Cultura

A “Festa do Jazz” caiu por causa do coronavírus

Francisco Pedro

Oito anos depois de vários países comemorarem de forma consecutiva o Dia Internacional do Jazz, a 30 de Abril, músicos e apreciadores deste género musical ficam privados, este ano, da “Festa do Jazz”, pela primeira vez, por causa da pandemia da Covid-19.

Jerónimo Belo, crítico e promotor da “Festa do Jazz”, em Luanda.
Fotografia: DR

A data já nos é familiar assim como em mais de 190 países dos quatro continentes, que anualmente festejam sob decisão da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), que institui em 2012.  Este ano, Angola iria cumprir a sétima edição consecutiva. “Vamos ver o que se consegue ‘construir’, apesar das enormes dificuldades inequívocas do actual contexto local e mundial, mas o jazz não se demite, nem que seja para recordar e chorar os seus mortos”, desabafou, ontem, Jerónimo Belo, crítico e promotor da “Festa do Jazz”, em Luanda.

Com tristeza, não só pelo cancelamento dos concertos, mas o crítico desabafou pelas mortes recentes, vítimas da Covid-19, dos músicos Manu Dibango (saxofonista camaronês), Marcelo Peralta (saxofonista argentino), Ellis Marsalis ( americano, pianista e compositor), Mike Longo (pianista americano) e Wallace Roney (trompetista americano) este último discípulo e, mais tarde, companheiro do exímio Miles Davis.
A UNESCO instituiu o Dia Internacional do Jazz, em colaboração com o Instituto de Jazz Thelonious Monk, com o objectivo de unir comunidades, escolas, artistas, historiadores, académicos e fãs de todo o mundo para aprender sobre as raízes do jazz, o futuro e o seu impacto.
Na mensagem do ano passado, a Diretora-Geral da UNESCO, Audrey Azoulay, lembrou as palavras proferidas pelo grande Martin Luther King Jr. sobre o papel decisivo do jazz na construção de um sentimento de identidade para os afro-americanos e tantas outras pessoas de todo o mundo. “O jazz fala pela vida (…). Quando a vida não oferece ordem ou significado, o músico cria-os a partir dos sons da terra que fluem através do seu instrumento”, disse ele no Festival de Jazz de Berlim de 1964.

Beleza da opressão

Para a directora-geral da UNESCO, o Jazz é uma explosão de beleza nascida da opressão. “É a música da improvisação e da criação colectiva. Na sua essência, a liberdade e a abertura permitem que seja adoptado por culturas de todo o mundo, enriquecidas pelas tradições musicais e pelas notas particulares de cada uma delas. O Jazz dá voz às lutas e aspirações de milhões de pessoas e constitui um símbolo único de liberdade de expressão e de dignidade humana. Em momento de crescente discórdia e divisão, o jazz representa uma linguagem universal de paz”, dizia Audrey Azoulay, em mensagem divulgada em 2019, tendo o acto global decorrido na Opera de Sidney - Património Mundial da UNESCO, na Austrália.
Em 2018, a cidade de São Petersburgo, na Rússia, acolheu as celebrações globais com um concerto no histórico Teatro Mariinsky, e em 2017, a cidade de Havana, em Cuba, foi o palco destas celebrações.

Sala Angola vazia

Geralmente os dois concertos de jazz acontecem na Sala Angola, num dos hotéis da capital do país, com o mínimo de 600 pessoas. Em 2019, na sexta edição, o concerto contou com o Etokeko Jazz Quarteto, liderado pelo pianista e tecladista Nino Jazz, a cantora Katiliana (voz), com o seu quinteto “Sound Trip Band”, e outros artistas convidados.
Os concertos são organizados pela produtora “J.J Jazz”, que em 2018 teve em cartaz os artistas nacionais da banda “Afro Beat”, com Mário Ganacho (piano), Nanuntu Fendes (saxofone), Gary Cinedima e Anabela Aya (voz).
Em 2017, o palco acolheu o trio Ngoma Jazz, e o trio João Oliveira e o dueto Nicolas Krassik. Jerónimo Belo, que dirige a produtora “J.J Jazz”, reuniu, ontem, com os parceiros para dar a conhecer a programação adiada “sine die”, fruto da pandemia Covid19.
Este ano a surpresa seria a baterista afro-americana Shirazette Tinnin em quarteto. “Esteve entre nós em 2011, integrando a Banda da saxofonista Tia Fuller. Acertamos a sua possível vinda em Outubro passado, no Festival de Jazz da Ilha Terceira, Angra Jazz”, disse.
Entre os artistas nacionais que foram convidados para este ano, perfilam, além de Nino Jazz e seu Quarteto, os instrumentistas Makiesse (pianista) e a cantora Anabela Aya.
Enquanto não há jazz ao vivo, por que a festa “caiu”, Jerónimo Belo continua a divulgar na LAC, às segundas-feiras, ao fim da tarde, e no Canal 2 da Televisão Pública de Angola (TPA), às sextas-feiras.

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