Óculos são vendidos em "oculistas" de rua sem receita
Agostinho João desistiu do sonho de ser engenheiro para se dedicar ao negócio de venda de óculos pelas ruas da cidade de Luanda
Fotografia: Vitorino Joaquim
Todos os dias, jovens vendem óculos de sol e graduados na Baixa, como um produto qualquer, sem nenhum controlo nem impedimento. No cruzamento das ruas Ámilcar Cabral e Rainha Ginga, Domingos António vende óculos, numa pequena caixa.
Muitos destes vendedores não têm consciencia do perigo da venda de óculos, sem receita médica nem controlo. Os produtos são adquiridos principalmente na praça do Kikolo.
Domingos António, 27 anos, é pai de dois filhos. Ele conta que o negócio não é muito lucrativo, mas já dá para viver.
“Eu vendo óculos há dois anos e é com este dinheiro que consigo resolver os problemas da casa, da alimentação, da escola dos filhos e ainda comprar mais mercadoria para vender nos próximos dias, para o negócio não ir abaixo”, explicou à nossa reportagem.
Domingos António acrescentou que os seus clientes consultam antes um optometrista e recorrem à venda de rua “para comprarem óculos graduados mais baratos”. Existem clientes que compram apenas a armação na rua para depois irem à óptica médica para mandar colocar as lentes.
“Mas existem também clientes que já usam óculos graduados, conhecem a sua graduação, pedem os óculos adequados, pagam e levam a mercadoria sem problemas”, disse.
Do outro lado da rua estava Vieira Alfredo, 33 anos. Pai de quatro filhos, Vieira Alfredo vende óculos há quatro anos.
“Como não consegui emprego na minha profissão de motorista, uma vez que perdi a carta de condução, estou a dedicar-me a esta actividade até poder recuperar a minha carta”, explicou.
Vieira Alfredo só vende óculos graduados. Com o lucro da a venda de óculos consegue sustentar a família. Os seus principais clientes são pessoas mais velhas.
No Kinaxixi, junto à Direcção da Polícia Económica, Agostinho João, 27 anos, pai de cinco filhos, vende óculos de todo o tipo. “É um negócio que não dá muito lucro, mas já é qualquer coisa, dá para sustentar a família”, explicou.
O sonho de Agostinho João é ser engenheiro, mas por falta de dinheiro não conseguiu materializar o seu objectivo. Face às necessidades da vida, Agostinho teve que deixar de estudar e passou a dedicar-se ao negócio da venda de óculos de sol e graduados.
“Os óculos graduados são os que menos consigo vender. Com o dinheiro do lucro, faço a divisão do dinheiro, uma parte fica com a minha mulher, a outra vou comprar mais mercadoria”, explicou Agostinho João, que sonha um dia voltar a estudar para concretizar o sonho de ser engenheiro.
Manuel Jaime, 29 anos, pai de três filhos, também enveredou pela venda de óculos. O seu posto de vendas é na Rua Comandante Valódia, local que escolheu para fazer o seu negócio por haver muito movimento. As jovens são as suas melhores clientes, porque compram muitos óculos de sol.
“Os óculos de sol são mais baratos, podem custar entre 500 a mil kwanzas. Também vendo armações e óculos graduados. Uns óculos graduados podem custar de dois mil a 3.500 kwanzas, dependendo do estilo e tipo de lentes”, afirmou Manuel Jaime, enquato interpelava um potencial cliente.
Receita médica
Manuel Jaime explicou que só vende óculos graduados para leitura, mediante a apresentação de uma receita médica. Reconhece que existem pessoas que, mesmo não apresentando a receita, compram os óculos graduados.
“Mas tenho consciência de que este negócio é ilegal, porque não estou habilitado para praticar este tipo de venda”, reconheceu, sublinhando que conhece os riscos a que submete os seus clientes com a venda óculos sem a mínima formação ou informação para o efeito. “Só faço isto para sustentar a família, antes eu vendia gasosas, mas os fiscais recebiam tudo, então decidi vender óculos”, justificou.
Manuel Jaime revelou que os óculos são adquiridos em caixas apropriadas, muito cedo, na praça do Kikolo. “O meu sonho era ser enfermeiro, mas não consegui estudar, porque constituí família muito cedo, mas um dia vou lutar para fazer a minha formação em medicina e ser um bom médico” disse.
Lucinda Vieira, 21 anos, farmacêutica na Mutamba, disse que só vende óculos graduados por receita médica, devidamente prescrita com a graduação e o tipo de lentes determinado pelo médico. “Sei que nas ruas muitas pessoas compram óculos graduados. Acho isso errado e arriscado”, disse. Por isso, acrescentou, é que algumas pessoas têm lesões oculares devido ao uso de óculos de sol sem protecção contra os raios ultravioletas”, disse Lucinda Vieira.
Efeitos colaterais
Sebastião Vilhena Júnior, médico oftalmologista do Hospital Josina Machel, disse que chegam àquela unidade pacientes com lesões provocadas pelo uso indevido de óculos, graduados ou de sol.
Diariamente, frisou, são atendidos 45 a 55 casos de pacientes com problemas por uso indevido de óculos graduados e de sol. “Acontece que, muitos óculos vendidos nas ruas, não têm qualidade, e é possível que alguns desses produtos sejam piratas, porque nem todos têm protecção contra os raios ultravioletas e solares”, disse o médico oftalmologista.
Sebastião Vilhena Júnior frisou que o número de pacientes com lesões por uso indevido de óculos tende a subir. “Os óculos não são vistos pelos consumidores apenas como um equipamento voltado para a saúde, mas, sim, como um sinal de estatuto, como elemento de moda”, disse o médico.
O médico oftalmologista sublinhou que o desafio é passar essa informação claramente às pessoas que usam óculos, que devem exigir, juntamente com seu padrão estético de preferência, também um padrão de qualidade na hora de adquirir óculos de sol.
A médica especialista em oftalmologia, Vânia Pitta Grós disse que existem várias razões que levam as pessoas a usarem óculos indevidos: “a comodidade, a falta de informação e também razões económicas, pois sempre fica mais barato comprar óculos pré graduados e que servem para todas as pessoas, do que fazer uma consulta e usar a graduação certa em óculos com lentes medicinais de qualidade”.
Vânia Pitta Grós explicou que usar óculos sem prescrição médica pode provocar danos à vista.
“Por isso, as pessoas sempre que sentirem dificuldades de visão, muitas vezes provocadas pela vida moderna, como a utilização excessiva de computadores, ou estar muito tempo à frente da televisão, antes de usarem qualquer coisa, devem consultar um médico oftalmologista. Nestes casos qualquer pessoa que tenha uma pequena deficiência de visão, necessita de corrigi-la, pois o esforço despendido exige o máximo das nossas capacidades visuais”, explicou a médica Vânia Pitta Grós.
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