Cultura

“A ficção fez-me imaginar uma Luanda doida”

Isaquiel Cori

Tradutor de prestígio reconhecido no seu país, Alemanha, onde foi distinguido em 2014 com o prémio mais importante para tradutores, Michael Kegler está em Luanda a convite do Goethe-Institut Angola e do colectivo cultural Pés Descalços para participar em eventos conjuntos com os escritores José Eduardo Agualusa (angolano) e Mia Couto (moçambicano). Filho de geólogos, Kegler viveu os primeiros anos da infância na Libéria e no Brasil. Traduziu do português para o alemão obras de José Eduardo Agualusa, Ondjaki, Ana Paula Tavares, Paulina Chiziane e de autores brasileiros e portugueses. Na entrevista que concedeu ao Jornal de Angola Michael Kegler fala do seu ofício, que ele considera “uma profissão de sonho”, do panorama da tradução para alemão de obras africanas em Língua Portuguesa e do quanto verdadeiramente gosta de trabalhar com os escritores cuja obra traduz. Confessa que os primeiros dias em Luanda constituíram para si um “choque de realidade”. Segundo as suas próprias palavras, “a ficção levou-me a imaginar uma Luanda um pouco mais doida”

Fotografia: Isaquiel Cori | Edições Novembro

Profissionalmente como é que se auto apresenta?

Sou tradutor de líteratura de Língua Portuguesa. Faço questão de dizer que faço tradução de Língua Portuguesa no geral,porque a Língua Portuguesa é vasta e tem várias vertentes. Tenho a sorte de tertraduzido autores do Brasil, Portugal e vários países africanos de línguaportuguesa. Do Brasil traduzi por exemplo o Luiz Rufato e o João Paulo Cuenca; de Portugal Manuel Jorge Marmelo, dos país africanos a Paulina Chiziane e depois o José Eduardo Agualusa, que é, digamos assim, um dos meus principais escritores. Já traduzi cinco livros dele. Ainda de Angola traduzi o Ondjaki (“Os Transparentes”) e alguma poesia da Ana Paula Tavares.

Também faz tradução do alemão para o português?

Ésempre aconselhável traduzir para a sua língua materna. Nasci na Alemanha e depois fui para o Brasil com os meus pais, que eram geólogos. No Brasil estudei até a 4ª classe. Vivi muito mais tempo na Alemanha, logo a minha fluência no alemão é muito maior e seria injusto fazer traduções para o português porque há tradutores que fazem esse trabalho melhor que eu.

Fazer tradução dá-lhe muito prazer? É aquilo que poderíamos chamar um emprego de sonho?

É uma profissão de sonho. É um grande prazer que se profissionalizou. Tenho a sorte de na grande maioria dos casos traduzir escritores ou escritoras que gosto muito.

Esse tem de ser o ponto de partida: para traduzir uma obra ela tem de o ter “conquistado” antes?


Não. Traduzir é traduzir. Pegamos um texto e o transformamos num outro texto. Mas quando se trata de um texto bom, que nos diz alguma coisa, o trabalho flui mais, dá mais prazer. E quando o trabalho dá mais prazer acaba por ser melhor.

E é sempre melhor conhecer pessoalmente o autor a traduzir?

Não. Não é necessário conhecer a pessoa que escreveu o texto. Quando traduzimos escritores mortos não temos escolha, o texto normalmente já diz tudo. Mas acho que ajuda muito a conhecer a pessoa. A experiência com os escritores que conheço pessoalmente mostra que o trabalho corre muito melhor: podemos conversar, trocar ideias, dividir palcos... E no final das contas a tradução fica melhor.

Qual tem sido a recepção na Alemanha das obras em língua portuguesa que tem traduzido para o alemão, especialmente de autores africanos de língua portuguesa?


Nesse sentido trabalho em vários nichos.O português é muitas vezes ainda considerado uma língua pequena. E isso não é verdade, porque não corresponde a nenhum parâmetro. O português é língua falada por 250/260 milhões de pessoas no mundo, é uma das poucas línguas faladas em todos os continentes. É injusto, mas a percepção alemã é um pouco aquela do Centro para a Periferia; tudo aquilo que não faz parte do eixo da língua dominante, que é o inglês, e da língua vizinha, que é o francês, é visto como periférico.

