A "bessangana" da Ilha do Cabo

Jomo Fortunato |
10 de Agosto, 2015

Fotografia: Paulino Damião

Filha legítima do mar, dos seus mistérios e das tradições da Ilha de Luanda, Tonicha Miranda herdou do lado paterno a afeição pelo carnaval, tendo-se tornado numa das mais importantes referências, enquanto compositora, da nova geração de intérpretes da Música Popular Angolana e do histórico União Mundo da Ilha.

Tonicha Miranda escreveu a primeira canção em 1989, no entanto a propensão para a música ficou imediatamente definida na adolescência. Tanto é assim que aos catorze anos de idade manipulava, de forma apaixonada, um gira-discos em casa, propriedade do seu pai, do qual se recorda a audição e transcrição de canções da Música Popular Brasileira, em disco vinil, de Roberto Carlos, Clara Nunes, e Gal Costa, fase da sua vida que reconhece ser a sua primeira escola.
A cantora lembrou, nos termos que seguem, a absorção da sua herança cultural e da importância do carnaval na sua vida, representada pelo grupo União Mundo da Ilha: “O contacto com o União Mundo da Ilha, grupo de carnaval em que o meu pai foi o primeiro Presidente, veio depois. A minha aparição neste grupo, surpreendeu muita gente. Quase ninguém sabia que eu era filha do histórico António Miranda, falecido no dia 24 de Março de 1984. Os ilhéus dizem “Kima kié boxi”, ou seja, nada se perde. No fundo estou a ocupar o lugar deixado pelo meu pai, numa linhagem natural de herança e continuidade dos pressupostos culturais da Ilha de Luanda. Importa recordar que o meu pai dava os parcos proventos que possuía, para ajudar o União Mundo da Ilha, um comportamento que veio a criar desentendimentos com a minha mãe... era uma entrega total.”
Filha de António Miranda, empregado de balcão, e de Mariana João Pataca, lavadeira, peixeira e dançarina do grupo de Rebita, “Novatos da Ilha”, Antónia de Fátima João Miranda, Tonicha Miranda, nasceu em Luanda, na Ilha do Cabo, no dia 5 de Maio de 1962.
A participação de Tonicha Miranda, em 1992, nos  coros das canções do cantor e percussionista, Galiano Neto, nos estúdios da Rádio Nacional de Angola, marcou o início da sua aproximação ao mundo da Música Popular Angolana, tendo sido depois vocalista do agrupamento ‘‘ Os congas ’’, de 1990 a 1994, com: Galiano Neto (tambores), Fonseca da Costa (baterista), Nené (teclas), Luís Braga (guitarra solo), e Zito Monteiro (viola baixo). Oito anos depois, a cantora começou a surgir em programas de rádio  e televisão, período em que começou a ser conhecida pelo grande público.

Canções

As canções de Tonicha Miranda abordam, para além da generalidade das tradições da Ilha de Luanda, o amor, morte, conflitualidades familiares e conjugais. O prestígio de Tonicha Miranda como compositora,  tem levado muitos intérpretes da nova geração a solicitar as suas canções: Zeca Moreno, interpretou “Amigo é abrigo”, Marceny Neto, “Coisas do antigamente” e “Brogodjó do Kilapi”, Manning Naice, “Cidade da Kianda”,  Zé da Cunha, “Tanaku Luanda” (parabéns Luanda), Sara Dem, “Amoro iami”, Ângela Ferrão, “Ngongo iá biluka”, Carlos Burity, “Kenia henda” (insensibilidade), e “Meu canto”, Sedrik Mamona, “Assumir o trono” e “Armandinho zig zag”,  e João Paloma, com as canções “Atu iá” e “Lunga ni kalunga”, a última regravada em versão semba. Tonicha Miranda traduziu da língua portuguesa  para kimbundo, canções de Lolito, Nazarina Semedo, Caxinda e Agree G.

Concursos

Nos concursos, Tonicha Miranda sempre foi movida pela simples vontade de participar, do que de vencer, o objectivo era dar a conhecer a sua obra, daí que tenha participado nos programas, “Angola em paz’’ e “Nação coragem”, da Televisão Pública de Angola, em 2000,  e foi terceira classificada do Prémio da Canção Cidade de Luanda, em 2002.  Arrebatou o primeiro lugar da sétima edição do concurso, “Gala à  sexta-feira”, igualmente da TPA, e o segundo lugar, na terceira meia-final do mesmo concurso, em 2003. Tonicha Miranda foi ainda primeira classificada do Prémio da Canção Cidade de Luanda, em 2004. Ficou entre os doze apurados do Festival da Canção de Luanda, da Rádio LAC, Luanda Antena Comercial, em 2005, e venceu o festival no ano seguinte. Em 2006, o cantor lírico, Celso Mambo, venceu o Festival da Canção de Luanda, com o tema “Lunga ni Kalunga”, de Tonicha Miranda. Por último, arrebatou a categoria de “Melhor letra’’, em 2009, igualmente do festival da da Rádio LAC.

