Cultura

A brilhante sintonia entre semba e kuduro

Ferraz Neto

António Francisco de Carvalho da Silva “Tino Silva” nasceu na cidade de Caxito, província do Bengo, mas foi no Sambizanga onde começou a galgar  nas lides musicais. Daí, passou a fazer parte do leque de figuras que sempre dinamizaram a cultura por aquelas paragens: “Nasci em Caxito, a capital da província do Bengo, mas foi no Sambizanga que me tornei músico”. Considerado “Filho de Camponês”, Tino Silva consolidou uma carreira em que o reconhecimento do público e da crítica é crescente e visível pela atribuição de inúmeros prémios ao longo da sua carreira. 

Fotografia: Edições Novembro

O salão do Baião, em pleno coração de uma das mais simbólicas zonas de Luanda, foi o local escolhido para a homenagem a Tino Silva. No espectáculo os convidados Chiquinha Bangão, Jota Jota, Mig, Feddy Calupeteca, Calabeto, Lulas da Paixão, Dom Caetano e o jovem Nagrelha revisitaram as canções mais hilariantes de Tino Silva.

A saudade esteve bem presente quando Chiquinha Bangão e os convidados evocaram a memória do mestre Bangão, cantando em uníssono “Calumba Seleta” e “Wa ya yea”. A vontade, a força e a inspiração para que Tino Silva fosse músico também estiveram em evidência.

Guião de luxo

Completamente reabilitado, no salão do Baião, uma das referências das noites dançantes de Luanda, “desfilaram”  canções que marcaram várias gerações de angolanos. Além das menos divulgadas, foram cantados temas que apesar de pouco divulgados nas rádios são autênticas “pérolas”.  

A direcção artística do espectáculo ficou a cargo de Tex Silva, irmão mais velho de Tino Silva, que também se converteu em mestre de cerimónia. 

O guião artístico foi inaugurado por Chiquinha Bangão. A esposa de Bernardo Jorge “Bangão”, falecido em 2015, caloira nas lides musicais, recorreu ao seu próprio acervo e ao do esposo para excitar os presentes. E não desiludiu... 

“Sou novata nestas lides e estou a ganhar traquejo com estes eventos, que me vão transformando em intérprete", confessou ao Jornal de Angola Francisca Manuel Ventura, a tia Chica do Bangão, como é conhecida pelos moradores do Sambizanga.

O espectáculo estava doce e o ambiente completamente requintado com a banda “Os Kimbambas do Ritmo”, criado no início da década de 60, a unir a sonoridade ao ritmo. A dado momento coube a vez de João da Costa, também conhecido nas lides artísticas como Jota Jota, subir ao palco. Os presentes no salão do Baião, decorado de modo cuidado, aplaudiram a viagem musical proposta por Jota Jota. Contemporâneo do homenageado, Jota Jota, ele que se consagrou na província do Cuando Cubango em 1991, no seu jeito bem peculiar recorreu ao acervo do seu disco “Naufrágio Romântico”, publicado em 2002.  

Não faltaram no espectáculo os grandes sucessos de Martins Miguel Zau, conhecido nas lides artísticas como Mig. Todos os seus sucessos foram revisitados pelo músico, que tornou assim mais eufórico o ambiente. E foi nesse ponto que o veterano Calabeto entrou em cena.

 

Pai artístico e as lágrimas 

Considerado “Pai” nas lides musicais, foi por intermédio de António Miguel Manuel Francisco “Calabeto” que Tino Silva abraçou a carreira artística. Na época tinha apenas 12 anos: o homenageado estreou-se imitando Calabeto (um dos artistas mais populares das décadas de 1960/70).   

O show emociona, mas com leveza. E há também o momento da partilha de microfone e de palco entre duas figuras da música angolana de gerações diferentes. 

O dueto mergulha a plateia num ambiente de melancolia, risadas e euforia. Por alguns instantes a voz de Calabeto fica embargada. 

Predomina a voz de Tino Silva, numa das estrofes da música “Mbiza ya Ikusuka”. O homem que o inspirou musicalmente está presente e Tino emociona-se. Surgem lágrimas nos olhos do Filho de Camponês. Nos instantes seguintes, o som da música ganha espaço e António Miguel Manuel Francisco “Calabeto” assume o palco na totalidade. O “Kota Bué, como também é conhecido pela sua “jinga”, entoou “Mbiza ya Ikusuka”, “Kamba Diami” e “Tua Bombo tua Lembua”. Tratou-se de um dos melhores momentos cenográfico vividos no recém-restaurado salão do Baião. Por alguns instantes, o som do instrumental voltou a baixar e surgiu apenas a voz tónica de Calabeto: 

“Dedico este momento a ele”, indicando o dedo a Tino Silva.

