Cultura

A poesia de Agostinho Neto na música popular angolana

Jomo Fortunato

A construção melódica sobre textos poéticos de Agostinho Neto, embora esteja em aberto para eventuais propostas musicais da nova geração, foi um processo em que tiveram êxito vários cantores e compositores ao longo da história da Música Popular Angolana. Na verdade, importa estabelecer traços distintivos entre as canções que irradiaram da poesia de Agostinho Neto, contrariamente aos temas musicais inspirados nos feitos do “poeta maior”, consubstanciados na luta de libertação nacional, gesta heróica que ditou a proclamação da independência de Angola.

Poema “Renúncia impossível” de Agonstinho Neto foi imortalizado na voz de José Kafala
Fotografia: Eduardo Pedro | Edições Novembro

A história da Música Popular Angolana, no domínio da canção política, regista quatro momentos textuais fundamentais que marcaram a reutilização criativa dos poemas de Agostinho Neto. Um primeiro momento, destacamos a interpretação docantor e compositor, Ruy Mingas, com o poema, “Adeus à hora da largada”, Minha Mãe/ (todas as mães negras cujos filhos partiram) / tu me ensinaste a esperar/como esperaste nas horas difíceis//Mas a vida/ matou em mim essa mística esperança// Eu já não espero sou aquele por quem se espera//Sou/ eu minha Mãe/ a esperança somos nós/ os teus filhos/ partidos para uma fé que alimenta a vida //Hoje/somos as crianças nuas das sanzalas do mato/os garotos sem escola a jogar a bola de trapos/ nos areais ao meio-dia/somos nós mesmos/os contratados a queimar vidas nos cafezais/os homens negros ignorantes/ que devem respeitar o homem branco/ e temer o rico /somos os teus filhos/dos bairros de pretos/ além aonde não chega a luz eléctrica/os homens bêbedos a cair/ abandonados ao ritmo dum batuque de morte/ teus filhos/ com fome/ com sede/com vergonha de te chamarmos Mãe/ com medo de atravessar as ruas/com medo dos homens/ nós mesmos/ Amanhã/ entoaremos hinos à liberdade/ quando comemorarmos/a data da abolição desta escravatura// Nós vamos em busca de luz/ os teus filhos Mãe/ (todas as mães negras cujos filhos partiram) /Vão em busca de vida.

Um segundo momento histórico da poesia de Agostinho Neto ficou marcado pela transfiguração para a Música Popular Angolana do poema, “Renúncia impossível”, um clássico da poesia de Agostinho Neto, gravado em 1986 por José Kafala, na RNA, Rádio Nacional de Angola, e regravado, posteriormente, com a flauta de Moisés Kafala, no CD “Salipo” (adeus em umbundu), 1995. Vejamos o texto: “Fui eu quem renunciou à Vida!/Podeis continuar a ocupar o meu lugar/vós os que mo roubastes//Aí tendes o mundo todo para vós/para mim nada quero/nem riqueza nem pobreza/nem alegrias nem tristeza /nem vida nem morte/nada.//Não sou, nunca fui./ Renuncio-me/Atingi o Zero//E agora/Vivei, cantai, chorai/casai-vos, matai-vos, embriagai-vos/dai esmolas aos pobres./Nada me pode interessar/que eu não sou/Atingi o Zero!”

O terceiro momento, coube a Mito Gaspar com uma versão, em quimbundo, do poema ”Havemos de voltar”, canção que enaltece a importância da literatura angolana em línguas nacionais, eis o texto: Às casas, às nossas lavras/ às praias, aos nossos campos/ havemos de voltar// Às nossas terras/vermelhos do café/ brancas de algodão/verdes dos milharais//havemos de voltar// Às nossas minas de diamantes/ouro, cobre, de petróleo/havemos de voltar//À frescura da mulemba /às nossas tradições/aos ritmos e às fogueiras/havemos de voltar//À marimba e ao quissange/ ao nosso carnaval/ havemos de voltar//Havemos de voltar à Angola libertada/ Angola independente.

O quarto e último momento reporta à versão de António Pascoal Fortunato, Tonito, com a sua versão de “Caminho do Mato”, registada no CD “Mulembeira”, respigamos o texto, “Caminho do mato/ caminho da gente/gente cansada/ Óóó, oh!// Caminho do mato/soba grande/caminho do soba/Óóó, oh!// Caminho do mato/caminho de Lemba/ Lemba famosa/Óóó , oh!//Caminho do mato/caminho do amor/do amor de Lemba/ Óóó, oh!//Caminho do mato/caminho das flores/flores do amor”.

Carnaval

A poesia de Agostinho Neto esteve presente na edição de 2017 do Carnaval de Luanda, com a canção, “Antigamente Era”, interpretada por Acácio Bambes do grupo Acapaná, convidado pelo comandante, Pedro Vidal, do grupo União 10 de Dezembro, “Antigamente era o eu- proscrito/ Antigamente era a pele escura- noite do mundo/Antigamente era o canto rindo lamentos/Antigamente era o espírito simples e bom//Outrora tudo era tristeza/Antigamente era tudo sonho de criança.// A pele o espírito o canto o choro/eram como a papaia refrescante/para aquele viajante/cujo nome vem nos livros para meninos//Mas dei um passo/ergui os olhos e soltei um grito/ que foi ecoar nas mais distantes terras do mundo// Harlem/ Pekim/Barcelona//Paris//Nas florestas escondidas do Novo Mundo/E a pele/o espírito/o canto/ o choro// brilham como gumes prateados/ Crescem./ belos e irresistíveis/como o mais belo sol do mais belo dia da Vida”. (10 de Setembro de 1951).