Isso faz ver as literaturas africanas de língua portuguesa como se estivessem num gueto?


Não digo gueto, mas é simplesmente algo que escapa da vista do grande público. O português acontece sim, está debaixo de um certo radar. No caso de Angola acontecem duas coisas, que passam debaixo de certos radares, que são os dos best-sellers, da língua portuguesa e da literatura africana. A literatura africana tem uma posição especial, não atingindo enormes tiragens, e dentro dela temos a literatura de língua portuguesa, sendo que o grande público nem sabe que se escreve em português em África.

O seu trabalho de tradutor e não só, certamente tem ajudado a divulgar essa literatura?


É o que tentamos fazer. Não só como tradutor. Faço parte de uma associação para o fomento das literaturas da África, Ásia e América Latina, que já tem 40 anos de existência. O trabalho dessa associação é tentar tirar as literaturas do Sul para o Centro. Dizemos “estamos diante de literatura e não de literatura do Terceiro Mundo, publiquem isso no suplemento de Letras e não no suplemento do Terceiro Mundo”. O problema é que as obras de literatura africana de língua portuguesa que colocamos no mercado ainda são poucas. Falamos de um mercado que tem as suas próprias regras, muito complicadas. O José Eduardo Agualusa tem seis livros no mercado alemão, o Pepetela acho que tem dois ou três, o Ondjaki tem um, a Ana Paula Tavares também um...

Todos foram traduzidos por si?


Não. Há outras pessoas também a traduzir, felizmente. Se fosse eu a traduzir todos seria óptimo economicamente, mas então todos teriam a mesma voz. Não sou nem quero ser monopolista.

Teve uma formação específica para fazer tradução?


Tive uma formação específica um pouco estranha, porque as Letras andam sempre por caminhos tortos. Estudei em várias outras Faculdades mas no final das contas na Alemanha fui estudar letras latino-americana, portuguesa, americana, inglesa...

Quantas línguas domina com fluência?


Dominar, dominar... o alemão e o português. Mas falo inglês, francês, o portunhol que todos nós falamos e sei me orientar na Itália. Mas traduzo só português para o alemão,o que pode ser problema. Geralmente aconselhamos os jovens a estudar duas línguas, só que eu fiz um caminho diferente. Fui estudar Letras, teoria da literatura e essas coisas e depois fui trabalhar numa livraria, tendo abandonado a Universidade. Tenho sim uma formação, mas não formalizada.

O seu trabalho de tradutor desenvolve-se num âmbito institucional ou por iniciativa pessoal?


Isso varia. Nós os tradutores vamos às feiras, falamos com editores e tentamos convencê-los a publicar obras que gostamos. Mas o caminho “oficial” seria, obviamente, uma editora procurar obras que possam ser traduzidas. Eu vejo o meu trabalho de tradutor também como um trabalho de divulgação de obras. Quero mostrar o que há de bom nas literaturas fora da Alemanha, especialmente dos países cuja língua eu domino. Sempre ajuda a fazer sessões de leitura, falar com jornalistas e com o público. No caso do José Eduardo Agualusa comecei a trabalhar com a sua literatura a pedido de uma editora que tinha recebido uma obra traduzida por mim. Ligaram-me a dizer que gostaram do jeito como tinha feito a tradução e perguntaram-me: “Não gostarias de fazer uma prova para o livro ‘O vendedor de passados’ do Agualusa?’” Só depois é que nos conhecemos pessoalmente. Já sabíamos quem éramos mutuamente à distância, mas depois passamos a trabalhar juntos. Viajamos muito, fizemos muitos quilómetros de combóio pela Alemanha...

O que diz do lugar comum “Tradutor traidor?” Até que ponto as suas traduções correspondem mais à obra original ou mais à sua “criatividade”?
Aquela coisa do “Tradutor traidor” é um trocadilho. A partir do momento em que um tradutor se revela traidor devia...

... A pergunta foi feita sem ofensa.


