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Roger Godwin |
Robert Mugabe quer eleições
13 de Dezembro, 2011
Firme, determinado e sem qualquer tipo de receio é como se sente o Presidente Robert Mugabe, na condução dos destinos do seu país rumo às eleições que ele insiste que devem ser realizadas já no próximo ano, e não em 2013 como exige a troika de países membros da SADC que vem observando de muito perto o desenvolvimento de todo o processo.
Apesar da sua adiantada idade e do seu propagandeado mau estado de saúde, a verdade é que quem vê de perto o velho líder africano reconhece nele a existência de uma enorme vitalidade e de uma indomável vontade e determinação em permanecer ao leme da governação do seu país.
Na cidade de Bulawayo, onde decorreu a semana passada a 12ª Conferência Nacional do seu partido, a ZANU-PF, Robert Mugabe não deixou por mãos alheias os seus dons oratórios. Em dois discursos, o primeiro de duas horas e meia e o segundo de 90 minutos, foi violentamente agressivo para com aqueles que teimam em pensar de forma diferente da sua, sejam eles zimbabueanos ou de uma outra qualquer nacionalidade.
Aos seus compatriotas que militam na oposição ameaçou com a adopção de “medidas severas contra quem apele a qualquer tipo de “desobediência civil”. Os seus correligionários que opinam não haver condições para a realização de eleições em 2012 foram por ele catalogados de estarem ao serviço de interesses contrários aos do país.
Para os países ocidentais, sobretudo para a Franca, Estados Unidos e Inglaterra foram direccionadas uma série de acusações relacionadas com a imposição de sanções económicas e políticas que colocaram o país à beira do caos social.
Recebendo apenas a solidariedade de alguns países da SADC, entre os quais Angola, o velho líder africano não hesitou em reafirmar o seu empenho nacional e continental na luta contra as desigualdades e na promoção e aplicação daquilo que chama “indigenização” da economia do país como forma de combater as tentativas de neocolonialismo que são desencadeadas com o beneplácito da Inglaterra.
Muitos podem considerar que a teimosia de Robert Mugabe é manter vivo o calendário eleitoral e uma opção catastrófica e que arrastará o Zimbabwe para um abismo ainda mais profundo.
A própria comunidade africana, com destaque para os países da SADC, que por imperativos regionais tudo fazem para evitar a degradação da situação interna do país, sente alguma dificuldade em articular o seu discurso com aquilo que se pode entender como uma estratégia global para garantir a paz e a estabilidade.
Por outras palavras, existe a convicção quase generalizada que insistir na realização de eleições para 2012 pode ser uma decisão suicida e catapultadora de uma enorme onda de violência que pode arrastar mesmo para uma guerra civil.
Mas, à boa maneira africana, existe igualmente a tentação de tudo fazer para não contrariar o “mais velho”, respeitando o seu estatuto de grande líder, vendo nele uma espécie de referência de orgulho para todo o continente africano.
Esta dualidade de posição ou, se preferirem, de ler o problema, e o espaço que Mugabe encontra – e explora com grande mestria – para apresentar discursos de grande empolgamento nacional revestidos de alguma demagogia, mas de uma visível aceitação junto das bases do seu eleitorado.
Escolhendo o ocidente como seu grande “inimigo de estimação”, Robert Mugabe encontra no que sucedeu com Muammar Kadhafi e antes com Hosni Mubarak o grande argumento para apelar a uma unidade africana que, no seu caso, apenas se tem traduzido pelo apoio recebido dos seus parceiros da SADC.
Contra os argumentos esgrimidos por Mugabe está a prática que nos diz que, nos últimos quatro anos, o seu partido ou o governo que ele suporta nada fez para que o calendário eleitoral pudesse ser mantido vivo.
A exigida e aprovada remodelação da Constituição continua na estaca zero. O referendo nacional, que a ratificaria, continua sem efeito uma vez que nada há para referendar.
Sem isso, ficou desde sempre claro que a comunidade nacional não abriria os cordões à bolsa no apoio ao processo eleitoral.
Como se tudo isto já não fosse suficiente, surgiu, recentemente, uma nova posição do líder zimbabueano que argumenta não ser necessária a realização de um novo registo eleitoral, considerando que isso seria uma pura “perca de tempo e de dinheiro”.
Ora, sem nova Constituição, sem referendo nem registo eleitoral e sem dinheiro, fica difícil entender como pode o Zimbabwe correr para umas eleições que, já à partida, se afiguram geradoras de uma maior divisão do que de união entre todas as forças vivas do país.
De qualquer das formas, os dados estão lançados: o governo trabalha para umas eleições que, a realizarem-se, serão geradoras de maior divisão social, enquanto a oposição, que tudo vem fazendo para protelar o sufrágio, se prepara para abandonar o “governo de inclusão”, sabendo que a esperam amargos dias de incerteza quanto ao seu próprio futuro.
À comunidade africana, mais uma vez, está destinado o ingrato papel de tentar conciliar os desejos de um dos seus melhores filhos com os de todo um povo que permanece refém de interesses a que é alheio. 
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