Arquivo Histórico

No tempo dos nossos avós Angola estava às escuras

Artur Queiroz

Primeiras instalações eléctricas legais surgiram há apenas 80 anos em Benguela

Fotografia: Foto: Domingos Cadência

Angola teve sempre um problema de luz elétrica nas habitações. Em Luanda, nem se fala. O  anel de musseque s que cerca a cidade provoca situações quase impossíveis de solucionar. No desordenamento urbano, saneamento básico e fornecimento de água e luz tornam- s e um luxo. Até a iluminação das vias públicas é difícil.

No ano de 1929 o governo-geral fez uma Portaria que permitiu legalizar dezenas de instalações eléctricas que eram exploradas ilegalmente por particulares. A confusão reinava no eixo Lobito, Catumbela e Benguela. Mas em toda a Angola, nesse ano, legais e ilegais apenas existiam 39 instalações eléctricas que rendiam anualmente 12.439 angolares. O que não era pouco. Luz eléctrica era caríssima e toda a gente usava candeeiros a petróleo iluminante, com "torcida".

Só mais tarde apareceram os "petromax", um luxo só ao alcance de alguns. Nessa altura, a Casa Americana, em Luanda, também lançou no mercado as primeiras geleiras a petróleo, que tinham uma chaminé desde o tabuleiro da base até ao topo, para libertar o fumo da chama. Em 1928, Angola registava 54 instalações eléctricas, entre industriais e domésticas. Mas em 1932 os registos mostram que já existiam 830, todas legais e que rendiam anualmente mais de 100 contos, uma autêntica fortuna na época.

O governo criou a Repartição Técnica da Fiscalização das Indústrias Eléctricas, para regular o sector, em expansão. O primeiro relatório apresentado sobre a situação real era desanimador: "lamenta-se o atraso da colónia no que diz respeito à utilização de energia eléctrica para iluminação e uso industrial". As indústrias eram movidas a vapor ou à força humana. As casas continuavam a ser iluminadas a petróleo, que era vendido avulso nas cantinas

Em 31 de Dezembro de 1933, a Repartição Técnica da Fiscalização das Indústrias Eléctricas traça um retrato geral de Angola no que diz respeito a centrais eléctricas. O país todo tinha 129 grupos geradores. Em Luanda existiam 55 que produziam 413 KW. O distrito do Congo, que incluía os territórios das actuais províncias do Uíge, Zaire e Cabinda, tinha apenas três grupos geradores que produziam 30 KW. O Kwanza-Norte tinha dois, o Kwanza-Sul oito mas muito potentes: produziam 279 KW de energia.

Malange tinha igualmente oito grupos geradores, a Lunda (ainda estava unificada) quatro, que produziam 256 KW para alimentar a indústria de extracção de diamantes

Benguela produzia mais energia do que o resto do país. As suas 29 centrais forneciam 2.661 KW. O Bié com as suas nove centrais também produzia 275 KW. Moxico tinha apenas três, Huíla quatro e Mossâmedes também quatro. O país todo produzia um pouco mais de 4.000 KW.

O caso de Luanda

A capital e o seu distrito tinham uma situação digna de nota. Existiam 35 centrais eléctricas particulares do total de 55 a produzir. Um relatório da Repartição Técnica da Fiscalização das Indústrias Eléctricas refere que estas centrais privadas "por favor ou deferência, fornecem energia a uns tantos estabelecimentos comerciais e residências particulares".

O "favor ou deferência" eram pagos pelos "favorecidos" a preços elevadíssimos, o que proporcionava aos fornecedores lucros especulativos. Nesta época, Luanda não tem iluminação pública: nem a azeite, nem a gás, nem a petróleo. Nada.

A Repartição Técnica da Fiscalização das Indústrias Eléctricas, num relatório entregue ao Governo-Geral reconhece que o "atraso" se deve à falta de interesse da população: "os luandenses não se interessam pela montagem de uma central de serviço público". Face ao desinteresse, as casas continuavam a ser iluminadas à luz da vela ou dos candeeiros a petróleo e apenas algumas indústrias eram movidas a electricidade. Na época não existia rádio e muito menos televisão. Mas já existia o jornal Província de Angola (hoje Jornal de Angola) que tinha um grupo gerador exclusivo

Centrais públicas

Em 1933, só existiam centrais públicas em Benguela, Lobito e Catumbela (Companhia Eléctrica do Lobito e Benguela), Bailundo (Comissão Municipal) Novo Redondo, hoje Sumbe (Companhia do Cuanza-Sul) Porto Amboim (Comissão Municipal), Mossâmedes hoje Namibe (Comissão Municipal), mas só fornecia energia para iluminação pública. Maquela do Zombo, capital do distrito do Congo Português tinha igualmente uma central propriedade da Comissão Municipal. O Bailundo e toda a província do Huambo na época pertenciam ao distrito de Benguela.
Em Luanda as indústrias e os particulares eram abastecidos de energia eléctrica pela Companhia Rádio Marconi (comunicação à distância) e pela Administração dos Correios e Telégrafos. Foi nos CTT que nasceu a rádio (Emissora Oficial de Angola), num barracão de zinco ao lado dos Correios da Cuca. Hoje é a Rádio Nacional de Angola.

