Cultura

“A dança vai vivendo como pode”

Matadi Makola

Hoje assinala-se, em todo o País, o Dia da Cultura Nacional. O Jornal de Angola procurou Maneco Vieira Dias, afecto à direcção do Ballet Tradicional Kilandukilu e, igualmente, coordenador do recente Amplo Movimento de Revitalização da Dança. Entre outros assuntos sobre a matéria, frisa: “Talvez com a implementação da bolsa de criação consigamos ter um grande acervo documental, espelhando a particularidade de cada região...”

Fotografia: DR

Num breve olhar, como traduzir o estado actual da dança?
Infelizmente, não é dos melhores. Já tivemos momentos significativos, tempos em que a dança assumia patamares invejáveis. Nesta altura, a dança tem estado a atravessar um daqueles momentos que não é dos melhores, um tanto pela actual situação financeira do país. Os apoios têm sido cada vez menores, embora se reconheça a boa intenção de determinadas iniciativas de grupos já consagrados, como de outros que proliferam a nível dos bairros.

É um problema de todos?
A verdade é que todos nós nos esbarramos na questão dos meios, que condiciona a realização de determinadas acções. Portanto, é aí onde começa o problema. É aí onde, infelizmente, todos nos deparamos com a maior parte das dificuldades e os grandes  projectos acabam por não nascer. Dizer que a dança está bem ou caminha para lá, não é verdade. De concreto, “a dança vai vivendo como pode”, embora existam algumas oportunidades e alguns bailarinos as aproveitam para mostrar números interessantes.

Há quem esteja melhor?
Existe sim um número muito reduzido de bailarinos que já vive da dança. Mas ainda é bastante reduzido para a dimensão da matriz cultural do país neste quesito.

Disse  que nos bairros ainda se vive o fenómeno da dança ...
Só para ter uma ideia, há coisa de duas semanas, fui convidado a estar presente num determinado bairro da capital, precisamente no Prenda, e vi uma maratona de dança com mais de trinta grupos dos mais variados géneros, desde as danças folclóricas  às contemporâneas. Por incrível que pareça, foi tudo feito por jovens com idades compreendidas entre os 14 e os 30 anos. Notou-se muito pouco apoio financeiro, apenas talento e bastante vontade de fazer as coisas acontecerem. Foi uma iniciativa de bairro em que se conseguiu perceber que há esperança de as coisas acontecerem, caso exista algum apoio. Acho que, como eles, existem muitos exemplos, que, mesmo com muitas dificuldades, continuam a trabalhar e a apostar na formação, porque já começam a perceber que devem aliar o dom à técnica.

E porquê a ideia de que a dança é deixada para trás?
Pessoalmente, vou dissuadindo as pessoas a tomarem uma postura diferente em relação à condição do bailarino. Para já, o bailarino não pode aparecer como simples suporte do cantor. O bailarino deve fazer acontecer as suas coisas, e não apenas aparecer atrelado a um cantor, de forma a ser remunerado da melhor maneira. O grande problema é que, quando um bailarino aparece por detrás de um cantor, as pessoas interpretam como secundário e de pouco valor artístico. E não é verdade. Porque o trabalho intelectual do bailarino/coreógrafo é muito intenso e, normalmente, se prolonga por semanas para produzir algo que se esgota em dez ou poucos mais minutos. A paridade é igual! E isso deve ser esclarecido. O que é verdade é que muitos bailarinos suportam porque não têm outra forma de subsistência e de exibição da sua arte. Eu não estou de acordo. Seria bom que a profissão de bailarino fosse de facto reconhecida.

A dança é ou não marginalizada?
Repare que, quando se vai tratar de determinados assuntos, dá a sensação de que a dança não existe. Às vezes, quando um dirigente recebe a classe dos artistas, raramente aparece um bailarino. Só por ai já serve de leitura sobre a posição da dança. Por exemplo, sabemos que hoje um país é bastante conhecido pela cultura e o desporto e pela explosão mundial da Kizomba Angola fica automaticamente reconhecida. Em termos de apoio, é verdade que quase não existem e muitas das vezes não são apoios financeiros, mas apenas institucionais.