Feminismo

Tonicha Miranda foi convidada a cantar num convívio cultural, no dia  31 de Julho de 2013, data comemorativa do “Dia da Mulher Africana”, realizado pela Fundação Arte e Cultura, instituição que patrocinou o seu CD, “No Feminino”. Na ocasião a cantora falou das motivações que estiveram na base da criação do seu disco, inteiramente dedicado à mulher, da força de vencer, da dignidade e auto-estima da mulher, da urgência no empreendedorismo, emancipação da mulher, dos aspectos negativos da discriminação do género, e da violência doméstica. Tonicha Miranda tem feito parte do elenco artístico da Galeria Celamar, instituição da artista plástica Marcela Costa, nos  Projectos: “Coopearte” e Arte mulher”.

Carnaval


Embora a história da composição musical do União Mundo da Ilha registe os nomes de Brucunha Afonso, primeira compositora, Tia Kulu, Tia Mabunda (Nga Mutúri), Tio Basto e Tio Miguel Diogo, Tonicha Miranda tem-se notabilizado como compositora do grupo com as canções: “Jisabu jyetu”, sobre a história de Angola, “Kazanga Kyetu”, sobre as tradições da Ilha, “Paz yá Waba”, sobre a paz, “Vamos continuar”, União Cassules Mundo da Ilha, e “Kakulo ni Semba”, tradição e semba, (2014), canção criada para registo em CD do grupo, em que a cantora escreveu sobre rituais secretos, e oferendas dos ilhéus à “Kianda”, Sereia, divindade do mar, da qual trancrevemos o texto integral: Kianda uzoa ni ukumbu/ ubunda ó mukila bu menha /mabuku mabunda ni ngunza/ tu vua...buala calemba zinha/ buala calemba nga mbala/ buala calemba jolo bunda ni ngunzu/ fica muimbu ua semba/ ibinga kalulu..tamenu ku jiji  /lekenu makudia mu menha/ lekenue ji olua/ pala ku bomba ó kianda/ mu salelenu mesa/ imbenu...imbenu...imbenu/ imbenu ka muimbu/ xikenu ó ngoma ninguzu/xinguilen...xingilenu/ kinenuê... / semba...semba yetu...semba/ união mundo...semba / undala ngo semba/ ó povo indala semba / ukina ngo ni semba.  “Kakulu ni semba” narra a história de uma sereia que nada vaidosa, batendo a cauda na água do mar de forma violenta, provocando calemas, que são comparadas ao ritmo do semba, num contexto ficcional em que a compositora faz reviver os rituais ancestrais da Ilha do Cabo.

Discografia


Tonicha Miranda interpretou no CD, “Geração do semba” (2008), segunda edição, num trio com Malú e Calabeto, as canções: “Kuma kuá vundu”, de Elias diá Kimuezo, e “Makezu”, poema de Viriato da Cruz, e “Kizua kiá dipanda”, “Jinguma” e “Jienda” da sua autoria. Tonicha Miranda gravou depois no CD “No feminino” (2011), as canções: “Mona uanzoji”, “Diala yó”, “Maka da tarrachinha”, “Jindolo”, “Querida Zungueira”, “Semba mujimbo”, “Lamento da Rosa”, “Pérolas do andebol”, “Miguelito”, e  “Março mulher”, que teve a participação das cantoras: Elisa Coelho, Ângela Ferrão, Nazarina Semedo, e Aninhas.
Ao longo da sua carreira, Tonicha Miranda participou ainda em dois CD’s do Festival da Canção de Luanda, da Rádio LAC, em 2004 e 2006, respectivamente, com as canções “O marinheiro”, e “Lunga ni Kalunga, nos  CD’s carga dupla dos DJ Nike e Znobia, com a canção “Recordar é viver” e “Afrobasket”, no CD ‘‘Vozes de Nguxi’’ da Fundação Dr. Agostinho Neto, com o tema, “Kulembalala”, interpretado pela cantora Malú, no disco, ‘‘Mais que vencedores do gospel”, de Célsio Mambo, com a canção “A pérola”, no  CD do Kueno Aionda, “Tu vives em mim”, com as canções “Melita” e “Ngodiondo”, e compõe há quatro anos para o grupo de carnaval, União Mundo da Ilha. Precupada em organizar a dimensão jurídica da sua carreira, Tonicha Miranda associou-se à UNAC, União Nacional dos Artistas e Compositores, em 1989, está inscrita na Direção Provincial da Cultura de Luanda, na SADIA, Sociedade Angolana dos Direitos do Autor, e na Direção Nacional dos Direitos de Autor e Conexos.

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