Cultura

25 anos de carreira de Nelo Paim

Um grande momento emotivo marcou o concerto de celebração dos 25 anos de carreira de Nelo Paim. Na parte final do espectáculo, que teve entre os convidados Maya Cool, Euclides da Lomba, Yuri da Cunha e o moçambicano Fill, o choro de felicidade dos irmãos Paim, Nelo e Eduardo, comoveu a plateia.

O Miami Beach foi o espaço que a Brás Som escolheu para acolher o concerto de celebração dos 25 anos de carreira de Nelo Paim e os presentes testemunharam a choramingueiras dos manos Paim, como cantam em “Minha Ngueve” é nesta hora que um homem chora. Na parte final do concerto aconteceu esse momento emotivo de choro de felicidade. O multi-instrumentista Nelo contou ainda com a presença em palco dos amigos Maya Cool, Euclides da Lomba, Yuri da Cunha e do moçambicano Fill.
Numa proposta bem intimista, o homem da noite contrariou as expectativas e, fazendo recordar treinadores como Ndungidi Daniel e Romeu Filemon na projecção de jovens como Mendonça, Dedas, Ary Papel e Gelson Dalas, demarcou-se de instrumentistas mais tarimbados, tais como Joãozinho Morgado, Botto Trindade, Mias Galhetas, Dinho, Chiemba, apenas para citar estes, não abdicando de Lito Graça na dikanza e coros, para recorrer a um conjunto de miúdos maravilha. Nelo Paim teve a direcção artística do solista Texas Yark Spin no ritmo, Kappa D na viola baixo, o segundo teclado Ivan Carrillo, Bucho nas congas, Jack na bateria e Raquel nos coros.
Eduardo Paim foi o último convidado a subir ao palco e proporcionou um dos momentos mais emocionantes da noite. O Marechal Kambuengo não ficou apenas com o canto. Fez um show paralelo, falando do percurso, da persistência do irmão e de artistas como Euclides da Lomba, Fly, Dog Murras, Heavy C, dentre outros, que os dedos mágicos de Nelo ditaram o sucesso. Com os acordes de “Minha Ngueve” de fundo, saudou as tias e recordou os pais, provocando a choradeira dos Manos Paim. Um medley com vários sucessos, mas foi ao som de “Minha Vizinha” e “Chiquita” que mais encantou os presentes. Paim em determinado momento segurou a viola-baixo confirmando a paixão pelo instrumento com groove.
Se para fecho contou com o irmão biológico, para abertura optou pelo irmão adoptivo, Maya Cool, o companheiro que lhe deu as bases de teclado. Lucas de Brito, como foi tratado pelo anfitrião, deu uma canja de Tim Maia antes de cantar “Boca Azul”, uma proposta do compositor Filipe Zau, como revelou Maya Cool.
Como os convidados não foram escolhidos por acaso, Euclides da Lomba, um dos maiores exemplos de sucesso das produções de Nelo Paim, fez-se também ao palco e quase roubava a cena ao amigo. “Caso de Amor e Ternura”, primeira música feita pela dupla na noite do dia 25 de Janeiro, também abriu a sua participação e, depois de outros hits, “Regressa” foi o bónus track do show. Nelo contou como tudo começou: “o ainda jovem veio de Cabinda para gravar com o Eduardo, que me indicou para fazer a produção, o que não agradou de primeira. ‘Caso de Amor e Ternura’ foi o primeiro tema da nossa parceria e quando o Eduardo perguntou como estavam as as coisas, ele respondeu que estavam muito bem encaminhadas e o kota, orgulhoso, disse-lhe: ‘sabia que estarias em boas mãos’ e assim surgiu a nossa parceria”.
Yuri da Cunha, o showman e uma das primeiras descobertas de Nelo Paim, não quis fazer feio e optou pela sua banda. Chalanas, Chiemba, Lito Graça, Texas e Nelo Paim deram uma outra sonoridade e provaram a cumplicidade que têm. O autor de “Amigo” brindou com temas que provam que é um “Kandengue Atrevido”, como “Ancorô”, “Tá doer”, dentre outros, assim como as releituras de sucessos de outros artistas como “Amor” dos Tunjila Tuajokota.
Um dos momentos de surpresa foi a actuação do filho de Nelo Paim. O jovem, com o seu violão, apresentou uma proposta musical diferente do pai. O segundo aconteceu com o amigo Voto Gonçalves, que deu uma canja de “Hello” de Lionel Ritchie. A presença de Voto, segundo o promotor Ilidio Brás, serviu para representar os colegas de outra geração que trabalham com Nelo Paim. Um bom momento foi o apelo a união na classe, feita por Yuri da Cunha que chamou para o palco Matias Damásio.
Ainda esteve em palco o moçambicano Fill que, segundo o protagonista, não é apenas um colega, é o seu irmão do indico. O moçambicano Fill Baby, com o disco “Sacudiu e Bazou”, de Dezembro passado, contou com a produção de Nelo Paim, que com esta presença quer apadrinhar o amigo na cena musical angolana. A obra funde kizomba, coladeira, semba, marrabenta e outros.
Nelo Paim, como bom instrumentista, deu outros rostos a alguns sucessos como “Ximina”, de André Mingas, “Lá Filló ”, de Malavoi, a latina “Bésame”, com solos de Ivan Cappilo, recordou “Sembele”, na voz de Lito Graça, dentre outros sucessos. Este tema marca a forte relação extra-profissional com Bangão, o autor do tema. Nelo Paim também apresentou um jovem promissor na bateria, Jack, de apenas 19 anos, que fez um show paralelo, provando que a aposta de passagem de testemunho foi concretizada. 

