Mundo Árabe
Omar el Sadr|

Salafitas egípcios tentam assaltar o poder

11 de Agosto, 2011
Aos poucos, quase que de forma simulada, os salafitas egípcios – braço mais radical dos islâmicos – começam a deitar as garras de fora e a escolher os seus alvos de ataque para conseguirem conquistar a simpatia da população, que de tanto desesperada está à mercê de eventuais "pregadores de promessas".
Nesta sua esperada "ofensiva", os salafitas escolheram a minoria cristã como primeiro alvo, crescendo a ideia de tentarem criar uma conexão entre coptas e o regime de Hosni Mubarak por força de alguns privilégios que ele concedeu a uma confissão religiosa que representa cerca de dez por cento da população egípcia.
Apesar de serem minoritários, os cristãos têm uma forte influência na sociedade egípcia pelo facto de estarem profundamente integrados em classes imprescindíveis para o funcionamento do país, como são os médicos, professores e engenheiros bem como, sobretudo, no meio empresarial.
Depois de numa primeira fase os salafitas terem recorrido às bombas e a uma violência grosseira para tentar minimizar a importância dos cristãos, chegou agora a vez de os confrontarem nos seus próprios postos de trabalho criando uma divisão, ou mesmo segregação social, que não augura nada de bom e contraria os constantes apelos de "unidade nacional" que têm sido lançados pelos militares, ainda no poder.
Do ponto de vista meramente político os salafitas necessitam de desencadear acções que promovam a sua imagem junto da população, até para servirem de contraponto à estratégia que os Irmãos Muçulmanos (braço islâmico menos radical) desenharam de compromisso com os militares face à necessidade de protegerem a tal "unidade nacional".
Os Irmãos Muçulmanos, cujo partido que inspiraram (Paz e Liberdade) tem um cristão copta como vice-presidente, mantêm com os militares uma espécie de "pacto de regime", já publicamente abençoado pelos Estados Unidos e que visa o triunfo nas eleições legislativas, que continuam agendadas para o final do próximo mês de Setembro. Os salafitas, que também já criaram dois partidos políticos para concorrer às eleições, representam actualmente a mesma percentagem de cidadãos que os cristãos mas têm, inegavelmente, muito mais espaço de manobra para alargarem a sua base de apoio.
Para isso, basta-lhes conquistar apoiantes nas fileiras dos Irmãos Muçulmanos, aproveitando-se do crescente descontentamento popular face à lentidão com que se alega estarem a ser implantadas as "conquistas da revolução". Mas não são só os cristãos que estão no ponto de mira dos salafitas. Os militares, ainda no poder, são igualmente um "alvo a abater" por força da sua alegada conivência com o anterior regime, de onde são oriundos os seus principais responsáveis. Aproveitando-se do desencanto que se apoderou da juventude que habitualmente escolhe as ruas para se manifestar, os salafitas convocaram para esta sexta-feira uma concentração na célebre Praça Tahrir, onde pretendem juntar mais de um milhão de pessoas.
O objectivo desta concentração é o de exigir dos militares a aplicação de medidas que "purifiquem a sociedade egípcia" e que são, segundo os seus responsáveis, a proibição de cultos cristãos, o julgamento sumário de Hosni Mubarak e de todos os seus anteriores ministros e a adopção de leis que melhor se adeqúem à tradição islâmica.
Estas reivindicações, consideradas como um libelo político destinado a captar votos junto do eleitorado muçulmano identificado com ideias radicais, representam, por si mesmas, uma afronta ao próprio Conselho Superior Militar, uma vez que os seus principais líderes serviram, durante longos anos, sob as ordens de Mubarak.
Por outro lado, a proibição de cultos religiosos e a adopção da lei islâmica só seriam possíveis com uma alteração da constituição.
Mesmo partindo do princípio que os militares aceitassem, extraordinariamente, adoptar este caderno reivindicativo, isso significaria que o Egipto – mesmo sem eleições – passaria a ser uma república islâmica gerida por uma ditadura militar e isso dificilmente seria aceite de forma pacífica pela esmagadora maioria da população que, até agora, tem reservado para si as suas próprias escolhas políticas.
Face a este cenário de tentativa salafita de comandar as rédeas da contestação, o Egipto corre agora o risco de ver ainda mais comprometidos os sinais democráticos que a revolução, a determinada altura, tornou mais fortes.
Os jovens, que despoletaram as acções que levaram à queda do regime, são cada vez mais ultrapassados pelos acontecimentos que eles próprios, por falta de organização, não conseguem controlar.
A própria praça Tahrir, que eles ajudaram a ser conhecida no mundo inteiro, corre agora o risco de ficar nas mãos dos salafitas e de servir de ponto de partida para aquilo que os próprios jovens mais temem: a criação de uma república islâmica que não seria mais do que a negação de tudo aquilo que têm vindo a defender.
Os Irmãos Muçulmanos, ao tentarem conciliar a religião com a política, acabam por perder muitos apoiantes que não aceitam qualquer tipo de comprometimento com o mundo ocidental, até por verem nele como que uma reencarnação daquilo que foram os tempos do regime de Hosni Mubarak.
Desta forma, e aproveitando a incapacidade prática de serem resolvidos os problemas do povo, os salafitas começam a ser uma séria ameaça à estabilidade do país. Os primeiros alvos são os cristãos e os militares. Depois, bem depois, seria o próprio povo a sentir o quanto custa perder a liberdade.

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