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Memórias das batalhas que levaram à reconquista da cidade do Luena

Adalberto Ceita e José Ribeiro |

A região Leste de Angola teve um papel relevante na luta armada de libertação nacional. Depois do 25 de Abril de 1974, a cidade do Luena foi palco de um acordo assinado entre o Presidente Agostinho Neto e Jonas Savimbi, que levou a Organização de Unidade Africana (União Africana) a reconhecer a UNITA como movimento de libertação.

General ''Liberdade'' recordou a libertação do Leste da ocupação sul-africana
Fotografia: Mota Ambrósio

Até essa data era apenas uma organização armada que alinhava em operações militares com as forças do colonialismo. Logo a seguir, em Setembro de 1974, na chana do Luinhameje, o MPLA e o Estado Português assinaram um acordo de cessar-fogo. Naquele momento acabou a guerra colonial e ficou aberto o caminho para o fracassado Acordo de Alvor.
De 11 de Novembro de 1975 a Fevereiro de 1976, no Leste de Angola foram travadas grandes batalhas para a expulsão das tropas invasoras sul-africanas, que faziam parte da “Operação Savana”. A cidade do Luso (Luena) foi libertada pelas FAPLA, depois de dois meses de ocupação estrangeira. Entre os combatentes que de armas em punho travaram a progressão dos invasores entre 1975 e 76, está o general João Ernesto dos Santos “Liberdade”, actual governador  provincial do Moxico.
“Liberdade” recorda o que aconteceu: “antes da data da proclamação da Independência Nacional, as forças da UNITA com o apoio das unidades militares sul-africanas ocuparam as localidades de Cangonga, Cangumbe, Chicala e Samafo, arredores da cidade do Luso (Luena). Antes, já tinham tomado as cidades de Nova Lisboa (Huambo) e Serpa Pinto (Menongue), com o objectivo de atingir o Leste do país e rumar para Luanda, via Malanje”.
Os militares das FAPLA bateram-se até onde puderam e a bravura demonstrada custou a vida de ilustres filhos da pátria angolana. O general “Liberdade” lembra com mágoa as mortes em combate dos comandantes Jorró e Gombe.
Ocupadas as zonas à volta do Luena, os invasores iniciaram ataques à cidade e ao posto de comando de defesa da Frente Leste, que estava sob liderança do comandante Dangereux, assassinado em 27 de Maio de 1977. Foram dias de violentas batalhas à volta da cidade do Luena. O general “Liberdade” recorda que no dia 10 de Dezembro de 1975, um mês após a proclamação da Independência Nacional, as FAPLA abandonaram a capital da província do Moxico e recuaram em duas colunas, uma rumo ao Luau e a outra pela estrada de Saurimo.
Para o sucesso da ocupação, os invasores dispunham de material bélico altamente sofisticado: canhões sem recuo G5, morteiros de 120 milímetros, B12, e um avião de reconhecimento. As FAPLA acabavam de sair da guerrilha e além das armas ligeiras “AKM” tinham dois morteiros e algumas bazucas. O general “Liberdade” realça a fraca capacidade de fogo e o acentuado desequilíbrio de meios bélicos.
“Essa desproporção permitiu que as tropas invasoras sul-africanas tivessem a cidade do Luena sob ocupação durante mais de dois meses”, disse.

Cronologia da invasão

Os invasores sul-africanos com o apoio das FALA da UNITA decidiram dar combate às FAPLA com uma força numerosa e bem armada para ocupar o maior território possível, antes da Independência Nacional, a 11 de Novembro de 1975.
Logo no dia 19 de Outubro, a força invasora ocupou Ondjiva, capital do Cunene. No dia seguinte caiu Xangongo. A 22 de Outubro os sul-africanos estavam na Chibia. A queda do Lubango estava por um fio. A 23 de Outubro a Humpata foi ocupada. No dia 24 de Outubro o Lubango caiu nas mãos do invasor, que avançou pela Humpata e subiu a Chela a partir da Chibia. A 28 de Outubro, os invasores tomam a cidade do Namibe. No último dia do mês tomam Catengue, importante eixo rodoviário que dá acesso a Benguela e ao Planalto Central pela via do Cubal, Ganda, Lépi, Caála e Huambo. No dia 4 de Novembro, os invasores ocuparam o aeroporto da cidade de Benguela. A cidade do Lobito é ocupada no dia 7 de Novembro. No dia 13 de Novembro os sul-africanos são travados no Sumbe. As FAPLA recuaram para Porto Amboim. Toda a província do Cuanza Sul foi ocupada até à Cela (Wako Cungo). Mas não conseguiram passar além da Quibala, ponto nevrálgico que dá acesso ao Dondo e depois Luanda. No Ebo os invasores sul-africanos são derrotados.
No dia 18 de Novembro de 1975 foi formado o “Grupo de Combate X-Ray”. O alto comando sul-africano tomou esta decisão “a pedido de Jonas Savimbi”. Poucos dias depois saiu do Munhango em direcção à cidade do Luena. No final de Novembro um regimento de artilharia sul-africano chegou à frente de combate nos arredores do Luena.
O “Grupo X-Ray” dividiu-se em três equipas. Uma avançou para o Lumege, a sul da cidade do Luena. As outras apertaram o cerco à capital da província do Moxico. A artilharia foi decisiva para o resultado final: a retirada das FAPLA e a ocupação da cidade pelos invasores.

