Cultura

Actores palhaços expandem alegria entre os mais necessitados

Francisco Pedro

Rafael de Moura é palhaço há 20 anos, nasceu no Rio Grande do Sul, Brasil. Inspirado no palhaço Pinguinho, da sua terra natal, uma das figuras de referência da arte de fazer rir.

Fotografia: Dr

Rafael de Moura é palhaço há 20 anos, nasceu no Rio Grande do Sul, Brasil. Inspirado no palhaço Pinguinho, da sua terra natal, uma das figuras de referência da arte de fazer rir.
Adoptou-o como nome artístico por ter sido uma pessoa que espalhava alegria aos habitantes da cidade. O  mundo homenageia Presidentes e jogadores de futebol, os palhaços devem ser, também, lembrados, advoga Rafael Moura.
Recordou a origem da palavra palhaço: “homem de palha”, de acordo com a etimologia - origem italiana - "paglia", que quer dizer palha, o material usado no revestimento de colchões. É o homem do campo, humilde, “eu vim também de uma família humilde. Perdi os pais muito cedo, com quatro anos de idade já tinha mãe adoptiva e padrasto”, disse o palhaço.
A mãe chegava em casa muito cansada, com o rosto triste, por que não podia dar o que os filhos pediam. Um dia, Rafael encontrou um fato que o seu padrasto deixou em casa, ele vestiu, cobriu-o todo, e começou a fazer rir a mãe pois ostentava, sempre, um semblante triste.
Passaram-se anos, e começou a fazer palhaçada na escola, na rua e por outros cantos da cidade onde vivia, no sul do Brasil.
Por meio do riso e sorriso de palhaço, Rafael começa a ganhar fama, e resulta na obtenção de uma bolsa de estudo. Daí, aos 14 anos de idade deixou a família, e foi viver numa outra cidade, “caminhei com um nariz de palhaço... até chegar a Angola, pela primeira vez em África”.
Entusiasmo é a palavra que lhe dá força para trabalhar. Para ele, entusiasmo significa estar possuído por Deus. "Uma pessoa entusiasmada tem poder", admitiu, tendo declarado ter aceite o desafio de vir a Angola, por que "aqui posso contribuir com a riqueza do afecto que caracteriza a arte do palhaço”. Mesmo os espectáculos de improviso são todos organizados, e trabalha sempre pensando no que o público lhe vai proporcionar: atenção, silêncio e, o melhor, o riso.
Rafael Moura é, também, actor e músico, fundador da Escola de Palhaços “Construindo Seu Clown”, facilitador na ONG Doutorzinhos e artista do Circo Teatro Girassol. Já recebeu diversos prémios pelas  actuações no Brasil. 

Dezoito dias em Angola
Quarenta actores, em duas turmas,  participaram, de 13 a 23 de Novembro, numa formação gratuita em Palhaçaria, ministrada por Rafael Moura, com ênfase na actuação como palhaço terapêutico em hospitais, instituições de longa permanência e outros locais de vulnerabilidade social. 
Eles aprenderam técnicas sobre corpo cómico, foco, triangulação, máscara, improviso e fundamentos de linguística e ética aplicados ao público-alvo. No final do curso, os formandos receberam ferramentas para a construção da figura de palhaço.
Promover o acesso à cultura e a capacitação do meio artístico foi uma das premissas da formação. Com foco no acesso à cultura e capacitação do meio artístico, o curso foi promovido pela Alliance Française de Luanda em colaboração com o Grupo Horizonte Njinga Mbande, com apoio especial da Air France.
Os melhores actores seleccionados vão trabalhar, com direito a salário, num projecto de visitas a hospitais e orfanatos,  que terá a duração de 12 meses. O compromisso consiste  em reproduzir sorriso para doentes e pessoas carentes, em hospitais, centros infantis, lares de acolhimento de crianças e adultos, e orfanatos da cidade de Luanda.
No espectáculo que apresentou, no auditório do Nzinga Mbande, considerou ter ocorrido uma "grande celebração" à vida, em que riso, silêncio e a simplicidade estiveram unificados (juntos).
Moldar os 40 formandos na arte de palhaçaria não foi difícil por que os actores, todos, demonstraram cede de aprender. Ao beberem as técnicas de palhaçaria ficaram embriagados. Depois de tantas guerras em Angola, Rafael advoga que o actor palhaço tem uma missão de devolver a infância dos adultos roubadas pelas guerras e presentear os nossos filhos de paz.

Função do palhaço
Fazer algo importante para o mundo nos dá felicidade. palhaço não é trabalho, mas sim uma missão. “Uma missão de levar alegria para as pessoas”.
Expressar a sociedade em que o palhaço vive através do riso, sorriso, gargalhada e crítica, denúncia e humor, que surgiu da necessidade do povo oprimido em protestar. Não se deve perder essa característica.
Actualmente, as pessoas compreendem a arte como entretenimento. O palhaço é que apresenta de forma cómica as tragédias humanas do seu tempo, trazendo um pouco de leveza no meio de todo esse caos.
O palhaço é lírico, inocente, ingénuo, angelical e frágil. Não interpreta, ele simplesmente é. Não é uma personagem, ele é o próprio actor expondo-se, mostrando a sua ingenuidade, na busca desse estado, o actor não busca construir uma personagem, mas sim encontrar essas energias próprias, tentando transformá-las em seu corpo, cada actor desenvolve esse estado pessoal, de palhaço, com características particulares e individuais.
Embora vinculado aos circos, o palhaço pode actuar também em espectáculos abertos, em teatro, em programas de televisão ou em qualquer outro ambiente. Em várias ocasiões é o personagem que tem a tarefa de entreter o público durante as apresentações, especialmente no circo. É geralmente vestido de um jeito engraçado, com trajes desproporcionados e multicoloridos, com aplicações de pinturas (maquiagens) especiais e acessórios característicos. Entretanto, há diversos tipos de palhaço, como o melancólico, romântico, bufão, tramp (mendigo), etc.

Preencher carências da vida
A carência de água, alimento, saúde, roupa, companheirismo, educação, tecto, luz e alegria, para que nos sintamos dignos de viver, confrontados com essas tantas anomalias e irregularidades, Noa Wete considerou importante a adesão dos 40 actores em seguir a formação de Palhaçaria, recorrendo à reflexão de Rafael Moura: fazer rir e sorrir.
Recordou que essa arte de palhaçaria já teve bons momentos no país, com a dupla Pipof e Cascadura, em exibições ao vivo, na Feira Popular de Luanda, junto do campo Catetão, no Bairro Popular. A dupla animava eventos infantis e não só, em outros recintos de Luanda, muitas vezes com transmissões em directo pela Televisão Pública de Angola (TPA). Em outras ocasiões, faziam “magia” - sessões - dirigidas para crianças em programas infantis de rádio e televisão (TPA).
Durante várias décadas, esta exaltação do exercício de artistas cómicos deixou-nos "métodos de trabalho" criativos, que serviram a alegria do miserável, ou pobre, como do rico ou ricaço.
Noa Wete, também actor, encenador e dramaturgo, reconhece o papel imprescindível de outros colegas angolanos que, antes e depois da Independência selaram os seus nomes na história das artes cénicas, cuja intervenção deve ser preservada e transmitida de geração em geração, entre os quais destacamos: Ziza, o declamador, Gaby Leitão, o humorista, Cantiflas - Mulato, que reinou no cenário cultural da Igreja de São Paulo. E, mais tarde, a dupla contagiante de prolongada carreira: Pipof e Cascadura, que  registaram décadas de glória.

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