Cultura

A solenidade da voz e a poética do canto

Jomo Fortunato |

A história da Música Popular Angolana, no feminino,  sobretudo aquela que se estende ao longo do período colonial, está consubstanciada nas vozes paradigmáticas da Lourdes Van-Dúnem, Conceição Legot, Lilly Tchiumba, Dina Santos,  Garda e seu conjunto, Alba Clington, Celita Santos, Milá Melo, Tchinina, Sara Chaves, Ana Maria de Mascarenhas (compositora e pianista), Conchinha de Mascarenhas e Belita Palma. Citamos apenas as mulheres que deixaram um importante  legado patrimonial, a nível do conjunto da obra,  valorizado pela proeminência artística e magnitude estilística.

Belita Palma conseguiu transpor as barreiras do preconceito da mulher cantora
Fotografia: Arquivo familiar

A história da Música Popular Angolana, no feminino,  sobretudo aquela que se estende ao longo do período colonial, está consubstanciada nas vozes paradigmáticas da Lourdes Van-Dúnem, Conceição Legot, Lilly Tchiumba, Dina Santos,  Garda e seu conjunto, Alba Clington, Celita Santos, Milá Melo, Tchinina, Sara Chaves, Ana Maria de Mascarenhas (compositora e pianista), Conchinha de Mascarenhas e Belita Palma. Citamos apenas as mulheres que deixaram um importante  legado patrimonial, a nível do conjunto da obra,  valorizado pela proeminência artística e magnitude estilística.
Algumas cantoras, de origem e nacionalidade portuguesa, diziam sentir o pulsar íntimo da angolanidade rítmica, chegando a gravar temas de reconhecidos compositores angolanos, Sara Chaves foi um dos exemplos, uma intérprete que deixou registado, em disco, o tema Kurikuté, de António Pascoal Fortunato (Tonito).
Embora os preceitos conservadores da sociedade colonial reservassem à mulher uma mobilidade artística limitada, e um papel social circunscrito a regras rígidas, a expressão do canto feminino, em geral, teve o mérito de transpor as barreiras do preconceito e de ter ultrapassado o estoicismo moral, muito arraigado na época. A verdade é que a mentalidade dominante olhava de soslaio as mulheres que se exibiam em palco, sendo, por consequência,  aviltante e mal reputada, a profissão de cantora.
Filha de Domingos Benedito Palma, músico, falecido em 1 de Agosto de  1939, ligado a uma banda filarmónica de amantes da música, e de Rosa da Silva Guimarães Palma, Isabel Salomé Benedito de Palma Teixeira, Belita Palma, nasceu no dia 15 de Outubro de 1932, em Luanda, numa família de dez irmãos.
 Possuidora de uma das vozes que a crítica proveniente dos sectores musicais, considera uma das mais emblemáticas da história da Música Popular Angolana, Belita Palma frequentou,  de forma intensa, as tertúlias organizadas no bairro da “Viúva Leal”, na casa da avó materna, onde se juntavam, nas tardes de sábado, Liceu Vieira Dias, Nino Ndongo, e Gabriel Leitão. Sabe-se, hoje, que o convívio, reiterado, com  importantes figuras  da música e do nacionalismo angolano, exerceu uma  influência, decisiva,  no perfil artístico da cantora.
 
