou 12 meses, tal como os clientes individuais, que podem receber de cinco mil até dez mil dólares.  
Qualquer cliente liquida a sua dívida através de pagamentos mensais correspondentes a 15 por cento do valor total do crédito. 

Clientes pagam dívidas

Noventa e oito por cento dos clientes, num universo de cerca 11 mil, cumprem com os pagamentos nos prazos estabelecidos, segundo o director de operações, Lauriano Tchoia. “De acordo com os padrões internacionais, é aceitável que se perca até cinco por cento. Nós estamos em dois por cento e isso é sinal de que a nossa empresa vai bem”.
O responsável referiu que a empresa tem uma carteira de crédito (dinheiro em posse dos clientes) de nove milhões e meio de dólares.
Lauriano Tchoia disse ainda que a Kixi-Crédito tem uma taxa de retenção à volta de 90 por cento. “Quer dizer que 90 por cento dos nossos clientes renovam os seus créditos”, explicou.
Os resultados alcançados pela empresa, de acordo com o interlocutor, são fruto de acções de mobilização no seio das comunidades e de acompanhamento dos clientes. “Temos uma unidade de gestão de clientes que regista as preocupações, reclamações e os apoia para que se sintam satisfeitos com o nosso serviço”.
A Kixi-Crédito tem 197 funcionários a nível do país. Mais de 30 trabalham no escritório central e os restantes nas agências que são 13, das quais seis estão localizadas em Luanda, nos bairros São Paulo, Palanca, Hoji-ya-Henda, Mabor e Viana. Fruto de um acordo com a Agência das Nações Unidas para os Refugiados (UNHCR), a Kixi-Crédito também atende refugiados desde há cerca de cinco anos.
Na província do Huambo, a Kixi-Crédito tem três agências: duas localizadas na cidade do Huambo e a outra na sede municipal do Bailundo, e nas províncias de Benguela, Bié e Cabinda, uma, respectivamente. Este ano, Lauriano Tchoia disse que serão abertas agências nas províncias de Malanje, Uíje e Huíla. Em cada agência trabalham dez a 12 oficiais de crédito, um supervisor, contabilista, oficial administrativo e um oficial de monitoria e gestão de risco.   

MINFAMU quer um sector financeiro abrangente

O Ministério da Família e Promoção da Mulher (MINFAMU) tem como meta, até 2015, a promoção de um sector financeiro abrangente e inclusivo, de tal forma que todas as famílias carentes tenham acesso ao micro-crédito.
De acordo com a chefe do Departamento de Apoio à Família, Santa Ernesto, “o Ministério tem constatado que o micro-crédito é realmente um instrumento valioso de combate à pobreza. Por isso, apostamos na promoção do sector financeiro, para que possam aparecer vários intervenientes para apoiar um maior número de famílias”.
Para a promoção de um sector financeiro abrangente e inclusivo, Santa Ernesto diz ser necessária a criação de um quadro legal favorável, de modo a atrair um maior número de intervenientes nesta área.
Santa Ernesto disse que o número de instituições existentes ligadas à implementação do Programa Nacional de Micro-Crédito não é suficiente para atender a procura.
O Ministério das Finanças e Planeamento e instituições financeiras, como o Banco Sol, Banco Nacional de Angola (BNA), Programa Empresarial Angolano (PEA - PNUD), Banco de Poupança e Crédito (BPC), Banco de Comércio e Indústria (BCI), Kixi - Crédito, Visão Mundial e outras, sob coordenação do MINFAMU, têm estado reunidas para definir acções que tornem o sector financeiro abrangente e inclusivo. 
A chefe do Departamento de Apoio à Família disse que além desta questão, as instituições, durante os fóruns nacionais sobre micro-finanças e whorkshops, analisaram a possibilidade de cumprimento dos compromissos internacionais assumidos pelo país nas conferências internacionais sobre micro-crédito, os avanços, constrangimentos e desafios do Programa Nacional de Micro-Crédito, criaram uma comissão multi-sectorial e um secretariado técnico para a elaboração da política e regulamentação das micro-finanças em Angola e de um diagnóstico do sector, respectivamente.
Na primeira cimeira internacional sobre micro-crédito, em 1997, os participantes (representantes de países em vias de desenvolvimento) acordaram tirar da pobreza, através do acesso ao micro-crédito, mais de 100 milhões de famílias até 2005. Na segunda cimeira, em 2006, decidiram aumentar o número de famílias para 175 milhões até 2015.
As instituições financeiras angolanas beneficiaram 38.338 famílias até 2006 e dois anos depois, em 2008, apoiaram mais 115.863 famílias. “Por estes resultados recebemos um certificado de mérito da Campanha Global Para a Cimeira de Micro – Crédito (MICROCREDIT SUMMIT CAMPAIN)”, disse Santa Ernesto.



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José Munto

Fonte: João Gomes
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