Arquivo Histórico

Um ano que abalou o Mundo inteiro

Benjamim Formigo

O título talvez seja exagerado, contudo 1982 foi um ano em que se abriram muitos caminhos novos que, para bem ou mal, conduziram à situação geopolítica e geoeconómica em que hoje nos encontramos.

Muito de que sucedeu na década de 80 do século passado teve a sua génese há 30 anos. Também no espaço fenómenos naturais ocorreram nesse já longínquo ano.

A Irmandade Muçulmana, que após a chamada “Primavera Árabe” tem assumido maior poder e visibilidade, foi há 30 anos banida na Síria pelo então Presidente Hafez al-Assad que ordenou ao Exército a sua expulsão de várias cidades.

Nesse mês de Abril, a Guerra das Falklands começou coma invasão a 2 de Abril das ilhas por tropas argentinas. Foi certamente a guerra mais inacreditável que podia ter ocorrido. Um pequeno arquipélago no Atlântico Sul, de tal modo frio e fustigado pelos ventos da Antárctida que a erva tem sempre um tom amarelado, queimada pela ventosidade gélida, serviu de palco. Só depois da guerra foi construída, e por necessidades militares, uma pista capaz de receber aviões de longo curso.

Quando a Junta Militar argentina decidiu invadir as ilhas elas dependiam da Argentina para as ligações aéreas como para o comércio, designadamente  abastecimento de combustível e alimentos. O tempo iria naturalmente criar uma situação de soberania conjunta ou outra forma de transferência de poder.

Em Goose Greene, no extremo Oeste da Falkland Oriental, a maior das ilhas, um dos habitantes, criador de carneiros como a maioria, dizia-me pouco depois: “Deus abençoe o general Galtieri, se não fosse a invasão, a senhora Thatcher entregava-nos aos argentinos”. Ir da capital, Port Stanley, num extremo da ilha até Goose Greene no outro extremo, no Land Rover de Bob Ford, foi uma aventura que durou quase um dia. Porém, antes da invasão, argentinos e falklanders (na maioria escoceses) conviviam no arquipélago.

As acções militares desencadeadas pela Junta argentina pouco tiveram a ver coma reivindicação antiga de soberania de Buenos Aires sobre as ilhas. A Junta Militar argentina enfrentava continuada oposição desde o golpe militar que colocou no poder o general Vilela, em1976, e em 1981, o general Viola. O país atravessava uma tão grave crise política e económica que em Dezembro e 1981 levou para a presidência da Junta Militar o general Leopoldo Galtieri.

Coma crise económica e a situação política a agravar-se e acentuando-se o isolamento internacional, outro membro da Junta Militar, o almirante Jorge Anaya, arquitectou um plano para a invasão, pressupondo que iria galvanizar o patriotismo dos argentinos, fazer divergir as atenções da crise económica e que a Grã-Bretanha estava demasiado longe para reagir. Acertou nos dois primeiros pressupostos, enganou-se redondamente no terceiro. A senhora Thatcher estava também com problemas internos e em véspera de eleições.

Pela primeira vez desde a II Guerra Mundial um conflito armado entre dois Estados eclodia no chamado Mundo Ocidental. Foi uma guerra completamente inesperada, travada numa época em que as tensões da Guerra-Fria eram grandes.

Na noite de 21 de Maio desembarcavam na Baía de São Carlos (perto de Goose Green) quatro mil homens da Terceira Brigada de Comandos e outras forças noutros locais. O “Império contra-ataca” foi uma das capas da “Newsweek”. A 14 de Junho as forças argentinas rendiam-se.

Como consequência desta guerra, Galtieri demitiu-se a 17 de Junho de 1982 e Rau lAlfonsin foi democraticamente eleito Presidente a 10 de Dezembro de 1983.

Na Grã-Bretanha a primeira-ministra Margaret Thatcher enfrentava desde 1979 uma crise crescente. No início de 1982, a Grã-Bretanha tinha mais de três milhões de desempregados e a economia estava em recessão desde 1980.Aguerra das Falklands e a reacção decidida da senhora Thatcher fez disparar a sua popularidade. No ano seguinte os conservadores conseguiam uma vitória esmagadora.

A vitória pessoal de Thatcher deu-lhe a força que necessitava para mudar o Partido Conservador. Muitos dos princípios sociais que pautavam a acção dos “tories” desapareceram em favor do que hoje conhecemos como neo-liberalismo económico. Os sindicatos perderam a força e a importância que tinham.Com Ronald Reagan, ela iria lançar as bases do mundo económico que hoje conhecemos. Todavia, a sua permanência no poder teve, anos depois, uma importância enorme na credibilidade de um homem que daria decisivo na mudança do Mundo :Mikhail Gorbatchov. De facto, a “Dama de Ferro” foi a principal aliada do homem da “perestroika” e da “glasnost”.

Ascensão da OLP

Enquanto no Atlântico Sul decorria a guerra mais improvável, no Médio Oriente agravava-se a tensão israelo-árabe e em especial entre o Governo conservador de Menahen Begin e a OLP. No Ministério da Defesa israelita pontificava um radical: Ariel Sharom.

As crescentes escaramuças na fronteira entre Israel e o Líbano deixavam poucas dúvidas de que o confronto era inevitável. Só não se sabia quando ia ocorrer e qual o motivo, se algum fosse invocado. As atenções da Comunidade Internacional estavam nas Falklands que ocupavam uma parte importante dos noticiários.