E a espiritualidade e a cumplicidade foram de facto evocados no palco. Antes da saída em cena de Calabeto o mais jovem aproveitou-se do microfone para desvendar segredos: “confesso que sempre admirei o mais velho Calabeto. Este é um dos melhores momentos da minha vida”.

Quando os ânimos se previam amenizar, os convivas foram surpreendidos pelo mestre de cerimónia Tex Silva, irmão mais velho do homenageado, a anunciar a entrada em cena de Alfredo Domingos “Fedy Kalupeteka”. Logo a seguir a “Namoro de brincadeira” Fedy cantou “Kalupeteca”. 

“É um momento de singular satisfação e que demonstra a generosidade dos sambilas”, disse no final da actuação Fedy Kalupeteca. 

Lulas da Paixão

Como se cada momento fosse um recomeço, no mesmo palco, nos instantes seguintes registou-se a entrada fulgurante de Lulas da Paixão.
Nascido a 11 de Novembro de 1946, na Ilha do Cabo, em Luanda, o artista começa a sua carreira artística como vocalista do grupo “A Caravana”, em 1957. Mas é em 1968 que se notabiliza como músico no extinto “Muzangola”, inserido no projecto músico-cultural “Kutonoka”. 
Enquanto compositor, Lulas da Paixão produziu músicas para Carlos Burity (“Mukagiami”, “Lolito)”, Pedrito (“Nga Kinga”), António Paulino (“Ti Chico II”), entre outros. Aplaudido de pé do princípio ao fim, Lulas da Paixão, antes mesmo da sua actuação, decidiu chamar ao palco o homenageado para emitir-lhe as seguintes frases: “Tenho muito orgulho em cá estar e fazer parte desta homenagem. Obrigado pelo convite”.
Os presentes não resistiram ao som de “Kamaca” e “Menina Wemita”, interpretadas por Lulas da Paixão. Houve momentos de grande euforia, onde músicos e admiradores dispensaram as cadeiras e juntaram-se a uma mesma roda. Assobios e passadas marcaram o momento.
O cardápio musical de homenagem, numa iniciativa de algumas figuras emblemáticas do distrito do Sambizanga, caminhava para o final e dois nomes ainda eram aguardados com expectativa: Dom Caetano e Nagrelha. Além disso, a banda e um telão com animações a representar alguns momentos da carreira do músico, foram outras das atracções.
Dom Caetano socorreu-se da sua nova obra discográfica intitulada “Esperança Divina”, para saciar a gula dos admiradores. “Vizinha”, “Uegia Kusokana” e “Semba Dilema”, três dos seus grandes sucessos, fizeram as delícias dos circunstantes. Foi muito bom de se ver.
O fecho do espectáculo esteve sob responsabilidade de Nagrelha, outra das figuras emblemáticas da música angolana, forjadas no Sambizanga. Jelson Caio Manuel Mendes “Nagrelha” cantou e encantou. O músico foi dos mais aplaudidos entre os que pisaram o palco naquela noite.
Do mítico álbum “Filho de Camponês” ao mais recente “Surra e Bassulas”, nenhuma música ficou de fora nesta viagem de Tino Silva pelo Sambizanga, pelas canções de amor e por todos os elementos que fazem parte da sua brilhante história de 25 anos de carreira musical, que é também uma parte importante da história da música angolana. O show, que teve início as 15h00, prolongou-se até as 19h00 e deixou satisfeito quem lá esteve. 

PERFIL

António Francisco  de Carvalho da Silva

Data de nascimento? Não gosto de revelar.
Nome do pai e mãe? Francisco Pascoal da Silva e Rosa João de Carvalho.
Cor preferida? Azul escuro.
Defeito? Teimosia.
Virtude? Persistência.
Filhos? 9.
Passatempo? Leitura.
Marca de perfume? Kenzo.
Usa roupa de marca? Desde que me fique bem, não sigo marcas de vestuário.
Clube? Progresso Sambizanga e Domant FC.
Homossexualidade? Respeito mas não aprovo.
Poligamia? Sem comentários.



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