Observatório do Balão
Arnaldo Santos |
As falas dos outros e as nossas
07 de Fevereiro, 2012
Por aí, tem boas e más falas. Não me excluo de pertencer a essa gente palavrosa. Nessa nossa lídima liberdade de exprimir o que pensamos, nem sempre somos felizes. É um risco muito comum e acontece com os melhores. As mais inofensivas intenções são muitas vezes tidas como condenáveis e tem discursos aparentemente bem-intencionados mas intrinsecamente venenosos.
Temos que nos acautelar dessas falas que quando se exprimem pela via da escrita não têm muitas desculpas, a não ser para aqueles de temperamento bilioso. Nasceram assim, o que é que se pode fazer? Não podem ser subestimados. A palavra escrita tem muita força e permanece.
Não sei se a actual aversão à Leitura foi gerada por esse medo. Não entende assim a UEA, que abraçou um projecto de edição de antologias e recentemente, através de Domingas Econgo de Almeida, fez a tradução de uma delas de contos para a língua árabe.
Mas ainda e a propósito do poder da palavra escrita, recorde-se o que se passa nas manifestações. Os insultos mais soezes e rasteiros perdem-se, mas ficam as parangonas dos cartazes: e neles nem sequer é necessário apurar o verbo nem a gramática. Quem manda o seu pensamento pela boca afora, dificilmente depois o retém quando ele se desmorona em banalidades. Imaginem então o quadro quando a boca infamante está já torcida pelo rancor guardado durante muitos anos, nem é bom pensar. Aliás, nem é preciso esse esforço. Basta reparar no que tem acontecido com maior ou menor desfaçatez na nossa vida de todos os dias tanto aqui na banda como lá fora.
Não pretendo “colonizar” os pensamentos de ninguém mas parece-me que se pode fazer um bom uso dessa teoria com fins virados para o bem e a partir de uma constatação já denunciada aqui pelo colega Domingos – a campanha de alguns media portugueses contra o nosso país. Em síntese: ela pretende criar entre os seus nacionais, uma grande aversão contra Angola, país de corruptos e mafiosos. Atenção então aos mwangolés desprevenidos e que se pavoneiam nas metrópoles! É essa imagem que eles deixam em Lisboa quando esbanjam com grande alarde nas compras de grifes ou nas boites nocturnas do Cais do Sodré ou Bairro Alto. Atenção portugueses que vêm para o nosso país para trabalhar honradamente! O que é que essa media visa propor insidiosamente? Parece-me grave o que se esconde por detrás dessa campanha que nos transforma a todos em corruptos e mafiosos, pois, se não somos nós próprios são os nossos parentes e na banda quase todos somos mais ou menos parentes. Parece-me também grave, por recear que os angolanos, por um sentimento de nacionalismo estreito, queiram revidar. Mas contra quem? As pessoas que hoje nos procuram e em quem não podemos ver futuros corruptores nem mafiosos, mas gente que pretende trabalhar de maneira honrada, não só em seu benefício mas também do povo que lhe acolhe e não apenas de alguns?
Pergunto-me às vezes se em virtude dessas campanhas dos media portugueses, não estarão certos aqueles que quiseram interpretar o rigor profissional dos nossos funcionários do SME por um acto de puro revanchismo? 
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