Comando no rio Cassai


O Estado-Maior das FAPLA da Frente Leste instalou-se na Missão do Biula, a cinco quilómetros do rio Cassai, na divisão entre as províncias da Lunda e Moxico.
Apesar da desvantagem no terreno e das dificuldades logísticas, o chefe do Estado-Maior General das FAPLA, comandante Xietu, ordenou operações de emboscada e flagelamentos constantes contra os invasores.
Durante todo período de ocupação estrangeira, o posto de comando do Estado-Maior das FAPLA ficou instalado 85 quilómetros, a Norte do Luena, na Missão do Biula.
A reviravolta dá-se no ano seguinte. Depois de acumularem derrotas, os invasores pensam na retirada de Angola. O alto comando sul-africano ordenou a retirada no dia 22 de Janeiro de 1976.
O general “Liberdade” recorda que entre 14 e 15 de Fevereiro de 1976, com o apoio das tropas cubanas, as FAPLA avançaram determinadas para a reconquista da cidade do Luena, obrigando os invasores a recuar para a região do Chinguar, e posteriormente, em direcção ao Cuando Cubango. “Fizemos flagelamentos à distância e não houve resistência.
A reconquista do Luena permitiu a consolidação das posições que se encontravam sob ocupação das forças sul-africanas e da UNITA, e a partir daquela data iniciámos as operações de limpeza”, recorda o general “Liberdade”.
Pouco tempo depois da conquista da Independência Nacional, além do Moxico, a Frente Leste possuía já unidades militares na Lunda e sempre que necessário eram realizadas intervenções de apoio mútuo.

Episódios de guerra


O general “Liberdade” guarda na memória inúmeros episódios de guerra.
Um dos mais marcantes foi vivido em companhia dos comandantes Xietu, Dangereux, e outros membros do Estado-Maior General das Forças Armadas, numa das missões de acompanhamento das operações militares na fase que a região Leste de Angola constituía o epicentro dos conflitos.
No trajecto do Dala para Luma Cassai, em operação de reconhecimento, as FAPLA foram surpreendidas nas proximidades de uma das pontes do rio Cassai por unidades blindadas das tropas sul-africanas.
“Por ordem do comandante Xietu, destruímos a ponte. Houve trocas de tiros e travámos o avanço dos sul-africanos. Se não tivessemos feito essa deslocação o inimigo tinha avançado e ocupado a cidade de Saurimo. Malanje e Luanda ficariam assim ao seu alcance.”

Ofensiva e reconquista


Na libertação do Luena, as FAPLA estavam divididas em duas colunas militares. O general “Liberdade” comandou uma das colunas e recorda: “uma coluna vinha do Luau e outra do Dala. Houve cruzamento em Camanongue e fez-se uma frente única em direcção à cidade do Luena. A partir do Alto Chicapa, caminhámos a pé até Cangombe e quando chegámos, os invasores já tinham fugido em direcção ao Cuito. No trajecto, cruzámo-nos com o comandante Dangeraux que, juntamente com as tropas cubanas dirigidas pelo comandante Goudinho estavam em perseguição dos invasores sul-africanos”. 
O general “Liberdade” destaca o empenho e a participação do Estado-Maior da Frente Leste e a participação activa na guerra do comandante Francisco Gombe e dos hoje generais Dibala, Nvunda, João de Matos e centenas de jovens vindos do Centro de Instrução Revolucionária (CIR) do Cazage.
Decorrido 39 anos da conquista da Independência Nacional e da expulsão dos invasores da cidade do Luena e da região Leste, o general “Liberdade” garante que valeram a pena os sacrifícios consentidos por milhares de angolanos: “porque hoje são os angolanos que dirigem os destinos do país e quando existem vozes que pensam numa nova independência, devem pensar que a História é um rascunho, mas estão enganados. A História faz-se de factos e a reconciliação nacional cultiva-se mostrando aquilo que construímos ontem, o que fazemos hoje e o que pensamos fazer amanhã”.


''Liberdade'' e as memórias

Muito cedo na causa da Independência

João Ernesto dos Santos “Liberdade” fez a entrada no MPLA a 15 de Janeiro de 1967, aos 13 anos. Foi nessa altura que chegou à base central “Mandume 1”, nas proximidades da fronteira com a Zâmbia, e onde conheceu os comandantes Hoji ya Henda, Dilolwa, Monimambo, Petroff, Toca, Sangue do Povo, Jibóia, Emília, Rodeth dos Santos, e vários outras militantes que se entregaram à causa da libertação de Angola do colonialismo. Por orientação da direcção do partido tiveram que partir para a base “Mandume 2” e dali para a quarta região.
À data da constituição das FAPLA, no dia 1 de Agosto de 1974, “Liberdade” é comandante de coluna e recebe novas responsabilidades.
“Liberdade” fez os estudos primários na escola número 56, na comuna do Alto Dilolo, e o ensino secundário nas províncias da Lunda Norte e Malanje. Actualmente, João Erneste dos Santos frequenta o ensino superior. Um grande combatente está sempre a estudar e a aprender. O general “Liberdade” teve o primeiro combate contra as tropas portuguesas na região do Cazombo. O governador continua a demonstrar uma elevada consciência dos problemas que aborda e recorda com saudade e emoção os companheiros de luta, em particular da IV Região, o companheirismo, os sacrifícios consentidos na guerrilha.
“Tive a oportunidade de conhecer muitos camaradas que hoje assumem cargos de responsabilidades na direcção do país”, diz o general.
Além de passar pela Academia Militar na Rússia, onde aperfeiçoou a formação militar, João Ernesto dos Santos participou na criação do Regimento Presidencial, no Grafanil, e foi o primeiro comissário provincial (governador) da província da Lunda Norte, logo após a divisão da província em Lunda Norte e Lunda Sul, ainda durante o mandato do Presidente Agostinho Neto. Antes de ocupar o cargo de governador provincial do Moxico, “Liberdade” dirigiu as províncias do Huambo e de Malanje.

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