Falando da Kizomba, já ostenta uma patente nacional?
A Kizomba nunca deixou de ser angolana e não deve haver dúvidas quanto a isso. O que é preciso é que se faça um aturado trabalho interno para servir de suporte bibliográfico que sustente o que é produto angolano. Nós, Movimento de Revitalização da Dança, e outros no exterior estamos preocupados com isso. Realizamos várias discussões com pessoas conhecedoras, no sentido de colocarmos as coisas no seu devido lugar. Aliás, ainda nos próximos dias, será um dos temas a abordar num ciclo de formação a nível da dança. Por exemplo, quase pouco se fundamenta que a Kizomba surge das nossas danças de salão e as pessoas pouco ou nada sabem sobre elas.

Vai ser tudo só sobre a Kizomba?
Vamos falar das danças folclóricas no seu geral e vamos particularizar alguns géneros de danças, nomeadamente, a Kizomba. Não vai ser uma oficina voltada à Kizomba. O objectivo é falar em danças angolanas.

Sabe de alguma intenção em se patentear alguma dança?
Já há uma iniciativa ministerial no sentido de se patentear o Semba. Mas tal passo é precedido de estudos para uma proposta concisa. Acho que todos nós, angolanos envolvidos no sector da dança, devemos estar engajados. Durante muito tempo, não tínhamos o hábito sequer de catalogar as nossas coisas. Ou seja, todos os dias, a nossa memória se vai, porque pouco se escreve. Há danças angolanas que foram levadas daqui para fora e hoje são patentes de outras regiões e, por não termos estudos que reivindiquem, não podemos defender. A nível de casa, este trabalho é que tem de ser feito. E quanto as que são mais recentes, como é o caso da Tchianda, merecem já um tratamento melhor. O que estamos a fazer com elas? Infelizmente, os poucos especialistas (nós) que temos ainda não fizeram trabalhos à dimensão do que é pretendido. Do que posso testemunhar, já houve gente que fez estudos a nível universitário sobre a vivência e dança do Kilandukilu. Há um interesse, mas não há incentivos.

As bolsas de criação seriam uma grande ajuda?
Se já tivéssemos as bolsas de criação, talvez a realidade fosse alterar, porque os estudiosos teriam certeza de que as investigações seriam publicadas.

Acha que é preciso um Movimento de Revitalização da Dança (MRD)?
O Movimento de Revitalização da Dança é uma organização que existe há pouco mais de um ano e vai fazendo aquilo que pode em função da realidade do país. É de todo sabido que o processo ainda é muito burocrático, para se transformar em instituição, tanto que ainda estamos na legalização. Ainda assim, devemos fazer algumas realizações. Temos outras acções para este ano, que, no momento certo, vamos dar a conhecer.

E o Movimento de Revitalização ...?
Sim, a dança precisava de um movimento de revitalização. Porque sentíamos que falar da dança era sempre em segundo ou terceiro plano. Queremos ser os mensageiros das nossas preocupações. Temos ideias muito concretas e isso se espelha na nossa reclamação por uma sala que dignifique as nossas realizações. É uma tristeza muito grande que, passados 43 anos desde a nossa Independência, ainda não termos sequer uma sala dessas.

O aparato obriga?
Naturalmente. Embora a classe busque sempre soluções, acaba-se por ser bastante onerosa. Enquanto artistas de outras disciplinas conseguem apresentar-se apenas um ou dois em palco, a dança e o teatro exigem um aparato que aqueles que produzem não têm condições de criar. Há, infelizmente, cada vez  menos apoios.

Da sua experiência a nível das províncias, como tem visto o eclodir da dança?
Muitos de nós não têm noção do que se faz nas províncias em termos de dança. Por exemplo, no Moxico, há o festival Luvale e não me recordo de uma vez a imprensa ter feito uma grande cobertura. Temos danças em Angola que foram transportadas por mineiros sul-africanos e que lá tem um nome e cá, no interior do país, chamamos “miting”. Danças seculares que até hoje são muito pouco conhecidas. Talvez com a implementação da bolsa de criação consigamos ter um grande acervo documental, espelhando a particularidade de cada região. Pouco se diz, mas, no movimento cultural angolano no exterior, em muitos casos, a dança tem sido o elemento mais forte e mais representativo. Sobretudo, quando entra um grupo de danças tradicionais angolana, a magia é imediata. Infelizmente, enquanto país, ainda não conseguimos potenciar isso.

