A internacionalização da literatura angolana

Jomo Fortunato|
29 de Dezembro, 2014

Fotografia: Paulino Damião

Da edição de novos títulos bibliográficos, no domínio da poesia e da ficção narrativa, passando pelas traduções, antologias, e pela pertinência dos temas em debate nas sessões das “Makas à quarta-feira”, no âmbito das actividades culturais, o balanço editorial da União dos Escritores Angolanos (UEA), em 2014,  ficou marcado pela optimização das estratégias de internacionalização da literatura angolana.

De facto, as traduções e o lançamento de importantes antologias, muitas das quais em co-edições, no estrangeiro, foram dois momentos, entre outros não menores, que  marcaram o ano literário da UEA  sobre as traduções, Carmo Neto, secretário-geral da instituição, revelou o seguinte: “Está em curso um ambicioso projecto de traduções que passa pela versão em inglês, francês, alemão, italiano, incluindo a língua árabe, de títulos referenciais da literatura angolana, concretizando um propósito que visa, fundamentalmente, o diálogo intercultural, entre os países, pela via da internacionalização da literatura angolana”.
Importa referir que a UEA celebrou vários acordos de cooperação com Portugal, Israel, Egipto, Brasil e França que visam a divulgação e tradução de autores angolanos, e está concluída a obra, “Como se viver fosse assim: antologia do conto angolano”, em árabe, com textos seleccionados pela escritora Domingas de Almeida.
No âmbito da literatura infanto-juvenil a UEA verteu para inglês e hebraico, as obras: “As duas amigas”, de Cássia do Carmo, e “Jonito, Vovo Jujú e o arco-íris”, de Paula Russa. De referir ainda a co-edição,  entre a    UEA e a Présence Africaine, editora fundada por Alioune Diop, em 1947, dos “Contes et nouvelles d’Angola”, com tradução de Dominique Stoenesco e Iva Flores, que inclui vinte e três autores angolanos.

Actividades

No domínio das actividades culturais da UEA, que inclui a vertente das tradicionais “Makas à quarta-feira”, os destaques vão para o encontro com o cantor e compositor Mito Gaspar, com depoimento biográfico, testemunhos e avaliação do conjunto da obra, “Educar sem violência, a única saída para mundo sem guerras”, tema dissertado por José Luís Mundonça, “Encontro com Rosa Roque, coordenadora do Projecto “Avilupa Kuimbila”, “O hip-hop em Angola”, apresentado pelo rapper Kool Klever, e apresentação dos “Diários de prisão de Luandino Vieira, pela Professora Margarida Calafate Ribeiro, da Universidade de Coimbra. Ainda no âmbito das actividades culturais, incluimos o lançamento no espaço da UEA, dos livros “Gamal” e “Makala o menino do mercado”, de Hendrik Vaal Neto, e o debate à volta de temas jurídicos, Paula Godinho, Onomástica angolana, Iracema Dulley, Arquitectura, Ângela Mingas, Criminalidade, Paulo de Carvalho, Resolução de conflitos, Francisco José da Cruz, Poesia de Agostinho Neto, António Panguila, Leitores italianos, história de Angola e obra de Pepetela, Francesco Genovesi, Acordo ortográfico, por Oliveira Encoge, Paula Henrique e Filipe Zau. Por último, destacamos a conferência sobre a literatura angolana em Portugal, tema orientado por Margarida Reis, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Poesia

Ao longo da história da Literatura Angolana, a poesia tem sido o género mais prolífero, a confimar estão os títulos e importância dos autores publicados em 2014: “Amor no meio do teu mar”,  de António Panguila, “O lugar do nome”,  antologia poética do escritor  Cristóvão Neto, “Memórias de nós”, de Carlos Ferreira”, e “Rua da insónia”, de João Tala.  Incluimos, no domínio da poesia, a abordagem crítica de Akiz Neto do livro “A propósito da poesia de Jofre Neto”.
Resumindo, em António Panguila o amor, e suas ocorrências eróticas é o tema “glosado”, Cristóvão Neto revisita os momentos mais importantes da sua obra poética, enquanto que Carlos Ferreira valoriza os textos que suportaram melodias de canções, muitas das quais emblemáticas da  história, mais recente, da Música Popular Angolana.

Prosa

Dos cinquenta títulos editados em 2014 pela UEA o destaque vai para as seguintes  edições, no domínio da ficção narrativa: “As duas faces da esperança”, ensaio, e “Balada dos homens que sonham”, antologia de contos, de António Quino, “Contos além do tempo”, vários autores, lançado em Lisboa, “Marcas do passado que se fez presente”, Anderson Makengo”, e o “Curandeiro de Monte Piorro”, de Samuel Fontes Gonçalves, uma co-edição entre a UEA e a embaixada de Cabo-Verde em Angola. Nota positiva para a reedição do “Boletim da Sociedade Cultural de Angola”, uma recolha de Irene Guerra Marques, e de Carlos Ferreira, “O tocador de quissange e outros contos”, de Henrique Guerra, “ O mais velho menino dos pássaros”, de Arnaldo Santos, “Issunge”, de Albino Carlos, Prémio Nacional de Cultura e Artes, e “Noites de vigília”, de Boaventura Cardoso.

Teatro

No domínio do texto teatral, a UEA lançou, na sua sede, “A visita”, de  escritor, Fragata de Morais, no dia 29 de Outubro de 2014. Em “A visita” o autor conduz o leitor a uma saga amorosa, que envolve as personagens: Carla, uma senhora, viúva,  da classe média de 45 anos de idade, que dialoga, de forma mística, com o falecido marido, Tonecas. Dany Boy, também conhecido por Daniel Bengo, seu nome próprio,  o assaltante, com cerca de 35 anos de idade, “bem aparentado e bem falante, usa bigode, denota estudos e certo berço”. Janota, outra personagem do livro, é  filho de Carla, jovem com cerca de 25 anos. Surgem ainda  Lucinda, igulamente da classe média, conselheira e amiga de Carla, e o Sargento Bolingó, um polícia simpático e cumpridor da lei. O plano da história desdobra-se numa relação amorosa entre Carla e Dany Boy, viúva e assaltante, respectivamente, sob o olhar do viúvo, Tonecas, com a cumplicidade de Lucinda e do filho Tonecas. No fundo o livro acaba por ser uma pertinente reflexão sociológica, sobre os  costumes da tradição e os  valores, muitas vezes perniciosos, da modernidade.

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