Política

Baixa de Cassange é referência histórica de Angola

Francisco Curihingana | - 04 de Janeiro, 2010

Regedor Sokola Matari relatou os factos ocorridos no dia 4 de Janeiro de 1961

Fotografia: Eduardo Cunha

Falar da Baixa de Cassange implica fazer uma incursão àquilo que marca a verdadeira história de Angola. A história da região representa a bravura de um punhado de angolanos que, fartos da exploração colonial e sedentos de independência e liberdade, começou a manifestar a necessidade de o colonialismo colocar ponto final à escravatura de que o povo angolano era alvo.
Na altura, o povo não dispunha de meios de defesa compatíveis aos do exército português, mas o patriotismo falou muito mais alto, ao ponto de, em nome da liberdade, colocarem as suas vidas em troca.
Os colonialistas portugueses dispunham de espingardas automáticas, mas o poderio colonial não deitou abaixo as aspirações de um povo que sempre sonhou com a sua independência e liberdade.
A localidade do Teka dia Kinda, no município do Quela, é bem o testemunho do heroísmo daquele grupo de angolanos que, cansados da atitude colonialista, dos maus tratos, preços baixos do algodão e do racismo, desencadearam a revolta que provocou centenas de mortos entre os camponeses da Baixa de Cassange.
O regedor Sokola Matari Kumata, que falou à reportagem do Jornal de Angola, disse que, além de se insurgir contra esses maus tratos, o povo protestou contra outras atitudes menos correctas dos colonizadores, como, o trabalho forçado, a denominação de todas as senhoras negras de “Maria”, entre outros, o que, “infelizmente nos trouxe aqueles resultados desastrosos”, como referiu. “Morreu muita gente que se encontrava próxima do local do massacre, na aldeia “Socola”, incluindo o pastor David Socola da Igreja Metodista Unida e outras pessoas a si próximas, oriundas do Teka-dia-Kinda, Kula Mazau, Kamavo, Kuia Kissua e Maia Kassange”, confirmou o nosso interlocutor.
O regedor Sokola Matari Kumaca contou que quando o exército português protagonizou tal massacre, se dirigiu também para a localidade de Kunda-dia-Base, uma vez que aqui se verificaram, de igual modo, sinais de revolta. “No dia 3 de Janeiro, depois de terem passado a noite no Quela, na manhã do dia 4 eles arrancaram para o Teca-dia-Kinda, tendo encontrado um pau atravessado ao longo da estrada, sinal de bravura da população.
Os “brancos” foram à aldeia próxima chamada “Katoco” pedir auxílio, mas não foram correspondidos pela população”, disse o mais velho, acrescentando que isso constituiu a gota que fez transbordar o copo d’água e transformou aquele dia numa autêntica tragédia que ficou definitivamente marcada na memória do povo angolano.

Quarenta e novos anos depois
 
Passados 49 anos desde aquele condenado acto, o regedor Sokola Matari Kumata pede a materialização do pensamento do guia imortal da Revolução Angolana, o saudoso Presidente Agostinho Neto, aquando da sua visita ao Teca dia Kinda, em 1979.
Realça que quando o saudoso Presidente Neto visitou o local do massacre, propôs a construção de uma “aldeia piloto” no Teka-dia-Kinda, o que culminou com a colocação da primeira pedra. Passados 30 anos, diz o regedor Socola, “tudo morreu, já não há ninguém que se lembra em dar continuidade ao trabalho”.
“Estamos a pedir ao governo para materializar o pensamento de António Agostinho Neto, para a construção da referida aldeia, em homenagem aos mártires da Baixa de Kassange”, disse o Regedor Sokola.