Sei. Conheço e penso sempre sobre isso. Aquela coisa da criatividade preocupa sempre e é motivo para muitos debates. O que nunca devemos fazer é trair o autor. A minha posição é que obviamente temos de ser criativos, ter ideias, mas sei que não sou o criador da obra. A obra é do autor e eu preciso ser o mais fiel possível, estou a prestar um serviço à obra, à editora e ao leitor. Preciso de ser o mais fiel possível àquilo que acho que o autor escreveu. A minha criatividade começa aí. Tenho que imaginar não só a letra mas também o conteúdo do texto.

O processo de tradução passa por muitas conversas com o autor?


Não necessariamente. Tento conversar com o autor o necessário. Obviamente o texto está ali, flui, e os bons autores sabem onde é que colocam as palavras. Especialmente no caso dos escritores africanos, que tendem a brincar com a língua e o fazem o tempo todo, eu tenho que reinventar coisas a partir do que eles inventam e eu gosto de me reafirmar e dizer “olha, podemos fazer assim”, faço sugestões, dizendo por exemplo que essa coisa não vai funcionar no alemão, podemos fazer uma coisa diferente... Gosto de ser criativo dentro do limite que me é dado, porque eu não sou o dono da obra. Eu não sou escritor.

Para lá da recepção do grande público, as editoras alemãs procuram por obras de autores africanos?


As editoras estão sempre à procura de obras para poderem vender e sobreviver. Há umas editoras que são máquinas de livros e que colocam a maior expectativa nas vendas e há outras, editoras pequenas e independentes, que vão pelo gosto. O problema é que muito pouca gente lê em português, logo, as editoras estão dependentes de pareceres, de nós, os tradutores. Quase todos os livros que elas editam são voos às cegas, o que dá uma grande responsabilidade aos tradutores mas também dá alguma insegurança às editoras. É tudo um jogo de confiança e de responsabilidade. Isso ao contrário das obras em inglês, em que as editoras sabem do que se passa quanto a elas.

Como é que toma contacto com as obras literárias africanas em português? A partir da sua publicação em Portugal ou no Brasil?


Sim e acho que é um problema geral. Infelizmente as obras editadas em África para atingirem um público mais vasto têm de ser publicadas em Portugal ou no Brasil. É uma situação com várias vertentes, com várias razões, mas que acho que tem de ser resolvida. Por mim seria muito interessante ver obras editadas em Angola, Moçambique, Guiné-Bissau... ficaria muito contente em ver uma actividade editorial viva e economicamente viável nos países africanos de língua portuguesa.

É a primeira vez que vem a Angola, mais concretamente a Luanda?


É a primeira vez que venho a Angola. O meu primeiro encontro com Angola foi precisamente ao sair do avião e me deparar com esse calor tropical que eu conheço da minha infância muito remota. Vivi os primeiros anos da minha vida na Libéria. E depois, vou comparando cada esquina de Luanda com os livros que traduzi. Tenho em mente a Luanda de “Os Transparentes”, de Ondjaki, que eu traduzi e que tem Luanda como protagonista; e a do “Barroco Tropical”, do Agualusa, que também traduzi e em que a cidade também, de certa forma, é a protagonista.

A cidade de Luanda que encontrou é a mesma dos romances que traduziu?


Claro que a cidade dos romances é ficcionada. Tenho tido alguns reencontros com elementos que eu tenho e depois tenho encontros com elementos da cidade que foram ficcionados. Se os livros de ficção fossem guias de viagem seriam muito pobres. A ficção levou-me a imaginar uma Luanda um pouco mais doida.

Fale-nos um pouco do muito elogiado sistema alemão de residências literárias e de bolsas de criação?


Há várias iniciativas nesse sentido. As instituições na Alemanha entenderam a importância de fomentar a literatura, que é algo que não pode depender simplesmente do mercado, sob pena de perder valor. Temos instituições que co-financiam traduções para o alemão de obras em línguas faladas nos países do Sul, existem bolsas como a da DAAD, de que o Agualusa já beneficiou nos anos 1990 e que, curiosamente, resultou na escrita do seu livro “O Ano em que Zumbi Tomou o Rio”. A DAAD fomenta o intercâmbio académico e de artistas, com a possibilidade do beneficiado viver durante um ano na Alemanha. Há outras bolsas que garantem uma estadia de um mês para, por exemplo, o artista divulgar a sua obra. A maioria dessas iniciativas são privadas ou semi-estatais.

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