Cultura

A cultura nos discursos de José Eduardo dos Santos

Jomo Fortunato |

A perspectiva visionária do Presidente da República, José Eduardo dos Santos, apontava os caminhos da gestão cultural no processo de reconstrução nacional, no seu discurso sobre o Estado da Nação, proferido na abertura da segunda sessão legislativa da terceira legislatura da Assembleia Nacional, em Outubro de 2013, referindo-se à valorização do livro, da promoção da leitura, e da formação artística:

Nos últimos onze anos multiplicaram-se as abordagens sobre cultura nos discursos do Presidente da República o que denota a sua dimensão visionária
Fotografia: Francisco Bernardo | Edições Novembro

“A nossa política cultural vai ser igualmente reajustada e revitalizada na sua execução para maior valorização do livro e  incentivos à leitura, para a realização de actividades culturais regulares nos municípios, províncias e a nível nacional, tanto no domínio do folclore e do artesanato como no das manifestações de cultura popular e erudita. Precisamos nesta área de criar também com urgência os estabelecimentos de formação básica, média e superior para facilitar o acesso ao conhecimento científico e técnico dos cidadãos”. Concluindo depois que, “Devemos promover também a projecção regional e internacional das nossas figuras de destaque no domínio cultural e o registo e reconhecimento internacional dos bens culturais materiais e imateriais que simbolizam a nossa identidade”.
A visão prospectiva do Presidente da República, enunciava a necessidade imperiosa de multiplicar a presença da cultura angolana nos mercados e na agenda dos eventos internacionais, facto que pode melhorar a imagem de Angola se alargarmos, em termos de representatividade, os sectores da cultura, com qualidade assegurada, que nos remetem para a revalorização do património e das manifestações da contemporaneidade artística, a exemplo do aproveitamento da projecção internacional da Kizomba, no domínio da dança. 
Discursos
Nos últimos onze anos, multiplicaram-se as abordagens sobre a cultura nos discursos do Presidente da República,  o que denota a dimensão visionária do Chefe de Estado, a preocupação sobre as manifestações culturais do seu povo e a necessidade de aproximação da cultura à economia. Vejamos dois momentos diacrónicos de diferentes alusões do Presidente à cultura, nos seus discursos: “Virámos a página da guerra e da destruição, abrimos o capítulo da Paz, para reconstruir o que está partido, para construir coisas novas, para promover os valores morais e sociais positivos, para criar novos factos culturais, afirmar a identidade nacional e desenvolver a nossa cultura”, alertava o Presidente no discurso de fim do ano de 29 de Dezembro de 2005, para afirmar depois que “É tendo em linha de conta todos estes aspectos que consideramos a questão da Cultura como uma variável estratégica de grande importância, com efeitos imediatos na coesão interna da nossa sociedade, bem como na nossa marcha em direcção aos objectivos globais que nos propomos atingir, tais como construir uma nação unida, desenvolvida e próspera com uma cultura fluorescente e um Estado de Direito, Democrático e Social” fez lembrar o Presidente da República, no dia 11 de Setembro de 2006, por ocasião do discurso de abertura do III Simpósio sobre Cultura Nacional.
Entendemos que a adaptação dos pronunciamentos do Chefe de Estado, ao actual contexto de diversificação da economia, passa pela rentabilização da cultura, enquanto manifestação produtiva, centrada na valorização do património, incluindo a promoção e estudo do cancioneiro tradicional, um segmento musical de largo consumo nos países ocidentais.

Exportação

Angola tem uma oportunidade singular de exportar e rentabilizar a sua cultura, nas suas mais diversas manifestações, definindo inteligentemente os produtos exportáveis na agenda dos certames internacionais, contrariando a tendência perniciosa de alguns sectores de opinião internacionais que persistem em considerar Angola, um país adiado, cinzento e inóspito, quando relacionado com a actual queda da cifra do barril do petróleo. Por esta razão,o Presidente da República, José Eduardo dos Santos, deu luz  ao processo alternativo de diversificação da economia,  que poderá incluir de facto o sector da cultura.  No seu sentido lato a nacionalidade e o indivíduo, inseridos num sócio-sistema concreto, definem uma marca cultural que, aliada às conquistas da “Angola nova”,  protagonizada pelo Chefe de Estado, darão, de certeza, um cunho  identitário à promoção da marca cultural angolana. Pensamos que os formadores de opinião devem se juntar às marcas culturais angolanas, e a identidade individual ficará ao serviço da identidade colectiva, constituindo, verdadeiramente, “um só povo e uma só nação”, em defesa dos interesses de Angola. 