Belita Palma no Ngola Rimos
 
A prisão do Liceu Vieira Dias e Amadeu Amorim, do conjunto Ngola Ritmos, primeiro na Casa da Reclusão e depois no Campo de Tarrafal de Santiago, em Cabo Verde, que ocorre no período que vai de  1959 a 1961 e  a transferência de Euclides Fontes Pereira, em 1957, para o Moxico, em serviço nos Serviços Meteorológicos, enfraqueceram a dinâmica do conjunto Ngola Ritmos, tornando o grupo mais permeável à entrada de novos elementos. É assim que, num claro exercício de continuidade e resistência cultural, se juntam ao Ngola Ritmo as cantoras Lourdes Van-Dúnem, Conceição Legot e Belita Palma, vozes que, mais tarde, viriam a formar o Trio Feminino, grupo que alternava, muitas vezes, o intervalo das apresentações do Ngola Ritmos na Liga Nacional Africana.
Belita Palma entra para o Ngola Ritmos interpretando, para além de canções do Ngola Ritmos, dois temas da Música Popular Brasileira: “ A moringa está pesada/ mamã não posso com ela/ mamã não posso com ela... da brasileira Dircinha Baptista, uma canção que foi entregue a Belita Palma por Chico Machado, e o clássico “Carinhoso”, do brasileiro Pixinguinha e João de Barros: Meu coração, não sei porquê/Bate feliz quando te vê/ E os meus olhos ficam sorrindo/E pelas ruas vão te seguindo/Mas mesmo assim/ Foges de mim..., duas canções com as quais Belita Palma mantinha uma íntima relação de predilecção.
O Ngola Ritmos acabou por exercer uma forte influência no início da carreira de  Belita Palma, chegando a estar incluída, em 1965,  com Lourdes Van-Dúnem,  numa digressão do grupo a Portugal.
Com o fim do Ngola Ritmos e a dissolução do Trio Feminino, uma formação que teve vida efémera, Belita Palma reaproveita a qualidade da sua voz e nível de interpretação, e decide enveredar, no final dos anos 60, por uma carreira a solo. Nesta fase da sua carreira artística a cantora foi acompanhada pelo conjunto os Kiezos, tendo ficado na história o registo dos clássicos “Kungueno” e “Muxima uami”, com o África Show, fechando um ciclo que acabou por ser o mais sólido da sua carreira. 
 Compositora Rosita Palma
 
A cumplicidade artística com Rosita Palma, sua irmã, acabou por ser de suma importância na solidez da carreira da cantora. Belita Palma revelou-se, fundamentalmente,  uma intérprete das canções de Rosita Palma, compositora de um virtuosismo espontâneo, que transmitia, muitas vezes, por telefone, as canções que Belita Palma transfigurava com a sua voz afável.
Canções que revelam preocupações sociais, políticas e de aspectos relacionados com crenças tradicionais como:  Astronauta, Apollo 12, Filipa , Ó Hima (macaco), Kanjila (pássaro),   e Sá da Bandeira, são da autoria de Rosita Palma. Belita Palma interpretou ainda as canções “Caminho do Mato” e Undengue Uami, músicas de António Pascoal Fortunato (Tonito), a primeira sobre um poema de Agostinho Neto.
 
Belita Palma na canção política
 
Com as canções  “Manazinha”, “Nguxi”, “Fidel de Castro”, “11 de Novembro”, “Kilamba”  e “Marien Ngouabi”, igualmente da autoria de Rosita Palma, Belita Palma entra, com legitimidade, no universo da canção política, uma das fases mais criativas da Música Popular Angolana,  período que congregou várias vozes que cantaram a eclosão da liberdade, consequência da independência de Angola.
O período da canção política (1974-1976) marcou a resposta, revolucionária e artística, dos efeitos sociais da colonização portuguesa. Música “engagé”, de intervenção, revolucionária ou, simplesmente, canção política o certo é que, volvidos 35 anos, ficou na memória colectiva a marca de uma música romântica, nos seus motivos melódicos, e, verdadeiramente eficaz, nos seus propósitos textuais e políticos.
Pelo reconhecimento do mérito da sua obra, Belita Palma foi homenageada, a título póstumo, pela Rádio Nacional de Angola (RNA) durante a 66ª edição do programa Caldo do Poeira, em Novembro de 2007,  e o seu nome serviu, em Julho do mesmo ano,  de porta bandeira,  na quarta edição do Festival Nacional de Vozes Femininas, que teve como lema, “canto da mulher em tempo de paz”. Uma outra homenagem foi realizada, em 2009, e o seu nome foi relembrado, durante a gala  de outorga dos troféus do Prémio Nacional de Cultura e Artes.

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