A Direcção do Porto e Caminho-de-Ferro também fornecia luz aos privados. O mesmo acontecia com a Imprensa Nacional fundada quase 100 anos antes pelo governador Pedro Alexandrino da Cunha. O Hospital Central Maria Pia) tinha uma central moderna e fornecia luz a Luanda.

O Caxito na época pertencia ao distrito de Luanda. Era uma vila bem iluminada porque recebia energia da potente central da Companhia de Açúcar de Angola, instalada na Fazenda Tentativa (Heróis do Caxito). A mesma companhia iluminava o Dombe Grande, em Benguela.

Em Novo Redondo (Sumbe) a energia eléctrica era fornecida pela Companhia do Cuanza-Sul. A empresa Paixão, Seixas & Martinó abastecia Porto Amboim que também tinha uma central da Comissão Municipal. Na Catumbela a Companhia do Cassequel (açúcar) também fornecia energia eléctrica aos privados.

O Lobito tinha várias fontes de energia: a central da Companhia dos Combustíveis do Lobito e a do Caminho-de-Ferro de Benguela. Nova Lisboa (Huambo) nesta época era pouco mais do que a estação do caminho-de-ferro. A vila era iluminada pela potente central das oficinas do CFB.

Em 1936, Angola tinha 118 centrais térmicas e 11 hidráulicas. A capacidade de produção em todo o território era de 2.666 KW. As centrais particulares eram agora 123 e as públicas apenas seis. As linhas de alta tensão em todo o país tinham a extensão de 79 quilómetros!

Nascimento da rádio

Com a energia eléctrica, a comunicação à distância ganhou asas e a rádio passou a ser uma instituição. Em 16 de Outubro de 1931, o Governo-Geral publica a Portaria 875 que ordena: "é obrigatório o registo de todos os aparelhos de telefonia sem fios, na posse de particulares, embora a recepção seja isenta de taxas". O diploma do governo reconhece que "nos trópicos só é possível a recepção em ondas curtas". Os angolanos pareciam condenados ao som metálico que envolve a onda curta. Mas a verdade é que as ondas médias, intermédias e largas eram muito prejudicadas por "parasitas" atmosféricos.

Angola ouvia há 80 anos, em onda curta, as emissoras de Pantoise (França) Daventry (Inglaterra), Roma e Nápoles (Itália). Em Portugal existia a Emissora Nacional mas a sua potência era tão fraca que era impossível a sua sintonia em Angola.

Em 1932, existiam em toda a Angola 62 receptores de telefonia sem fios (rádios). Em Luanda estavam registados 25, Benguela 29 (foi lá que nasceu a rádio angolana), Kwanza Norte, um aparelho, Bié, quatro e Huíla três. Nas outras províncias, nada. Na Lunda da Diamang deviam existir aparelhos, mas como era um estado dentro do estado, não os registaram.

A saga dos electricistas

A profissão de electricista tinha tantos anos, quantos a energia eléctrica. Como em Angola ela chegou tarde e mal, existiam poucos profissionais. E todos viviam com grandes dificuldades porque faltavam os clientes. Para sobreviver, eram obrigados a outras actividades.

Em 1932, todos foram obrigados a fazer uma inscrição oficial na Repartição Técnica da Fiscalização das Indústrias Eléctricas, para "evitar que qualquer curioso proceda a instalações eléctricas sem estar, para isso, habilitado", refere o preâmbulo da Portaria do Governo-Geral que cria a entidade reguladora.

Em 1932, Angola tinha apenas 23 electricistas: quatro em Luanda, 16 em Benguela, dois no Kuanza Sul e um no Bié. Mas um ano depois já existiam 31 profissionais habilitados e certificados para fazerem instalações e reparações.

Só duas décadas depois Angola teve direito à primeira grande barragem, Mabubas. Mas o problema do fornecimento de energia ao domicílio esteve sempre presente, ao longo das décadas, porque as cidades são "abraçadas" por bairros que crescem desmesuradamente sem infraestruturas nem ordenamento.

A fazer fé em declarações proferidas por alguns políticos na campanha eleitoral, este quadro é para manter, porque defendem as ocupações selvagens, já que consideram que "a terra é propriedade originária do povo". Mas como Angola vive num Estado Democrático e de Direito, prevalece a Constituição da República, o bom senso e sobretudo a vontade política de fazer de Angola "um bom lugar para se viver".

O abastecimento regular e eficaz de luz eléctrica só é possível em espaços ordenados. Por isso Luanda tem problemas acrescidos. Os milhões de angolanos que se refugiaram na capital quando as suas terras de origem foram ocupadas pelas tropas do "apartheid" e da UNITA, só podem ser abastecidos de luz com regularidade e eficácia, quando os bairros que nasceram desordenadamente forem urbanizados.

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