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Horácio dá Mesquita|

O "Njango ya Swalali"

01 de Setembro, 2009
O “Njango ya Swalali” foi o jornal oficial das antigas Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (FAPLA), montado na secção de litografia da Imprensa Nacional, chefiada por João Gonçalves, hoje um distinto especialista em gastronomia.
Uma grande parte dos oficiais generais conheceu o “Njango”. Lembro-me perfeitamente do dia em que o então capitão José Maria se deslocou à Direcção Política das FAPLA ter com o também capitão Osvaldo Serra Van-Dúnem, alertando para que não se publicasse material sobre a preparação combativa e aspectos do regulamento de combate, porque o jornal tinha mais abrangência do que supúnhamos.
A Imprensa Nacional era uma verdadeira escola e sempre foi, desde o século XIX, quando nasceu a Imprensa Angolana. Lá estava o Luís Henriques e todo o pessoal empenhado na composição e ilustração, que resultavam num primor.
Há 30 anos, foi publicada pelo “Njango ya Swalali” a primeira banda desenhada pós-independência. Deve-se recordar que sempre existiu BD no nosso país, não cabendo a quem quer que seja reclamar o papel de pioneiro da banda desenhada em Angola.
Durante três meses, o “Njango” publicou a história da Batalha de Kifangondo, mostrando o que se passou nos combates, antes, durante e depois da independência, desde a emboscada dos Libongos, que resultou na recuperação do BRDM que, durante muitos anos, esteve exposto no Largo do Kinaxixi, com um buraco bem visível na sequência de um projéctil de 90mm, provocando a morte de toda a tripulação. A BD mostrou o que se passou na “Mãe de Todas as Batalhas”.
O “Njango ya Swalali” ensinou muitos quadros a cuidar dos equipamentos, o aprumo e a reciprocidade da saudação, sendo o respeito a base da disciplina. Dessa publicação saíram quadros, de entre os quais alguns directores de actuais semanários privados.
O jornal das FAPLA ensinou-nos a ser pragmáticos, a não enganar o chefe, fazendo relatórios que não correspondem à realidade. Se algo corresse mal no nosso trabalho, agíamos rapidamente analisando a situação com realismo e frontalidade.
“O país está a mudar”, disse o actual Presidente da Assembleia Nacional, Fernando da Piedade Dias dos Santos, quando desempenhava o cargo de Primeiro-Ministro durante uma visita a Cabinda. Parece-nos, entretanto, que existem personagens distraídas.
Passaram-se décadas e hoje são os nossos filhos que, naturalmente, vãotomando as rédeas do país. São eles os ministros, PCA, governadores, etc. É a lei da vida. Temos de ter consciência que o papel que tínhamos outrora, em que tudo tinha de passar obrigatoriamente por nós, já era.
Há cerca de um mês, numa das emissões do programa “Tchilar”, do Canal 2 da TPA, um grupo de jovens, na faixa etária dos 16 aos 20 anos, era confrontado com o pseudo-passado da BD. Foi com naturalidade que rejeitaram qualquer colagem. “Estamos noutra”, disseram. “Não temos qualquer influência nessa direcção, os nossos autores são internacionais, são aqueles que vemos nos canais de TV e na Net”. As pranchas que exibiam mostravam isso claramente.
Eu, pessoalmente, não executo BD. Tenho o domínio das técnicas de televisão, o que tenho feito noutros países é desenho animado. Estou surpreendido com os avanços que os jovens do departamento que chefio têm alcançado em 3D. Eles estão noutra pedalada e eu recolho-me humildemente ao meu lugar, situo-me, pondo de lado egocentrismos, protagonismos, sou filantropo e nem me passa pela mente fazer críticas pejorativas gratuitamente a jovens que têm idade para serem meus filhos, agredindo-os na auto-estima com posições retrógradas e estáticas.
O que os pseudo-pioneiros ou kotas, como se auto-intitulam, mostraram durante estes anos foi elitismo, demonstrando com essa postura o distanciamento em relação às novas gerações e à evolução natural da vida.

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