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Marta Miera| EFE

Morte de jovem revela drama de mães solteiras

20 de Março, 2011
No dia em que Fadua Larui, de 20 anos, foi até diante da Câmara Municipal da cidade onde morava, lançou gasolina sobre seu corpo e acendeu um isqueiro para se queimar, estava há muito tempo a lutar por uma habitação digna que lhe tinha sido negada pelo facto de ser mãe solteira.
“A minha filha não era uma suicida. Só fez isso para protestar e para defender o direito dos seus filhos”, disse à Agência Efe Fatna Ait Bontaib, mãe da jovem.
Entre quatro muros levantados com tijolos, Bontaib, rodeada pelos seus filhos e netos, afirma que Fadua, uma jovem séria, se via forçada a sair à rua para mendigar.
A sua vida reflecte o desespero que pode desencadear a pobreza, mas, sobretudo, o repúdio que ainda existe em Marrocos pelas mulheres solteiras e divorciadas.
Segundo uma pesquisa sobre prevalência da violência de género, apresentada no início do ano, uma em cada quatro marroquinas – ou seja, 2,1 milhões de mulheres – sofreram um acto de violência sexual em algum momento da sua vida. Em lugares públicos, 10,8 por cento de divorciadas e 9,2 por cento de solteiras foram violadas, relativamente a 2,2 por cento das mulheres casadas.
O destino trágico de Fadua começou a ser traçado quando, aos 15 anos, foi violada e ficou grávida do primeiro dos seus dois filhos. Consciente da vergonha que a gravidez nessas circunstâncias representaria para a sua família, optou por se mudar para a cidade de Agadir, no sudoeste do país, e tempo depois foi para Souk Sebt.
Em 2010, o Governo lançou nesta região uma campanha contra a “mussequização”, que obrigou as pessoas a saírem das casas nas quais viviam em troca de um pequeno terreno, mas não gratuito.
Os responsáveis da Associação Marroquina de Direitos Humanos (AMDH) em Souk Sebt asseguram que o terreno que Fadua pretendia comprar lhe foi negado por ela não ter marido.
“Existe um grande problema com as mulheres solteiras em Marrocos. O número é muito elevado e são marginalizadas”, disse à Efe Hassan Ismaili, membro da AMDH.
A jovem reivindicou durante seis meses o seu direito a um terreno, mas não obteve qualquer resposta das autoridades. No dia 21 de Fevereiro, dirigiu-se de manhã à Câmara Municipal de Souk Sebt para voltar a exigir os seus direitos. A AMDH afirma que foi ela humilhada e insultada. Depois disso, Fadua nunca mais voltou para casa.
Um vídeo que circula no YouTube mostra a jovem a gritar que era vítima de uma enorme injustiça. “Não tenho ninguém. Só tenho Deus”, dizia.
O vídeo mostra o corpo da jovem queimando. Um polícia observa a cena sem reagir, enquanto outro homem tenta apagar o fogo. Os outros presentes apenas observam a cena. Com queimaduras de terceiro grau, Fadua foi internada num centro médico que, segundo a AMDH, não contava com os meios necessários para a tratar, por isso foi transferida para um hospital de Casablanca no dia seguinte.
No entanto, a jovem não resistiu e morreu a 23 de Fevereiro.
“Em momento algum me informaram sobre o que aconteceu. Transferiram-na para Casablanca sem nos avisar, apesar de termos esperado durante a noite, do lado de fora do centro médico, por alguma notícia. Até hoje, nenhum funcionário nem representante das autoridades nos visitou”, disse a mãe de Fadua, enquanto mostrava um álbum de fotografias.
Numa das imagens, toda a família posa junto a um retrato do rei Mohammed VI. Todos sorriem e nos seus rostos é possível ver o orgulho por estarem diante do retrato do monarca, o mesmo que há poucos dias anunciou uma reforma constitucional.
Os jovens que protestaram em 20 de Fevereiro para pedir reformas políticas e sociais, hoje sairão outra vez às ruas, segurando cartazes a pedir “dignidade”. A mesma reivindicação de Fadua.

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