Continua o choque entre a tradição e a modernidade?
O choque vai existir sempre, quanto mais agora que o mundo entra rapidamente pela nossa casa via imprensa e a juventude se acha no direito de escolher aquilo que acha melhor para si. É preciso um trabalho permanente de busca e realizações. Embora menos afortunados em termos de infra-estruturas, nos bairros quase 80 por cento dos jovens fazem danças angolanas e não estrangeiras. Eu estive à frente de um projecto e pude constatar isso. Quer dizer que eles existem, o que é preciso é fazê-los aparecer. Às vezes, nem precisamos de “fundos e mundos”, mas apenas um espaço, um palco e um som ... Nem isso temos. 

Sakaneno João de Deus, Prémio Nacional de Cultura e Artes deste ano, pede à classe mais união. É uma classe desavinda?

É preciso dizer que, um ano antes, o MRD havia homenageado o professor Sakaneno. Eu não diria que existe desunião; não é bem isso. Acho que o contexto actual do país vai gerando afastamentos, mesmo que estejamos todos juntos. É um falso problema que está na cabeça de algumas pessoas. A  dança não deve em nada às outras disciplinas artísticas, ela está ai, viva, basta andar pelos bairros. O resto deixem, porque a gente sabe fazer bem, para que a dança saia da situação em que se encontra. 

  “Os 35 anos do grupo Ballet Tradicional Kilandukilu”

O Ballet Tradicional Kilandukilu completa 35 anos de existência em Março. Como será a comemoração? 
Estamos a programar um projecto ambicioso para o “Show 35 Anos Kilandukilu”. Queremos fazer um espectáculo que dignifique o grupo, que normalmente tem um intervalo de dois a três anos, porque são muito onerosos e quando fazemos queremos fazê-lo bem. Desta vez, esperamos ter os apoios que precisamos, porque congregaremos as representações do Uíge, Portugal e Brasil. Estamos também a trabalhar para a publicação do nosso livro, que se pretende que seja didáctico. Sonhamos criar a escola Kilandukilu. No fundo, esperamos que todos os sonhos do Kilandukilu se concretizem. 

Em termos de actuação, o que se desenha de concreto?
Estamos a trabalhar já, em parcerias com outras instituições, para a produção de uma coreografia gigante, num festival que seja de três dias de espectáculo. Será cá em Luanda e albergará vários grupos de diferentes estilos de dança, desde as danças de carnaval às recreativas. Depois, faremos uma coreografia única, que pretendemos levar para o mundo com a marca “Angola”. A dança tem tudo para levar longe o nome do país.
Parece que o Kilandukilu anda um tanto quanto ausente. Há problemas internos?
Não há. Nós não temos aparecido muito na imprensa e em actividades, porque os convites escasseiam. Devo dizer também que há propostas desprestigiantes às quais não nos resta alternativa que não seja um seguro “não”. Acho que o artista deve ser respeitado e não podemos aceitar sujeições humilhantes. Não é uma questão comparativa, mas quando o artista é bailarino, as pessoas querem sempre rever o perfil, impondo valores que nem servem para sustentar a companhia. Temos marcado presença em convívios privados, para os quais somos chamados. Mas àqueles em que nos sentimos desvalorizados não vamos mesmo. Esta é a situação, porque vemos que se paga vinte vezes mais a um artista do que a uma companhia. Essa é uma das razões. Nós temos 35 anos e não os conseguimos de graça. Nós, com todas as dificuldades que temos, continuamos, mal ou bem, embora não apareçamos em muitos actos públicos. Vontade não nos falta, é mesmo a “maka” dos convites.

São 35 anos. O que falta?
Uma homenagem à altura do grupo, por tudo que já fez aqui e fora de Angola. Nós não somos os melhores, mas sempre honramos bem alto o país. Há vinte anos, quando o Kilandukilo tomou a liberdade de fixar-se em Portugal, fomos mal interpretados, inclusive saiu no jornal um título que dizia “Fuga fatal do Kilandukilu”. Hoje há um movimento muito grande lá fora do Semba e Kizomba e o Kilandukilu é um pioneiro nisso, por via do mestre Petchu. Naquela altura, as pessoas não entenderam e julgaram que estavam a fugir. O que havia era pretensões de jovens que queriam apenas projectar a cultura angolana e as suas carreiras profissionais. Para nós, é de grande mérito termos sido um dos pioneiros deste movimento.



 
 

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