Pesca artesanal dá rendimento
Peixeiras e outros revendedores de peixe encostam a uma embarcação logo à chegada à praia
Fotografia: Paulo Mulaza
Mabundas é uma pequena localidade situada no município da Samba, Luanda. A sua população, constituída maioritariamente por descendentes de famílias radicadas no local há várias gerações, dedica-se, fundamentalmente, à pesca artesanal. A actividade constitui a principal fonte de rendimento dos habitantes.
Eram cinco da manhã quando o “Velho Zé”, com a roupa molhada e um olhar cansado, atracava a sua canoa cheia de peixe-espada e sardinha, na praia das Mabundas. No local, já tinha à espera, desde madrugada, peixeiras e escaladores (pessoas que escamam o peixe). Com bacias e sacos, as mulheres aproximaram-se imediatamente da chata para comprarem o peixe. Os escaladores, por sua vez, afiavam as facas, para darem início a um trabalho que fazem a troco de algum dinheiro.
Velho Zé é apenas um dos vários pescadores das Mabundas. Vive da pesca há 60 anos, profissão que aprendeu com o pai, e começa a jornada um dia antes do da venda, às 18 horas. O ancião pesca de noite e dorme durante o dia. “Comecei a actividade pesqueira com 15 anos. Hoje tenho 75 e não sei fazer outra coisa senão pescar. Foi com o dinheiro do pescado que construí a minha casa e criei os meus quatros filhos, que já estão formados”, conta orgulhoso o pescador.
O pescador, que passa de segunda-feira a sábado longas horas em alto mar, trabalha por conta própria, praticando pesca artesanal à base de linha e anzol. Quando vai para o mar também leva consigo bóia, iscas e comida na canoa a remos. No tempo do calor o peixe-espada e a sardinha são os que mais abundam, porque as outras variedades ficam escondidas no fundo do mar, e sem um GPS não se consegue saber onde estão, esclareceu. A pesca é mais diversificada na época do frio, explica, altura em que se ganha mais, “porque conseguimos apanhar garoupa, corvina, cachucho, safio e outro tipo de peixes que rendem mais dinheiro”.
Para o Velho Zé, a profissão é bonita mas exige muita coragem e paciência. O cheiro do mar e as ondas, segundo diz, provocam enjoo. “Se a pessoa não for forte acaba por desistir”, afirma. Há 60 anos que apenas dorme à noite quando está doente, porque esse é o período do dia ideal para se pescar. “Aproveito a tarde toda para descansar e às 17h00 preparo-me para navegar”.
Rendimentos
Quando o mar está bom, pesca acima de 200 peixes, facturando assim entre 20 a 30 mil kwanzas por dia. Mas nem todos os dias são um mar de rosas. Às vezes, conta aquele que nas Mabundas é um dos mais antigos na actividade, “volto quase de mãos vazias”. Apesar da idade, diz que prefere trabalhar com canoa a remos, “porque me ajuda a exercitar o corpo. Se trabalhasse com uma embarcação a motor, acredito que já não estaria vivo, e se estivesse já não pescaria”.
Nas Mabundas nem todos os pescadores têm embarcação própria. Grande parte trabalha por conta de outrem, a quem dão diariamente metade dos rendimentos. É o caso de Domingos da Silva, um homem de meia-idade que exerce a pesca artesanal com rede há mais de 15 anos. Entrou para a actividade por falta de emprego e incentivado por amigos, segundo explicou ao Jornal de Angola. Natural da Samba, trabalha com mais dois colegas para um mesmo patrão, sendo ele o mestre do barco. Como tal, responsabiliza-se pela embarcação e pelo pescado. Diz que já pensou em desistir várias vezes, porque a vida de pescador não é fácil, pois tem de trabalhar todas as noites e dormir de dia. Mas por enquanto, explicou, “tenho de trabalhar para sustentar a família”.
Quando o mar está bom, Domingos e a sua equipa chegam a facturar até 100 mil kwanzas por dia. Cada pescador coloca um sinal em cada peixe que captura e depois vende-os individualmente. Após as vendas, os trabalhadores, na presença do dono do barco, somam a quantia adquirida. Deste valor, subtraem uma pequena parte para a compra do combustível e outras despesas diárias. O resto do dinheiro obtido por cada um é dividido a meias com o patrão. Por isso, alguns pescadores procuram adquirir emarcações próprias.
A rotina
Para quem pratica a pesca artesanal, particularmente na praia das Mabundas, a rotina não foge muito à dos demais pescadores de outros locais da cidade de Luanda.
A partir das 16h00, a maior parte deles começa a organizar o material para embarcar para o mar, o que acontece entre as 17 e as 18h00. Regressam a terra às primeiras horas do dia seguinte.
Os pescadores que utilizam canoa vêem as coisas complicadas no tempo das chuvas. Quando chove, um dos membros da tripulação é obrigado a retirar a água enquanto os outros pescam ou remam.
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PROJECTO FINAL DA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA DE ANGOLA
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