Filipe Zau|

Alda do Espírito Santo à luz da candeia poética

12 de Março, 2010
"(…) Canta, criança minha
/teu sonho gritante /na areia distante
/da praia morena.” [do poema “Para lá da praia" de Alda do Espírito Santo]

Todas as grandes mulheres só deveriam nascer ou morrer em Março, o mês que as homenageia como agentes estratégicos de democratização e desenvolvimento. Alda do Espírito Santo, a “tia” Alda, morou em Lisboa, no 1º andar do 37 da Rua Actor Vale, casa da Sra D. Andreza, que ficava em frente à escola onde iniciei os meus estudos primários. A “tia” Alda – tia dos seus verdadeiros sobrinhos e daqueles que a souberam respeitar, quer como “mais velha”, quer como intelectual africana politicamente esclarecida –, nasceu em Abril de 1926, mas faleceu em Março, mês do dia internacional da mulher, pouco tempo antes do seu 84º aniversário natalício.
Os meus pais residiam numa outra rua ali perto, no 1º andar do 11 da José Ricardo, onde também morou o marítimo angolano “Zito” Van-Dúnem. Nas décadas de 50 e 60, havia, em Lisboa, um espontâneo sentimento de solidariedade e cumplicidade entre todos os africanos nascidos nas ex-colónias portuguesas e descendentes destes, que os levava a visitarem-se e a protegerem-se de situações desagradáveis decorrentes do facto de termos uma cor diferente. Naquele tempo, em que havia poucos negros e mestiços em Portugal, as famílias africanas davam-se todas muito bem, independentemente de uns serem operários, outros serventes e ainda outros estudantes ou jogadores de futebol. Ser africano era ser “patrício” e os “patrícios” de uma mesma pátria cultural africana, obrigatoriamente, se cumprimentavam ao se cruzarem nas ruas, mesmo que nunca se tivessem conhecido antes. Foi assim que conheci a professora Alda e toda a família Espírito Santo. A residência onde moravam, no 1º andar do 37 da Rua Actor Vale, transformou-se, clandestinamente, no Centro de Estudos Africanos (CEA), criado à margem da Casa dos Estudantes do Império (CEI). Ali se reuniram relevantes intelectuais e líderes do nacionalismo em busca do “Eu Africano”, da revalorização do homem negro e da consciência de ser colonizado. De entre os principais animadores da CEA constavam: Alda do Espírito Santo, Arlindo do Espírito Santo e Francisco José Tenreiro (S. Tomé e Príncipe), Agostinho Neto, Mário Pinto de Andrade, Lúcio Lara e Humberto Machado (Angola), Amílcar Cabral (Guiné-Bissau) e Noémia de Sousa (Moçambique).
Em 1948, Francisco José Tenreiro deu uma palestra na Associação Académica da Faculdade de Medicina de Lisboa, sob o título “Introdução ao estudo da literatura negra”, de que hoje não existe cópia. Nesse mesmo ano, na Casa de África Portuguesa, em Lisboa, Agostinho Neto leu poemas de vários africanos, na presença de Vasco Cabral (Guiné-Bissau), Marcelino dos Santos (Moçambique), Mário Pinto de Andrade e Amílcar Cabral.
Consta que, nessa altura, Agostinho Neto aproveitou para comunicar que recebera uma carta de Viriato da Cruz, que se encontrava em Luanda, dando a conhecer a formação de um centro cultural e do Movimento dos Novos Intelectuais de Angola (MNIA), sob o lema “Vamos descobrir Angola!”. Nessa carta, Viriato informava ainda que tinham a intenção de se dedicarem ao estudo da história africana e da arte popular e à escrita de contos e poemas, promovendo assim a edição e venda de livros.
Consta ainda que o MNIA terá, eventualmente, servido de mote para a formação do CEA, um espaço de tertúlia onde poucos estudantes africanos participavam devido às acções repressivas da PIDE. O mesmo funcionou semanalmente, aos domingos, provavelmente entre Agosto de 1951 e o segundo semestre de 1953. De acordo com Mário Pinto de Andrade, que se exilou em Paris em Junho de 1954, a última sessão da CEA teria decorrido a 11 de Abril de 1954. Contudo, esta data pode não ser precisa, já que existe uma convocatória endereçada a Arlindo Espírito Santo (dono da casa) para uma reunião do CEA com data de 10 de Outubro de 1954.
