Africanos devem escrever História dos países

Manuel Albano |
28 de Fevereiro, 2016

Fotografia: Jaimagens

Iva Cabral, filha de Amílcar Cabral, disse, na sexta-feira, em Luanda, que a publicação de livros sobre a História de África deve ser uma preocupação dos académicos africanos com o intuito de melhor relatarem a cultura dos seus respectivos países.

Historiadora de formação, Iva Cabral fez estas declarações durante a cerimónia de lançamento do livro “Cartas de Amílcar Cabral a Maria Helena-A outra face do homem”, que decorreu no Memorial António Agostinho Neto.
Iva Cabral incentivou os historiadores a publicarem mais livros sobre a cultura dos seus povos, no sentido de deixar um legado às novas gerações. Na sua óptica, o facto de o ensino estar muito especializado “permite-nos deixar aos mais novos mais conhecimento”, ao contrário de se preparar uma geração com muito pouco conhecimento sobre o seu passado.
Iva Cabral disse que os jovens devem ser incentivados a pesquisar, de maneira a terem referências sobre os seus líderes. Sobre o livro, apresentado por Irene Neto, disse que reflecte a concretização de um sonho, particularmente pelos laços de amizade e culturais entre os dois povos.
“A minha ideia foi publicar aquelas cartas que pudessem trazer alguma influência positiva à juventude, na tentativa de ajudar a recuperar valores que se estão a perder como o espírito de sacrifício, coragem e abnegação.”
Iva Cabral explicou que as cartas do pai dirigidas à sua mãe mostram como o amor, o companheirismo, podem ser factores importantes para a construção de sociedades mais humanistas. Disse que as cartas de Amílcar Cabral à sua mulher Maria Helena influenciaram-na a deixar Portugal e a recomeçar a vida em África. “Foi uma época difícil, num ambiente de incertezas, que tornam esses escritos uma referência para juventude”.

Prestigiar os autores

Irene Neto, ao apresentar a obra, considerou-a um exercício que permite deixar um legado às novas gerações e prestigiar a figura dos nacionalistas que lutaram pela Independência dos seus povos. As cartas, explicou, despertam o interesse pelo respeito e amor existentes entre o casal e o contexto da época. “O amor resumia-se a pequenos detalhes e o primeiro impacto positivo que tive foi ver a forma cuidada e a beleza da caligrafia do autor.”
Irene Neto aproveitou para informar que a Fundação António Agostinho Neto, à semelhança das Cartas de Amílcar Cabral, vai publicar também em livro “as cartas do Primeiro Presidente de Angola dirigidas à sua esposa Maria Eugénia Neto”.

Conteúdo da obra

As cartas foram enviadas dos países onde Amílcar Cabral trabalhou como engenheiro agrónomo, como Cabo Verde, Angola, Portugal e Guiné Bissau.
A obra contém 53 cartas, escritas entre 1946 e 1960, fotografias, poemas, notas e textos do ex-presidente cabo-verdiano Pedro Pires, da professora universitária Inocência Mata, e do sociólogo Carlos Lopes.
Além de Iva Cabral, o livro teve a colaboração de Filinto Elísio e Márcia Souto, como co-organizadores, uma edição da Rosa de Porcelana. Segundo a autora, o livro aborda a historiografia de um jovem que se encontrava em Portugal numa época conservadora e racista, vivendo um ambiente de impossibilidades de se amar, resistindo aos desafios do tempo.
Iva Cabral afirmou que é seu objectivo promover e preservar os feitos de outros nacionalistas africanos, particularmente dos países de língua portuguesa.
Em Luanda, foram vendidos em sessão de autógrafos 300 exemplares, estando alguns disponíveis na Fundação António Agostinho Neto. A publicação resulta de uma parceria entre a Fundação Amílcar Cabral e a Calouste Gulbenkian. O lançamento em Lisboa está agendado para 18 de Março, na sede da Fundação Calouste Gulbenkian, enquanto em Bissau está marcado para o terceiro trimestre.

Cerimónia

Prestigiaram o acto de lançamento o vice-presidente do MPLA, Roberto de Almeida, o Secretário de Estado da Cultura, Cornélio Caley, diplomatas e membros da comunidade cabo-verdiana residentes em Luanda. 
Houve declamação de poesia e leitura de algumas das cartas, pela escritora Amélia da Lomba. O trovador Marcos Vicente apresentou dois temas.

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