“Jack, o estripador” das teclas

Manuel Prado Fernandes da Silva, artisticamente Nelo Paím, nasceu aos 27 de junho de 1976. É um dos maiores produtores nacionais e seguramente dos que estão na base de vários prémios de artistas nacionais. Também tratado pelos amigos como o Jack, porque na infância gostava da série televisisva Jack, o estripador. De salientar que os pais e, imaginem, o irmão Eduardo Paim não aprovavam a sua opção pela música. A bateria e a percursão foram os primeiros instrumentos.
Simmons Mancini foi o mestre na guitarra e Maya Cool o amigo que deu o empurrão para as bases do teclado, numa fase que o baixo era o seu instrumento de eleição. Tudo começou a ficar sério quando o irmão precisou ficar mais solto em palco e de uma solução para a grande demanda das produções. Apostou nos irmãos e passou a tirar o maior proveito deles. Ao longo dos seus 25 anos de carreira, Nelo tem trabalhado quer em estúdio quer em palco com os principais nomes da música angolana de todas as gerações, tais como Bonga, Elias Dya Kimuezo, Carlos Burity, Don Kikas, Puto Português, Danny L e Betinho Feijóo, dentre outros.A versatibilidade musical é demonstrada em produções iniciais de Anselmo Ralph e na passagem pela banda de Reggae Kussondulola, que abriu o concerto dos UB-40. Recorda este evento que o marcou, porque o pai estava em Portugal e viu uma peça televisiva. Nelo chegou em casa, o pai pediu-lhe para pagar uma garrafa de vinho. Quando o filho regressou com duas, o pai chorou e passou a olha-lo como profissional.
Com obras dispersas em projectos musicais de colegas, em 2006, lançou o álbum “Liberdade”.
Mas foi com o projecto “Canela”, de Eduardo Paim e da moçambicana Lara, cantando Cota Mané, que transforma 1995 como o ano das conquistas do Top Rádio Luanda, levando os troféus de melhor produtor e instrumentista, música do ano e voz revelação.
De Maria para Meury, na voz de Puto Português, e Cori, com Yola Semedo, são algumas produções que ajudaram a provar que a capacidade criativa e de reinvenção de Nelo Paim, o Jack dos teclados que continua a estripar melodias e harmonia

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