Ordem

Criada no dia 2 de Março de 2015, a Ordem Sagrada Esperança é uma ordem honorífica da Fundação Dr. António Agostinho Neto, destinada a galardoar ou distinguir, em vida ou a título póstumo, os cidadãos nacionais ou estrangeiros que se notabilizaram por actos excepcionais ou quem prestou serviços relevantes à luta de libertação nacional em Angola. A denominação da Ordem foi inspirada na obra épicade Agostinho Neto, “Sagrada Esperança” . A concessão da Ordem Sagrada Esperança é da competência da Presidente da Fundação, sob a forma de medalha e de diploma, assinado pela Presidente da Fundação e autenticado com o selo branco da mesma. A Medalha Raiada reafirma a localização geográfica de Angola e da Fundação Dr. António Agostinho Neto, representando a projecção no futuro da Ordem Sagrada Esperança, expressa pela estrela, que reflecte e se propaga pela humanidade, agraciando a luz da liberdade. A segunda edição de outorga da Ordem Sagrada Esperança decorreu por ocasião do 94º aniversário do Dr. Agostinho Neto e no 10º aniversário da Fundação, na categoria de artistas, músicos, intérpretes ou conjuntos angolanos que cantaram Agostinho Neto nos anos sessenta, setenta e oitenta.

Tributo

Destaque ao tributo da nova geração ao “Poeta maior” no CD “António Agostinho Neto, Vozes para Nguxy”, 2006, com as canções, “Ngassakidila Nguxi”, interpretada por Konde, Marília, Kizua Gourgel, Sandra Cordeiro, Kanda, Matias Damásio, Totó e Father Mak , “Kulembalabala”, Malú e Pedrito, “Meia-noite na quitanda”, Gabriel Tchiema, “Minhas palavras”, FatherMak, “Um bouquet de rosas para ti”, Matias Damásio, “Livre”, Konde, “Para enfeitar os teus cabelos”,Sandra Cordeiro, “Herói para sempre”, Eleicy e Black, “Velho negro”, Kizua Gourgel, “Setembro”,Totó, e “Confiança”, Kanda.

Edição

A Fundação Dr. António Agostinho Neto publicou a obra poética completa do “Poeta maior”, numa edição aconselhável para estudantes e investigadores. O título bibliográfico com a designação, “Agostinho Neto, obra poética completa”, reúne os livros “Sagrada Esperança”, “Renúncia Impossível” e “Amanhecer” e sua coordenação esteve a cargo da Drª Irene Neto, com ilustrações de António Pimentel Domingues. A obra poética completa de Agostinho Neto possui uma tradução em mandarim que foi apresentada, na 8ª edição do Festival da Canção em Língua Portuguesa, organizado pela Universidade de Estudos Estrangeiros de Pequim, em Maio de 2019.

Cantores condecorados com a Ordem Sagrada Esperança

A Fundação Dr. António Agostinho Neto reconheceu o mérito dos cantores e compositores que interpretaram canções sobre poemas de Agostinho Neto nos anos sessenta, setenta e oitenta, com a outorga da Ordem Sagrada Esperança, em cerimónia realizada no dia 10 de Setembro de 2016, no Centro Cultural Agostinho Neto, em Catete, no âmbito da Semana do Herói Nacional e da programação cultural da sexta edição do FESTINETO. A outorga da Ordem Sagrada Esperança a uma ilustre geração de cantores e compositores que se notabilizaram pela coragem e por terem mobilizado as populações através das suas canções sobre Agostinho Neto, cantando a liberdade, independência, e defesa do solo pátrio, aconteceu pela primeira vez. Na ocasião, foram condecorados os seguintes cantores e compositores, que cantaram poemas de Agostinho Neto ou escreveram versos sobre o primeiro Presidente de Angola, Antigos Pioneiros do MPLA?, com o poema “Aspiração”, 1973, António da Luz, Calabeto, “Camarada, camarada Presidente”, 1975, Tonito, “Caminho do Mato”, 1973, Santocas, “Valódia” e Massacres de Kifangondo”, 1976, Armando de Carvalho, “Não direi nada”, 1974, DomCaetano e Zeca Sá, “Sabias sim”, 1982, Conjunto Angola 74, Tany Narciso, “Oh ndaka ó winhe”, 1975, pelo Conjunto “Nzagi”, Maria Mambo Café, Ana Wilson, Amélia Mingas, “Doutor Neto”, 1966, Santos Júnior, “Kitadikiángola”, 1975, Prado Paim, “Povo angolano ficou a chorar”, 1980, Elias dyaKimuezu, “Agostinho Neto”, 1982,Mirol,“A independência está chegando”, 1975, Carlos Lamartine, “Ó dipandaolotulakiá”, 1974, Mito Gaspar, “Havemos de voltar” traduzido em quimbundo, 1981, Zé Kafala, “Renúncia impossível”,1985, Manuel Faria, “Povo no poder”, 1974, Mário Gama, “Presidente”, 1975, Matadidi Mário, “Um minuto de silêncio”, 1980, Tabonta, “Welle Neto”, 1980, António Paulino, “Neto, Neto”, 1975, Lito Júnior, “Presidente”, 1975”, e Ruy Mingas, “Adeus à hora da largada”, 1973. Foram ainda condecorados, a título póstumo, os artistas: Urbano de Castro, “Tata mukunzi”, 1974, Artur Adriano, “Presidente”, 1974, Belita Palma, “Manguxi”, 1983, Minguito, Avozinho, Moisés Kafala, Nguxi, irmãos Kafala, e Beto Gourgel, 1985. Embora tenham sido condecorados, não foram localizados os artistas: Coral do Bocoio de Benguela, Coral Hoji ya Henda de Benguela, Wassinga Jones e Fátima.

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