Contrariamente às gerações de africanos em Portugal, dos anos 1910 a 1930, que assumiram posições de denúncia e atitudes reivindicativas para a obtenção de melhores condições de cidadania num quadro integracionista entre a metrópole e as colónias, a geração de 50 assumiu, em toda a plenitude, a sua identidade africana e acabou por romper definitivamente com o sistema colonial português. Foi este grupo restrito de estudantes africanos que decidiu, mais tarde, apoiar a criação do Clube Marítimo Africano (CMA), onde o estudante Humberto Machado, que coabitava com alguns dos chamados “embarcadiços”, passou a ser um dos maiores impulsionadores para a fundação desta associação.
O CMA foi criado por iniciativa de trabalhadores africanos da marinha mercante e estudantes africanos residentes em Portugal (alguns deles ligados a outras associações e/ou movimentos políticos clandestinos), tendo sido posteriormente legalizado em Dezembro de 1954, com a aparente finalidade de promover “a educação física e a prática de desportos entre os seus associados, proporcionando-lhes também meios de recreio e de cultura”.
A 10 de Fevereiro de 1955, depois de ter chegado de viagem, “Zito” Van-Dúnem foi enviado para a prisão de Caxias sob suspeita de fazer parte do Partido Comunista Português, apesar de um relatório da PIDE, de 9 de Fevereiro de 1955, que respondia ao pedido de averiguações sobre os fins a que se destinava o CMA, ter concluído o seguinte: “O Clube Marítimo Africano, ainda sem sede, foi fundado por Humberto Machado, residente na Rua Leite de Vasconcelos, 82 – cave, e pelo indivíduo a que se refere o serviço, Raul Francisco Caterça. Aqueles indivíduos fundaram este clube com o fim de reunirem todas as pessoas oriundas das nossas províncias africanas, que se encontram a viver nesta cidade de Lisboa, bem como suas famílias, tendo em vista arranjarem casa própria a fim de darem bailes; é por conseguinte um clube somente recreativo”. Porém, durante os vários interrogatórios a que “Zito” Van-Dúnem foi sujeito, a PIDE reconfirmou as suas ligações aos estudantes Agostinho Neto e Humberto Machado, o que, segundo Edmundo Rocha, veio a tornar o “CMA num inédito ‘soviete’ africano incrustado em terras lusas”.
Mário Van-Dúnem, um outro marítimo, irmão de “Zito”, acabou por encaminhar para Angola uma parte de uma máquina policopiadora para a produção de panfletos clandestinos, como se de uma encomenda se tratasse. A missão foi-lhe incumbida por Lúcio Lara que a deixou na Tenda Marítima, uma taberna do bairro típico de Alfama, quando o paquete “Império”, onde Mário Van-Dúnem estava embarcado, se encontrava fundeado, ali perto, em Santa Apolónia.
Quando o paquete chegou a S. Tomé recebeu, no navio, a contra-senha de um vendedor de cocos, que levou aquela parte da máquina policopiadora à escritora santomense Alda do Espírito Santo. No regresso do navio a S. Tomé, Alda do Espírito Santo confirmou-lhe a recepção da mesma. A outra parte da máquina policopiadora chegou a Angola, mais propriamente ao Lobito, através de Manuel Soares Gomes, um outro marítimo que, com a cumplicidade de António Rodrigues da Costa, encarregado da lavandaria do navio “Angola”, a entregou ao nacionalista angolano André Franco de Sousa. Em 1957, a sede do CMA acabou por ser desmantelada pela PIDE, sob a alegação desta associação estar a colaborar com os mentores dos ideais revolucionários.
Muito “para lá da praia”, como arte poética da “tia” Alda do Espírito Santo, estava o seu ideário, que foi comum ao de muitos outros africanos das ex-colónias portuguesas em África. A utopia dos seus sonhos, em prol das independências, encontrou na actividade política clandestina os alicerces para ajudar a alcançar em cada PALOP e no interior de cada um de nós a necessidade de elevação de um baixo sentido de auto-estima, resultante da perda de identidade e da consequente perda de dignidade que, para a maioria dos africanos, não havia ainda sido conhecida.
A poesia de Alda do Espírito Santo foi a luz que iluminou esse percurso para a liberdade.

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