Cultura

A cultura na criação de riqueza

Roque Silva |

Escritores e artistas pediram ontem ao MPLA uma maior atenção à superação das dificuldades no sector da Cultura, com destaque para as de ordem financeira e estrutural, caso o partido vença as eleições deste ano.

Os homens e mulheres de cultura querem contribuir para a criação de mais riqueza nacional
Fotografia: Rogério Tuti | Edições Novembro

O apelo foi feito pelos representantes das diferentes associações artísticas, durante o encontro que o candidato presidencial , João Lourenço, realizou no Centro de Confer|encia de Belas, em Luanda, para o qual convidou os fazedores de arte para apresentarem as suas reivindicações, preocupações, dificuldades e propostas de projectos para o quinquénio 2017/2022.
O candidato e vice-presidente do MPLA aproveitou o encontro para apresentar os projectos em carteira para o vasto sector da cultura e o programa de governação para o quinquénio aos representantes da União dos Escritores Angolanos (UEA), Associação Angolana de Teatro (AAT), União Nacional dos Artistas Plásticos (UNAP), União Nacional dos Artistas e Compositores (UNAC-SA), dinamizadores de dança e das indústrias culturais e promotores de eventos.
Os mandatários das associações propuseram a João Lourenço e ao partido no poder no poder a transformação da cultura num contribuinte para o Produto Interno Bruto (PIB), através de uma melhor organização do sector, fazendo funcionar os instrumentos legais, a criação de linhas de financiamento específicas que beneficiem os artistas, a construção de locais onde os artistas exponham o seu trabalho e para trabalhos de pesquisa, resgate, mapeamento e catalogação das danças nacionais.

Dança e teatro
Em nome do grupo de dinamizadores da dança, Nelson Augusto mostrou interesse em ver Luanda transformada numa capital da dança no continente africano, a ascensão do festival luvale a um dos maiores atractivos turísticos de Angola, a retomada do concurso coreográfico inter-africano e a criação do Festival “Kikina” (dançar). Os dinamizadores da dança sugeriram a internacionalização do Carnaval para captar moeda forte e uma atenção ao kuduro como género de dança de rua, pois a sua projecção com espectáculos coreográficos cujos movimentos corporais e o conteúdo de trabalho já é objecto de estudo.
A criação da Federação de Danças Desportivas de Salão e a criação de festivais nacionais das variadas danças modernas e folclóricas foram propostas apresentadas pelo professor e director do Complexo de Escolas de Arte (CEARTE).“Desde a prática das danças folclóricas  e patrimoniais, vivemos sempre momentos altos em épocas de importância nacional, desde a proclamação da independência, o Fenacult, a assinatura da transição para o GURN, nas principais actividades desportivas, Jogos da África Central em 1971, Afrobasket 1989, 99 e 07 e o CAN 2010”, afirmou Nelson Augusto, para sublinhar que a dança está presente em todos os momentos da História de Angola, porque “as actividades começam e terminam com ela”.
A conclusão para breve do Teatro Avenida, em obras há 10 anos, e a construção de outros espaços foi um dos desejos da classe teatral apresentado pelo secretário-geral da AAT, Adelino Caracol, para quem a qualidade deve seguir os padrões internacionais para a melhoria do trabalho de actores e encenadores. A classe quer ver o seu trabalho levado ao palco do respeito e da dignidade, pois os fazedores subsistem por meios próprios, por amor à pátria e à arte.
A situação das salas de teatro e a criação de um mecanismo de aproximação entre os departamentos ministeriais e os governos provinciais para flexibilizar a realização dos projectos culturais foram destacadas pelo representante da AAT.
Outras preocupações expostas por Adelino Caracol foram a revisão do Fundo de Apoio às Actividades Artísticas e Culturais, através de mecanismos de transparência, mais apoios, esclarecimento sobre a Lei do Mecenato para evitar que o teatro continue a ser discriminado e a criação de bolsas para que os actores tenham acesso aos cursos de artes nos institutos existentes.
“Este encontro é um marco zero e esperamos ser um ponto de partida para ver concretizados os nossos desejos. A tendência do teatro é elevar o padrão de modernidade, o que acontece todos os dias, com conquistas em prémios no exterior. Por isso, é tempo de haver melhorias”. declarou Adelino Caracol durante o encontro, no qual participaram, entre muitas personalidades das artes e da cultura, Pepetela, Marcolino Moco, Luís Fernando, Dario de Melo, Luís Kandjimbo, Carlos Lamartine e Carmo Neto.

  Indústrias culturais e literatura em destaque

As indústrias culturais ocupam um lugar importante a nível mundial, pelo seu peso económico e capacidade de influenciar as identidades nacionais, como fonte que suscita e reitera a discussão em torno de uma cláusula no comércio de bens culturais.
A criação de linhas de financiamento específicas para as indústrias culturais que permitam o surgimento e a multiplicação de outras iniciativas, como novas editoras e colmatar o dilema da edição de livros, com garantias dadas pelo próprio Estado com base na avaliação dos projectos, foi defendida por Carmo Neto, em nome da UEA, e Orlando Domingos, pelas indústrias culturais. Carmo Neto propôs, como desejo dos escritores, a aposta nos projectos existentes de ordem editorial e estrutural, como a edificação de uma nova sede da UEA para facilitar a criação de uma nova rede de bibliotecas de forma automática e a recuperação do Prémio Sonangol de Literatura.   
Para Orlando Domingos, a iniciativa empresarial no domínio das indústrias culturais não encontra fácil financiamento porque está enquadrada em pacotes gerais, com outros projectos, o que contribuiu para o aparecimento de poucas iniciativas no ramo do cinema e  de bons profissionais, pelo que o quadro deve ser alterado. “Muitos são os autores cujos trabalhos não conseguem ser editados e os que financiam eles próprios os custos. Grande parte dos artistas que contribuíram para que se consumisse mais música angolana vive na penúria. Já não é prática comum e habitual encontrar o livro em todos os cantos, mas lê-se muito pouco ou quase nada. A produção e distribuição do cinema é quase inexistente. Os espectáculos e ofertas culturais infantis continuam a ser dominados por trabalhos, personagens e temas do exterior, mas precisamos de alterar esse quadro”, disse Orlando Domingos.

Tempo

Multimédia