Cultura

A versão dispensável de um clássico

Adriano de Melo

Reescrever um conto clássico é um trabalho que requer perícia e muita criatividade do realizador. O segredo em muitos casos reside no argumento, particularmente numa história repleta de acção. No cinema já tivemos muitos bons exemplos. Adaptações que ao saírem da literatura conseguiram se impor no mundo da sétima arte. Mas… esse não é o caso de “Robin Hood – A Origem”.

Fotografia: DR

Ainda em exibição na maioria das salas de cinema de Luanda, o novo trabalho do realizador Otto Bathurst cai na banalidade e deixa muito a desejar. Em parte talvez seja porque o desafio é muito pesado, afinal todos conhecem a história. É um conto que ultrapassou fronteiras e conseguiu, ao longo dos anos, obter admiradores em todo o mundo.
A ousadia de roubar aos ricos para dar aos pobres era algo que na época do romantismo ajudou a criar uma ideologia. Robin Hood (ou Robin dos Bosques como o conhecem os falantes da língua portuguesa) já teve até várias adaptações nos cinemas. No total já foram quatro filmes e muitos actores consagrados já deram vida ao herói. O último foi Russel Crowe, em 2010, num projecto ambicioso do cineasta Ridell Scott, que esperava obter a mesma receita de sucesso que Crowe conseguiu com “Gladiador”. O resultado foi um fiasco, nas bilheteiras e com o público.
Desta vez, Otto Bathurst tentou reescrever o conto a começar pelas cruzadas. No passado Ridel Scott o começou com o herói já na selva. Porém, apesar das mu-
danças todas, o argumento não teve o impacto forte  suficiente. Quem conhece a história e já viu os dois filmes anteriores do herói vai entender o grau de decepção. Claro que algumas das cenas de acção, com os seus efeitos especiais surpreendem, mas… além disso já não há nada. Faltou o encanto, ou quem sabe um “ladrão melhor”.
Outro erro de Otto Bathurst foi ter escolhido um actor como James Foxx para o papel secundário, o de Little John (João Pequeno na versão em língua portuguesa). O espectador acaba por ficar sem saber a quem “apoiar”, se ao protagonista (interpretado agora por Taron Egerton) ou o secundário (bem mais conhecido e popular). Muitos filmes acabam por se perder porque existem personagens secundárias capazes de ofuscar o principal e assim os fãs não sabem se “olham”, ou melhor “apoiam”, quem.
O romance do filme também foi um pouco “forçado”. No filme o actor conhece a jovem Marian. Logo de princípio os dois jovens se apaixonam. O amor tem uma pausa quando Robin é chamado para lutar nas cruzadas. Depois de anos, quatro para ser mais preciso, este regressa à casa, mas encontra tudo mudado. A mulher que amava estava casada com outro homem, porque pensava que ele tinha morrido. É no reencontro dos dois que o amor reacende novamente. Uau. Deve ter sido um grande amor. Melhor… deve ser porque se vivia em tempos de romantismo, porque nos dias de hoje seria mesmo “forçado”.
No princípio do filme temos um narrador. Este introduz o espectador ao que esperar deste novo conto. “Esta é a história de um ladrão. Só não é o que você conhece e… esta não é uma história infantil”, diz o narrador. O problema em procurar novos começos em clássicos é que estes têm de ser atraentes e muito empolgantes. “Robin Hood – A Origem” não é. Nem ao menos nostálgico é. Quando tiramos o “capuz”, o que encontramos é muito pouco. A produção tem como base a história do Robin Loxley, antes deste se tornar Robin Hood, o herói inglês, assim como contar o romance com Marian (Eve Hewson). Mas o que conseguimos ter é mais uma história de acção, boa para os aficionados, deste género claro, e sem nenhuma reflexão. Tudo é artificial demais no filme.

ALUSÕES

Moralidade

Acredito que a maior parte das pessoas conhece a frase: “faca de dois gumes”. A moralidade é isso. Esta dualidade ganha maior contorno agora, nestes tempos modernos, em que a diferença entre o bem e o mal está cada vez mais ténue. Roubar aos ricos para dar aos pobres é um acto de heroísmo? Claro que não. É mesmo roubo. Alguns podem justificar que depende da perspectiva. Porém é em momentos como este que devemos ter em conta esse conceito. Numa época em que no país a aposta está no resgate dos valores morais, seria bom começar a colocar também a barreira no que é moralmente correcto ou não.

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