Cultura

Abstracção e propostas figurativas na pintura do artista plástico Van

Jomo Fortunato

Os contornos estéticos da pintura de Van, de inspiração marcadamente endógena, celebram os traços da simbologia cultural angolana, alternando a opção figurativa com o devaneio do cromatismo abstracto, resultando num produto “angolanizado” e inequivocamente identitário, em que simples objectos,  aparentemente  não artísticos, se elevam à categoria de instâncias de incontornável validação estética.

Pintor reutiliza os processos clássicos de criação artística de forma inusitada e reciclada no modelo criativo de
Fotografia: Edições Novembro

Van obriga-nos a instaurar uma profunda reflexão sobre o passado cultural, no decorrer do nosso singelo processo de contemplação estética. O seu trabalho vai do desenho às artes manuais, projectando na tela a africanidade dos contornos do seu imaginário, sugerindo uma singular essência artística e fecunda solidez criativa
A exposição “Um percurso plástico no mundo contemporâneo”, realizada de 17 de Junho a 5 de Agosto de 2007, no Siexpo, Luanda, ajudou-nos a compreender os vários momentos diacrónicos que marcaram a trajectória de Van, numa mostra representativa da sua produção artística que cobriu o ano de 1977 a 2007. No catálogo desta exposição, que incluiu um importante texto autobiográfico, Van agradeceu todos os que o impulsionaram para o universo das artes plásticas: “ Gostava de lembrar e agradecer o grande estímulo familiar, sobretudo o que me foi prestado pelo meu finado pai, Kuaba Kuaxi, seu nome de guerra contra o colonialismo, de amigos e professores como Maria Alice, Calado e Landeiro, devido a certas habilidades que possuía, tanto a nível do desenho, como de outras artes manuais”.
Na senda da absorção das primeiras aprendizagens, foi surgindo o interesse de Van pelo conhecimento do que se produzia, no domínio das artes plásticas, visitando o Salão  de Exposiçõesdo Museu de História Natural, de 1977 a 1979, altura em que tomou contacto com a arte de Neves e Sousa, fase que considera do seu “ Encontro com as artes”, e que coincide com o surgimento da UNAP, União Nacional dos Artistas Plásticos. 
Logo após o 25 de Abril de 1974, Van participou na criação de pinturas murais, cartazes e panfletos, iniciando o ciclo criativo do “período revolucionário”, altura em que conviveu e aprendeu com grandes nomes da época tais como, José Rodrigues, Pombinho, Luandino Viera, Fernando Vinha e Teresa Gama. De 1980 a 1989 experimentou o período das “Observações e experiências”, sendo o intervalo que vai de 1990 a 1999, a fase de consolidação do seu estilo e de 2000 a 2007 a da “persistência”.

Avaliação
Van é modesto no modo como caracteriza e avalia a sua obra: “ Na pintura, preocupam-me as aproximações e cruzamentos com outras expressões estéticas e criativas como, por exemplo, as áreas da serralharia, artesanato, arquitectura, fotografia, literatura e escultura, sempre no interesse de produzir novas formas comunicativas no âmbito das artes visuais e plásticas “. Desde o desenho à pintura, passando pela escultura, gravura, serigrafia, fotografia, vídeo, instalação, e “Ready Made”, Van reutiliza os processos clássicos de criação artísticade forma inusitada e reciclada, instaurando, surpreendentemente, contextos de integração  de uma variedade de trabalhos manuais, no seu processo criativo de transfiguração plástica.
Filho de Domingos Van-Dúnem, Kuaba Kuaxi, e de Victória José Francisco, Francisco Domingos Van-Dúnem, Van, nasceu no dia 23 de Dezembro de 1959, no município de Icolo e Bengo, Musseque Ia, localidade situada a 44 quilómetros da cidade de Luanda.

Exposições
Artista plástico, promotor cultural, professor universitário, investigador e Mestre em educação artística, Van participou em várias exposições individuais e colectivas e tem obras em colecções particulares e instituições públicas, tanto em Angola como no estrangeiro. De 1984 a 2007 realizou exposições em Luanda, Portugal e Brasil, entre as quais destacamos as mais importantes: “Pinturas e gestos”, colagens, acrílicos óleos e gravuras, 1992, “Expo-verão”,  Caminha, Portugal ,1993, Pintura, em Setúbal, 1993, “Serigrafias”, Luanda, 1994, “Introversão versus extroversão”, 1995, “Acrílico óleos e gravuras”, Setúbal, 1996, participação individual na 23ª Bienal de São Paulo, 1996, “Matérias formas e texturas”, Luanda, 2004, “Expo-cidade de Luanda”, 2006, “Marcas do tempo”, Luanda, 2006, e “Um percurso plástico no mundo contemporâneo”, Luanda, 2007. Van venceu o “Prémio Mural Cidade de Luanda”,  1985, “Prémio de pintura do Banco de Fomento e Exterior”, 1990, Prémio de Pintura ENSA-ARTE-, 1994 e 1996, e Prémio Nacional de Cultura e Arte na Categoria de Artes Plásticas, em 2008, pela importância do conjunto da sua obra. “(Re) visitações telúricas, exposição multidisciplinar de artes plásticas”foi a última exposição de artes plásticas de Van com vinte cinco obras de arte. Metáforas, fábulas, provérbios, prosa e poesia, estiveram presentes nesta exposição, num trabalho que resultou de várias experiências com as formas, cores e texturas. A exposição revisitou o conceito segundo o qual “ na natureza nada se perde, tudo se transforma”, revelando a devota paixão do artista pela influência da arte popular, tradicional, rupestre, e das técnicas contemporâneas universais, socorrendo-se com bastante frequência da fauna, flora, reciclagem, reutilização dos materiais, da ficção, do quotidiano e no questionamento da relação do homem com o mundo animal e a natureza. De notar que, num gesto de claro agradecimento, Van homenageou, nesta exposição, o legado e memória dos seus mestres, Viteix, Henrique Abranches, Costa Andrade, Rui de Matos e Matondo Afonso. 

A curadoria da exposição de Van está a cargo de Dominick Tanner, curador-produtor britânico e Director-geral da ELA,  Espaço Luanda Arte, que vive e trabalha em Angola há mais de oito anos e durante esse tempo, produziu e desenvolveu uma  conjunto de projectos que visam enaltecer os artistas, fomentar a arte angolana, bem como valorizar as instituições que têm apoiado a criação artística.  A galeria “ELA” existe há pouco mais de um ano e situa-se no quarto andar do edifício da “De Beers”. O “ELA” não é somente um espaço comercial de vendas, está particularmente engajado e vocacionado em valorizar a pesquisa no domínio da cultura e das artes.

 

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