A Palavra do Director
José Ribeiro|
A economia de bolso
27 de Junho, 2010
Uma palavra, ainda que superficial, sobre economia é para especialistas. Temos em Angola muitos peritos nesta área que não se inibem de opinar. Desses peritos na matéria só esperamos que ajudem a encontrar soluções correctas e justas para os muitos problemas que o nosso país vive e para os grandes desafios que se colocam à comunidade internacional para enfrentar a crise provocada por especuladores de colarinho branco e que em condições normais seriam clientes de presídios de alta segurança.
As circunstâncias da vida fizeram dos angolanos economistas atentos e audazes. Aprendemos a conviver com os tempos heróicos do arroz com peixe-frito ou filetes de tubarão do Mussulo. Aprendemos a trocar uma grade de cerveja por viagens transcontinentais e quando os restaurantes fecharam não hesitámos em criar essa instituição nacional que é o “sopa e almoço” no quintal.
Sabemos da infalível ciência do senso comum que as monoculturas provocaram grandes desgraças em Angola. Ainda nos lembramos de ouvir contar as desgraças dos fazendeiros do sisal que foram à ruína de um momento para o outro porque foram esmagados pelo plástico. Depois veio o café. E sentimos admiração hoje pelos esforços que são feitos para voltar a fazer do Uíge a terra do “bago vermelho” e levar ao Kwanza-Sul a grandeza das companhias cafeícolas, e mesmo para exportar, quando o Cambodja e o Vietname já tomaram conta do bocado de mercado que restava.
Nos primeiros anos de independência aprendemos que as províncias mais ricas se transformam facilmente em pobres quando apenas cultivam para a exportação e quando as cotações internacionais de um produto caem tanto que a venda de um quilo já não chega para pagar uma refeição do camponês. E hoje percebemos porque razão os produtores senegaleses de algodão e arroz estão pobres. Não aguentam a concorrência dos colegas dos países ricos que recebem subsídios dos seus Governos, os preços descem nos mercados e caem na ruína.
Cada angolana sabe do que precisa e de quanto precisa para viver com dignidade, mesmo sem tirar cursos superiores de economia, finanças ou gestão. Também sabemos, desse saber de experiência feita, que pouco ou nada produzimos do muito que precisamos para comer, para que todos tenham no prato a sua refeição quotidiana.
Sabemos também que a água é um ingrediente indispensável à produção agrícola. E para que mais gente tenha a sua ração de mandioca diária, foi agora lançado um programa de fornecimento de água aos agricultores da província de Luanda. Bela medida e de enormíssimo alcance. As hortas da cintura verde de Luanda que estavam no Cazenga mudaram para a Funda. Mas não chega. A grande cidade precisa de muito mais. E o projecto de abastecer de água os camponeses está aí. É de enorme importância.
Também sabemos que o petróleo bruto não vai à mesa, nem depois de refinado. É um erro se fizermos depender a nossa vida e a economia nacional do “crude”. Aguinaldo Jaime, verdadeiro perito em matéria económica, foi a Londres captar mais investimentos estrangeiros e deixou aos potenciais parceiros uma garantia: Angola não vai cair na armadilha da maldição do petróleo. Parece uma declaração de circunstância, mas não é. O Executivo tomou a firme decisão de diversificar a economia e essa aposta, nos últimos cinco anos, tem-se revelado positiva. Temos como resultados visíveis o aumento da qualidade de vida de milhões de angolanos que conseguem produzir uma boa parte do que comem.
Felizmente o Executivo não faz investimentos em projectos agro-industriais com um manual de economia e finanças ao lado, seguindo a par e passo o que lá está escrito. O Executivo não trabalha com palavras, mas com actos. Mais importante do que o “deve e haver” ou a frieza dos números virados para os lucros, é cada cidadão sentir que pela força do seu trabalho está a produzir o que come ou ganha, que tem um salário digno que lhe permite comprar tudo o que precisa para sustentar a família.
Os investimentos públicos são fundamentais. Há poucos países do mundo com tanto investimento público como Angola. Ainda que esses investimentos não garantam por enquanto a totalidade dos benefícios esperados, vale a pena criar postos de trabalho, apostar na produção alimentar sobretudo nas comunidades rurais, dotar o país das infra-estruturas essenciais ao desenvolvimento económico e social. 
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