Política

Morreu Costa Andrade Ndunduma

20 de Setembro, 2009

Escritor e deputado

Fotografia: Mota Ambrósio

O escritor e deputado angolano Fernando da Costa Andrade “Ndunduma We Lépi” faleceu sexta-feira em Lisboa, vítima de doença, aos 73 anos.
A informação foi divulgada em Luanda pelo secretariado do bureau político do MPLA, partido que representava como deputado na Assembleia Nacional.
Homem de letras e poeta consagrado, artista plástico e membro fundador da União dos Escritores Angolanos, Ndunduma contribuiu decisivamente para libertação de Angola do jugo colonial tendo participado na luta armada de libertação nacional, na frente leste do MPLA nos anos 60 e 70.
Patriota convicto,  Ndunduma tem uma trajectória de entrega total à causa mais nobre do povo angolano, a conquista da independência nacional, da paz, da democracia e do progresso social.
O súbito desaparecimento físico de Ndunduma provoca um enorme vazio difícil de preencher nas fileiras do MPLA, afirma a nota do bureau político.
O comunicado de imprensa do MPLA, diz ainda que Fernando Costa Andrade “Ndunduma” deixa um vazio nos círculos políticos do país e particularmente na Assembleia Nacional “onde trabalhou com muito empenho e dedicação”.
“Em nome dos militantes simpatizantes e amigos do MPLA o bureau político curva-se perante a memória do malogrado deputado e apresenta à família enlutada os seus mais profundos sentimentos de pesar”, diz a nota de imprensa.

Estudos de Arquitectura
    
Francisco Fernando da Costa Andrade ou simplesmente Costa Andrade, também conhecido por Ndunduma we Lépi, nome de guerra adoptado nos tempos da guerrilha no Leste de Angola, durante os idos anos 60 e 70, nasceu no Lépi, localidade situada na actual província Huambo, em 1936. Fez os estudos primários e liceais na cidade do Huambo e Lubango.
Por razões que se prendiam com a falta de universidades ou outras escolas superiores na Angola colonial, como acontecia na generalidade com os jovens da sua geração, Costa Andrade encontrava-se em Portugal, nas décadas de 40 e 50, com o objectivo de, em Lisboa, realizar estudos de Arquitectura.Com Carlos Ervedosa, foi editor da Colecção Autores Ultramarinos da Casa dos Estudantes do Império, que desempenhou um papel decisivo na divulgação das literaturas africanas de língua portuguesa, especialmente da literatura angolana.
Deixa colaboração dispersa em várias publicações periódicas. Publicou textos sob vários pseudónimos, sendo o mais recente o heterónimo Wayovoka André. Além de Portugal, fixou residência por longos períodos de tempo do seu exílio em países como Brasil, Jugoslávia e Itália, onde, além de prosseguir os estudos superiores, desenvolveu uma intensa actividade de conferencista.

Membro fundador da União de Escritores

É membro fundador da União dos Escritores Angolanos. Entre os vários pseudónimos que usou, destacam-se Africano Paiva, Angolano de Andrade, Fernando Emílio, Flávio Silvestre, Nando Angola.
A versatilidade de Costa Andrade, confirma-se com a sua já conhecida faceta de artista plástico. Mas tal prova acima de tudo uma personalidade, um escritor, um artista que procurava estar em permanente busca de materiais e matérias para o trabalho criativo, avultando na sua história pessoal a arte do compromisso e da ruptura ao mesmo tempo.
 Da sua bibliografia, em que se inscrevem obras de poesia, ficção e ensaio, destacam-se, pelo seu número as obras de poesia.  Obra: Terras das Acácias Rubras (1960, Lisboa, Casa dos Estudantes do Império); Tempo Angolano em Itália (1962, São Paulo, Felman-Rego); Armas com Poesia e uma Certeza (1973, Cazombo-DEC); O Regresso e o Canto (1975, Lobito, Cadernos Capricórnio); Poesia com Armas (1975, Lisboa, Sá da Costa); Caderno dos Heróis (1977, Luanda, União dos Escritores Angolanos); No Velho Ninguém Toca (1979, Lisboa, Sá da Costa); O País de Bissalanka (1980, Lisboa, Sá da Costa); O Cunene Corre para o Sul (1981, Luanda, União dos Escritores Angolanos), entre outros.
No seu combate político, ficou conhecido pelos editoriais publicados neste Jornal quando era director em finais dos anos 70, com o título ”Bater no Ferro Quente” a favor do fortalecimento do MPLA, após os trágicos acontecimentos de 27 de Maio de 1977.