Cultura

Agostinho Neto: A “marcha” para o exterior

Agostinho Neto /*

É voz corrente dos observadores que os elementos constitutivos da classe nativa têm a tendência para se isolarem uns dos outros, ou por meio de grossa camada de indiferença ou por espinhoso egoísmo, quando se trata de defender os interesses daquela.

Fotografia: DR

O desamor à causa é principalmente notado em aqueles, com uma certa cultura ou uma boa dose de inteligência geralmente reconhecida, são capazes de ajudar os empreendimentos sociais, mas raramente se congregam aos restantes e dão apoio às suas iniciativas. Para a classe nativa são inúteis, fúteis e só aparentemente, por questão de complacência ou patriotismo mentiroso, dão o seu fugidio auxílio às coisas nativas.

Tal indiferença de uns para outros indivíduos com interesses comuns, não é muito compreensível, uma vez que estes são os únicos motivos de aliança entre indivíduos, classes ou nações. É paradoxal a desunião entre nós, nativos, que, para não citar outros aspectos do interesse comum, têm que lutar coesos pela sua economia e pelo aumento do seu nível cultural.

A fraca compreensão da necessidade de trabalho em comum tem sido também atribuída a “esta” geração e atirado às costas da mulher africana.

A geração moderna, porém, abraçou apenas um movimento geral da humanidade para o “diferente”. O mundo está sofrendo intensamente as consequências duma evolução social. São a velocidade fatigante, a técnica que atrai os riscos procurando prolongar a vida, que dão uma ânsia de viver extenuante e transformam a vida em despreocupação, ou melhor: inquietação geral lançada sobre os ombros, por desventura bastante estreitos, do rapaz de bigode, cabeleira abundante e casaco descendente, dizendo-se que ele prejudica a classe.

Porém, em todo o mundo, os homens andam preocupados com esta geração – standard que se está afastando do viver clássico e cuja plástica de linha recta pretende fazer palpitar os corações em todas as latitudes. Olha-se com certa pena para esse produto ersatz a quem as metafísicas amedrontam e as causas ocultas atemorizam.

Não é só aqui que esta geração é inobjectiva, aérea, é-o em todas as partes do mundo. E a desunião entre os nativos não é posterior à fabricação em série do rapaz moderno.

A mulher africana moderna assimilando a inobjectividade da vida, dissemelhando-se da avozinha pacatamente crocheteante, adoptando a despreocupação, o bâton, a sola de cortiça e a saia ascendente; deixou-se apenas arrastar pelo movimento geral que transformou o homem, que (digamo-lo de passagem) é difícil ser-se rebelde!

A maior parte das acusações que se fazem à mulher africana são um reflexo de uma psicologia distorcida de que adiante falaremos.

--------

Os nativos são educados como se tivessem nascido e residissem na Europa. Antes de atingirem a idade em que são capazes de pensar sem esteio, não conhecem Angola. Olham a sua terra de fora para dentro e não ao invés, como seria óbvio. Estudam na escola, minuciosamente a História e Geografia de Portugal, enquanto que as da Colónia apenas as folheiam em sinopses ou estudam muito levemente. Ingenuamente, suspiram pelas regiões temperadas do norte, por onde lhes arda o coração. Não compreendem esta gente que aqui habita, os seus costumes e idiossincrasia. Não têm tradições. Não têm orgulho da sua terra porque nela nada encontram de que se orgulhar; porque não a conhecem. Não têm literatura, têm a alheia. Não têm arte sua. Não têm espírito.

Não adoptam uma cultura; adaptam-se a uma cultura.

Os indivíduos assim formados têm a cabeça sobre vértebras nativas, mas o seu conteúdo escora-se em vértebras estranhas, de modo que as ideias, as expirações do espírito são estranhas à terra. Daí o olhar-se esta, a sua gente e hábitos, o mundo que os rodeia, como estranhos a si – de fora.

É como se um habitante da Terra teimasse em imaginar-se alcandorado na Lua e julgasse que via os seus semelhantes de tal distância.

Produz-se no nativo uma distorção na sua personalidade que se reflecte na vida social, desequilibrando-a.

Lá fora há o hábito de depreciar quanto é nativo; e os moços nativos cujos espíritos derivaram para o exterior e em quem está atinente um quantum de vaidade (como em qualquer ser humano) têm vergonha em considerar-se incluídos naquela esfera depreciada e não somente não a auxiliam como procuram desprezar as iniciativas de carácter puramente nativo porquanto o seu cérebro afina por diapasão estranho; porque foi psicologicamente distorcido pelo eurotopismo.

Cada um, é claro, tem consciência do prejuízo que causa furtando-se à luta comum, mas procura convencer-se de que a identificação com o longínquo é um mal… necessário!

------

A minha pouca experiência impediria que a voz chegasse ao céu se eu desse conselhos. Acho porém, que a mèzinha apropriada para anular os efeitos perniciosos bastante do eurotropismo, seria começar por “descobrir” Angola aos novos, mostrá-la por meio de uma propaganda bem dirigida, para que eles, conhecendo a sua terra, os homens que a habitam, as suas possibilidades e necessidades, saibam o que é necessário fazer-se, para depois querer.

*In O Farolim, 1946. Agostinho Neto tinha então 24 anos

Tempo

Multimédia