Editorial
África de mãos dadas
04 de Maio, 2010
A FAO está em Luanda para analisar a agricultura continental, tão diversa como as várias regiões africanas. Mesmo cada país africano tem em si diferenças significativas que têm incidência directa na produção agrícola e na segurança alimentar. No caso de Angola temos realidades díspares, condições excepcionais para a produção de cereais e para a pecuária, mas também partilhamos os mesmos problemas de África no seu conjunto.
Angola deve ser o país africano com mais água. A nossa rede hidrográfica garante condições excepcionais para a produção agrícola independentemente da estação das chuvas. Os “desenhadores” das fronteiras do colonialismo até conseguiram colocar dentro de Angola o grande rio Zambeze. Mas também temos um gravíssimo problema de desertificação em várias províncias. A guerra ajudou a criar a pior de todas as desertificações, a humana. A exploração florestal sem regras nem qualquer fiscalização em vastas áreas do nosso país está a acelerar drasticamente a desertificação e esse quadro é real, apesar de termos água em abundância.
O primeiro problema que temos para resolver é, pois, o da desertificação humana. Um país que importa praticamente tudo o que consome, não pode dar-se ao luxo de ter milhões de angolanos nos bairros degradados que cercam as grandes cidades. Essa força humana tem de dar o seu contributo nas vastas regiões despovoadas para colocarmos um ponto final na desertificação humana.
O segundo problema grave com que nos debatemos é o desperdício da água. O grande rio Cunene irriga milhões de hectares de pastagens para o gado e pode fazer das províncias da Huíla, do Namibe e do Cunene o maior celeiro de África. Mas a sua água perde-se no mar, sem qualquer préstimo. Contam-se pelos dedos das mãos os projectos de irrigação e hidroeléctricos ao longo do seu curso. O mesmo se passa com os rios do Kuando-Kubango, todos os grandes rios das províncias do Leste, inclusive o Zambeze e todos os rios do Norte e Centro do país.
O terceiro grande problema tem a ver com os recursos humanos. Angola está num ponto de desenvolvimento onde a agricultura de subsistência já não chega. Para atingirmos a segurança alimentar e produzirmos tudo o que consumíamos, precisamos de produtores que dominem as técnicas modernas e sobretudo precisamos de quadros técnicos. Não faz sentido investir milhões em gado de raça e depois não termos veterinários nem investigação. Não podemos criar grandes explorações agrícolas sem apoio de técnicos de agronomia e muito menos sem investigação. É preciso sair do círculo da agricultura de subsistência mas para isso temos de investir nos recursos humanos.
Neste aspecto, a globalização é muito positiva. Podemos importar, com facilidade, o “know-how” de África que nos falta, ainda que as gritantes carências sejam disfarçadas com os fundos financeiros que abundam e pelos vistos não vão faltar. As organizações especializadas já anunciaram que a economia angolana vai crescer este ano quase dez por cento. Se conseguirmos aumentar substancialmente a produção agrícola, em breve estamos no crescimento de dois dígitos.
Os responsáveis pelo sector da agricultura são chamados a desenvolver ou apoiar projectos que permitam produzir tudo o que consumimos, no curto e médio prazo. Mas o objectivo final tem de alargar a produção de forma a abastecer pelo menos todos os mercados do continente. Temos terra, temos água, só nos faltam braços no meio rural e a componente técnica que facilmente pode ser importada de África.
Angola tem especiais responsabilidades na região austral e em toda a África, exactamente por ser o país com melhores condições para produzir alimentos que acabem com o flagelo da fome no continente. Somos neste momento o país que regista maior crescimento da economia e o petróleo abre-nos as portas do crédito. Face a estas condições excepcionais, os africanos têm os olhos postos em Angola como a derradeira esperança para combater de uma forma eficaz as fome e a miséria. É nestas alturas que as fronteiras se esbatem e a humanidade que sofre, que morre minuto a minuto à míngua de alimentos, está em primeiro lugar. E os angolanos já deram no passado provas evidentes de que são solidários e se despem dos egoísmos quando está em causa a vida. A África tem de dar as mãos para combater a fome e garantir a segurança alimentar. 
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