O Líbano passou por uma guerra civil e constantes escaramuças entre as várias facções religiosas do país, pululavam as milícias de vários partidos e religiões. Depois da Guerra do Seis Dias a OLP, então na Jordânia, tornou-se uma importante força na região. Mais de cem mil palestinianos viviam como refugiados no Líbano deste 1949.Ainterferência da OLP na situação jordana terminou como “Setembro Negro” em1970, quando o rei Hussein decidiu acabar com as interferências das milícias palestinianas e estabelecer a soberania hachemita em todo o país. O “Setembro Negro” foi um verdadeiro massacre que provocou novo fluxo de refugiados palestinianos para o Líbano.

O país dos cedros vivia internamente uma certa acalmia pelo estabelecimento da OLP como “força de paz” da Liga Árabe .Contudo, os mais radicais do movimento palestiniano encontraram-no Líbano um ponto para desencadear ataques contra alvos israelitas. A presença de 300mil palestinianos no Líbano desde 1975 constituía um verdadeiro Estado dentro do Estado libanês após a guerra civil de 1975. Porém, havia um equilíbrio na região e é duvidoso que Israel não pudesse ter gerido as tensões. Ariel Sharon há muito que pretendia acabar com a OLP no Líbano e se possível acabar pura e simplesmente com o movimento então liderado por Yasser Arafat.

A 6 de Junho de 1982 as tropas israelitas atravessaram a fronteira libanesa e avançaram até Beirute. Os bombardeamentos aéreos e de artilharia arrasaram a parte palestiniana da cidade. Beirute estava dividida desde 1975 por uma linha verde no sector muçulmano (Leste) e cristão (Oeste). Com inegável precisão o tiro israelita caía no sector oriental da cidade.

O Governo de Menahen Begin alcançou um dos seus objectivos: expulsar a OLP do Líbano. Porém, a invasão teve custos humanos inaceitáveis, como os massacres de palestinianos nos campos de Sabra e Shatila, nos arredores de Beirute. Em Israel, no mês de Setembro, uma manifestação impressionante reuniu 400 mil pessoas exigindo a demissão de Begin.

Os ataques suicidas começaram em paralelo com a crescente influência do fundamentalismo radical. Uma no depois, em18 de Abril e 1983, um suicida faz explodir um carro armadilhado na embaixada dos Estados Unidos arrastando Washington para o conflito. Uma nova era de terrorismo havia começado.

O crescente desapossamento das pessoas no mundo árabe e o sentimento de ostracismo abriram portas ao radicalismo islâmico que se prolonga até aos dias de hoje.

Na Europa, a 4 de Outubro de 1982,HelmutKohl assume a Chancelaria a então República Federal Alemã. Descrito por Bush (pai) e Clinton como “o maior líder europeu da segunda metade do século XX”, o chanceler alemão marcou a Europa pela positiva. A Europa de hoje não é exactamente aquilo com que Kohl sonhou mas a ele, Jacques Delors e Mitterrand devem-se muitas das alterações positivas que ainda hoje sobrevivem na União Europeia. A ele e ao seu parceiro de coligação e ministro dos Negócios Estrangeiros, o muito esquecido Hans DietrichGenscher.

Kohl soube encaixar e absorver como poucos as mudanças que um mês depois ocorreram na União Soviética e conseguir a unificação alemã que Gorbatchov propiciou.

Em Espanha, 1982 foi o ano em que os socialistas conseguiram subir a poder no segundo acto eleitoral (28 de Outubro) após o franquismo, a esquerda voltou a Governar a Espanha pela primeira vez desde a guerra civil. Felipe González conseguiu finalmente acabar como clima golpista após a “intentona” de Molina no Parlamento e os múltiplos rumores golpistas que acompanharam a campanha eleitoral.

A maior mudança desse ano de 1982 veio quase no final do ano. Após uma intrigante noite em Moscovo, com carros a entrarem e saírem do Kremlin, onde as luzes acesas eram mais do que as habituais, foi anunciada a morte do secretário geral do Partido Comunista e líder da URSS desde 1964, Leonid Brejnev. Foi no dia 10 de Novembro.

Os ventos de mudança entraram no Kremlin dois dias depois coma eleição de Yuri Andropov para o lugar de Brejnev. Andropov é visto como um dos mais inteligentes homens que passou pelo KGB e o que mais tempo se manteve à frente daquela organização de onde veio Vladimir Putin. Responsável pela repressão da revolta húngara, Yuri Andropov foi então descrito por Zhores Medvedev, um físico dissidente soviético que vivia em Londres, como o responsável pela transformação do KGB numa organização que passou a recrutar as elites das universidades e um reformador.

A escolha de Andropov foi completamente inesperada. O antigo chefe do KGB havia sucedido em Maio desse ano a Mikhail Suslov na condução ideológica do PCUS. A margem de manobra do novo dirigente soviético não era grande por razões internas e também pela forma como a Guerra-Fria conduzida por Ronald Reagan condicionava qualquer líder soviético. Dispondo de informações detalhadas sobre a situação do país e a necessidade de mudança, o novo líder soviético foi discretamente nomeando reformadores da sua confiança para os quadros intermédios do partido.

No Estado as alterações eram pouco visíveis, excepto económicas. A sua grande preocupação foi melhorar a gestão empresarial sem contudo tocar nos princípios ideológicos.

Yuri Andropov esteve no poder apenas 15 meses. Nesse espaço de tempo substituiu ministros e responsáveis considerados ineficientes ou responsáveis por má gestão. Após a sua morte, Konstantin Tchernenko, subiu ao poder por pouco tempo.

O trabalho de Andropov permitiu a ascensão de Mikhail Gorbatchov e facilitou o reformismo do último dirigente da União Soviética. O homem que terminou a Guerra- Fria, abrindo caminho para a resolução de muitos conflitos regionais e o fim da divisão europeia permitindo a unificação alemã. Tudo começou em1982.

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