Economia criativa

É necessário empreender uma esforço redobrado, para que Angola seja conhecida, não só pelo passado do conflito bélico e pela actual crise financeira, mas pela sua cultura. Sabe-se que a crescente circulação dos produtos culturais no mundo, acelerada pela dinâmica do advento das modernas tecnologias,  gerou o conceito de “economia criativa”.
A noção de “economia criativa” deve incluir a gestão dos produtos e serviços relacionados com a capacidade intelectual e as representações da cultura endógena, num diálogo directo com os desígnios políticos e económicos de Angola, enquanto Estado e Nação independente, com  ideias próprias, segundo o  discurso do Presidente da República, no III Simpósio Sobre Cultura Nacional, que, julgamos, continuam actuais.
 Os programas culturais de exportação devem estar focalizados na investigação, criatividade, imaginação e inovação, e não se restringir aos produtos que sustentam desígnios estritamente comerciais. Toda a acção cultural de um programa definido com objectivos, deve estar assente no património e no carácter identitário da cultura imaterial angolana.  Daí que a aplicação, pragmática, do conceito de “economia criativa” se nos afigura um requisito fundamental para se sair do lugar-comum da competição predatória, que consiste em incluir no mercado, produtos e serviços em que se ausentam dos factores identitários, culturalmente significativos, e os padrões de qualidade aceites internacionalmente.  

Modernidade

Embora valorize a tradição e os valores culturais endógenos, o Presidente reconheceu, nos seus discursos,  a inevitabilidade de uma leitura moderna da criação artística, sendo necessário estabelecer equilíbrios entre estes dois rasgos temporais que existem em qualquer época, ou seja, a tradição e a modernidade: “…muitos dos nossos criadores… irão certamente continuar…a produzir a música erudita, a dança contemporânea, as danças africanas estilizadas, as belas artes e o teatro moderno. Isso não deverá impedir, no entanto, que continuemos a inserir-nos sem complexos na modernidade, apoiando sem reservas a expressão das novas realizações, inquietações e aspirações que a transformação das bases da nossa sociedade e o progresso social e científico nos impõem”, alertou o Presidente da República, José Eduardo dos Santos.

Globalização cultural segundo o Presidente da República

Numa declaração pronunciada no dia 11 de Novembro de 2005, o Presidente da República asseverava: “Nesta era da Globalização, em que cada país é um mercado integrado num mercado global, em que a informação, os valores da cultura universal e as normas da civilização ocidental se disseminam sem fronteiras, quem não é capaz de administrar o seu mercado e preservar os valores da sua identidade, transformando-os em contributo ao processo global, fica sem expressão”. Referindo-se à absorção passiva dos efeitos da globalização e da planetarização da cultura ocidental, o Presidente afirmou que, “O mundo tende para uma integração cada vez maior e é hoje caracterizado pelo facto de a informação, as manifestações culturais, os valores, usos e costumes dos países mais desenvolvidos influenciarem os povos das nações menos desenvolvidas”. De facto, na linha de pensamento de José Eduardo dos Santos , hodiernamente, consequência do processo de globalização, as identidades culturais não apresentam, muitas vezes, contornos nítidos e estão inseridas numa dinâmica fluida e móvel. É desta fluidez e mobilidade que devem assentar os factores de concorrência na criação das marcas culturais angolanas, perante a presença, que pretendemos disciplinada e regulamentada, das marcas estrangeiras, sem cairmos na  xenofobia, comportamento que pode dar azo a  consequências incómodas, em relação à imagem de Angola no mundo. Diríamos então, que estamos perante um desafio cujo desfecho depende do rumo que quisermos proporcionar à imagem de Angola, segundo o pensamento cultural de Presidente da República, José Eduardo dos Santos, apelando sempre à simbologia da representatividade das artes e da cultura, configuradas nos seus contornos nacionais, enaltecendo sempre Angola, no seu diálogo com o mundo, rumo ao progresso pelo desenvolvimento cultural. Parabéns culturais.

Tempo

Multimédia