Cultura

A personagem emblemática de “Kalunga” de Manuel Rui

Manuel Albano

“Kalunga” é o título do mais recente livro de Manuel Rui Monteiro, apresentado sexta-feira à noite, em cerimónia de lançamento e sessão de autógrafos realizada no Jango da União dos Escritores Angolanos (UEA), em Luanda.

Escritor Manuel Rui apresenta nova obra literária em Luanda
Fotografia: Dombele Bernardo |Edições Novembro

Ao preço de três mil kwanzas no mercado,  o livro “Kalunga”, uma obra recomendada para todos, procura trazer à reflexão questões como a antroponímia, ou seja, os nomes próprios de pessoas, prenomes ou apelidos de família, explicando a sua origem, evolução e variação em função do local, época e costumes.
Dentre outros assuntos, o romance destaca a figura emblemática do jovem guerreiro Tanu, negro e neto do soba Lukamba, que sabia várias línguas, desde as de Cabinda até ao kwanyama e mesmo o quimbundo dos pescadores do mar da Kianda.
Das mulheres que serviam pirão de milho com molho de bagre fumado com a kissangua de milho e entravam mar adentro para catarem de mistura com a areia, os zimbos, búzios cinzentos e mais valiosos para mercar e ainda não falava, mas percebia um pouco de português.
No romance, de acordo com o escritor Luís Kandjimbo, as técnicas narrativas de Manuel Rui, consolidam-se e dão vozes às personagens “sem precisar de recorrer às sinalizações gráficas sobre os discursos das personagens”.
Como exemplo é um extracto do diálogo entre o soba Lukamba, sentado no seu cadeirão, na varanda coberta de forma a evitar o calor e a chuva, pedindo o seu rabo de boi que começou a abanar, e chamou o seu neto Tanu: “sabes, tu herdaste a pemba do pai do teu avô que corre nas veias da nossa mulemba e te dá força...”
Na sequência, o soba acredita que o seu neto deve começar a dirigir a embala e preparar o corpo e espírito para ser guerreiro: “...é uma ordem dos nossos antepassados, mesmo os que não estão no cemitério da embala e morreram no mar ou foram mortos no Brasil quando tentaram a fuga da escravatura para a liberdade...”.
Durante a apresentação do livro, representantes dos três continentes que formam o triângulo do Atlântico Sul (África, Brasil e Portugal), falaram sobre a obra na perspectiva histórica sobre a escravatura. O livro descreve  o encontro brilhante do continente berço da humanidade com a “África” do Brasil, os encontros e desencontros.
Manuel Rui Monteiro, que procede, no próximo dia 12, ao lançamento da obra “Quem Me Dera Ser Onda” traduzida para mandarim, no Instituto Confúcio, na comuna do Camama, disse que o livro “Kalunga” é o cruzamento de várias culturas, que envolve os continentes africano, europeu e sul americano.
Com a chancela da Editora das Letras e coordenação editorial de Bruna Botelho, a primeira edição do romance tem uma tiragem de 5.130 exemplares, que estão à disposição do público.
O livro foi prefaciado pelo crítico literário Boaventura de Sousa Santos,  que afirmou ser uma obra histórica que envolve o fatal triângulo do Atlântico Sul (África, Brasil e Portugal).
Manuel  Rui nasceu no Huambo em 1941. Licenciou-se em Direito pela Universidade de Coimbra, Portugal, onde desenvolveu advocacia, e foi membro fundador do Centro de Estudos Jurídicos. É membro fundador e subscreveu a proclamação da União dos Escritores Angolanos (UEA), bem como da União Nacional dos Artistas e Compositores (UNAC) e da Sociedade de Autores Angolanos.

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