Cultura

Agostinho Neto, escritor e intelectual orgânico

Luís Kandjimbo |*

Em Fevereiro de 1976, realizou-se na cidade de Luanda a conferência extraordinária da Organização de Solidariedade dos Povos Afro-Asiáticos (OSPAA) que mantinha uma relação orgânica com a Associação de Escritores Afro-Asiáticos.

Fotografia: DR

A Associação de Escritores Afro-Asiáticos era uma organização transnacional de escritores que assumiu formalmente tal denominação em 1967, na cidade de Beirute. Nessa altura, o seu Bureau Permanente, com sede na capital do Líbano, era integrado por escritores africanos de alguns países já independentes e outros cujos países ainda não tinham alcançado a independência. É o caso de Mário Pinto de Andrade que representava os escritores das colónias portuguesas.

Três anos após a sua constituição, a União dos Escritores Angolanos organizou a VI Conferência dos Escritores Afro-Asiáticos que teve lugar na cidade de Luanda, de 27 de Junho a 1 de Julho de 1979. O poeta angolano Agostinho Neto, laureado com o Prémio Lótus em 1970, era o Presidente da Assembleia Geral da União dos Escritores Angolanos, Presidente da recentemente proclamada República Popular de Angola, independente desde 1975 e Presidente do MPLA-Partido do Trabalho, transformado em partido único marxista-leninista, no congresso extradordinário realizado em Dezembro de 1977.

Quando na sua qualidade de anfitrião, Agostinho Neto proferiu o discurso de encerramento da VI Conferência dos Escritores Afro-Asiáticos, evidenciava uma nova perspectiva relativamente a algumas questões culturais, literárias e políticas.

Em Janeiro de 1979, na tomada de posse dos corpos gerentes da União dos Escritores Angolanos, o político e poeta Agostinho Neto defendia a cultura do debate de ideias. E sustentava-o nos seguintes termos: “Penso que é necessário o mais alargado possível debate de ideias, o mais amplo possível movimento de investigação, dinamização e apresentação pública de todas as formas culturais existentes no País, sem quaisquer preconceitos de carácter artístico ou linguístico”. Por outro lado, nesse discurso de tomada de posse proferido seis meses antes da realização da VI Conferência dos Escritores Afro-Asiáticos, afirmava: “Se os estimados camaradas e colegas me permitem, direi que não podemos cair em esquemas ou estereótipos como os teóricos do realismo socialista. A par da nossa capacidade nacionalista, teremos de intervir de modo a inscrever-nos no mundo, à medida que formos assumindo a realidade nacional.”

Em Julho de 1979, Agostinho Neto retoma o pensamento sobre o mais alargado possível debate de ideias, quando falava aos escritores afro-asiáticos reunidos em Luanda: “Persistir na ideia do debate é sempre acertado, porquanto os homens têm necessidade de se exprimir, para não assumir a mentalidade burocrática que rapidamente se torna caduca e não é capaz de acompanhar o desenvolvimento da sociedade humana.”

Portanto, Agostinho Neto manifestava a necessidade de romper com os dogmas do realismo socialista e, ao mesmo tempo, sublinhava a importância do debate argumentativo, de ideias e de opiniões.

Pode dizer-se que Agostinho Neto, atento aos acontecimentos e à realidade de Angola, avaliava os efeitos deletérios das influências externas. Por conseguinte, distanciava-se das querelas teóricas e ideológicas que opunham a China e a União Soviética. Tal posição não era casual. Parece traduzir uma recusa intencional de seguir as doutrinas ideológicas, teorias estéticas e literárias soviéticas e chinesas. É que, na sua qualidade de líder do MPLA, Agostinho Neto gozava de prestígio nos mais altos círculos do Partido Comunista da União Soviética. Nas décadas de 60 e 70 do século XX, com frequência visitava Moscovo como convidado oficial das autoridades soviéticas em diversas ocasiões: em 1964, para obtenção de apoio militar; em 1966, participando do XXIII Congresso do Partido Comunista da União Soviética; em 1967, nas celebrações do quinquagésimo aniversário da Revolução Bolchevique; em 1970, nas comemorações do centenário de Lénine; em 1971, no XXIV Congresso do Partido Comunista da União Soviética. Além disso, era membro da presidência do Conselho Mundial da Paz, organização internacional que se encontrava na esfera de influência da União Soviética.

A apologia do debate, – “o mais alargado possível debate de ideias” – é uma eloquente expressão do modo como Agostinho Neto interiorizava as tarefas do intelectual, num país que acabava de alcançar a independência política. À formulação desse pensamento subjaz um desígnio que não pode ser negligenciado, no contexto da época. Além disso, ele entendia que “o escritor se deve situar na sua época e exercer a sua função de formador de consciência, que seja agente activo de um aperfeiçoamento da humanidade”.

Ao reconhecer a necessidade vital do debate de ideias, Agostinho Neto estava em certa medida a assumir também uma perspectiva crítica perante a violência política que tinha abalado e ainda abalava o país, nesses primeiros anos de independência, numa vaga de prisões e mortes causadas por intolerância ideológica, à semelhança do que acontecera na União Soviética, na China e em outros países do chamado bloco socialista.

Ora, em 1979, a União dos Escritores Angolanos organizava a VI Conferência dos Escritores Afro-Asiáticos devido à sua filiação na Associação de Escritores Afro-Asiáticos. Mas a relação que os escritores angolanos mantinham com esta organização de escritores, formada à luz do espírito de Bandung, remontava ao ano seminal de 1958, quando Mário Pinto de Andrade e Viriato da Cruz participaram na Conferência de Escritores Afro-Asiáticos, realizada na cidade de Tashkent.

Após a VI Conferência dos Escritores Afro-Asiáticos de Julho de 1979, descortinava-se um horizonte de incertezas acerca do que poderia ter sido a concretização desse ideal defendido por Agostinho Neto, a escassos meses da morte que o colheria em Setembro desse ano.

Numa perspectiva de periodização, surgia a década de 80 do século XX e desenvolvia-se uma geração literária e movimentos literários que assinalam a época. Foi sob a batuta desse “motto” – “é necessário o mais alargado possível debate de ideias, o mais amplo possível movimento de investigação, dinamização e apresentação pública de todas as formas culturais existentes no País, sem quaisquer preconceitos de carácter artístico ou linguístico” – que a Brigada Jovem de Literatura de Luanda foi constituída (Junho, 1980), seguindo-se-lhe a Brigada Jovem de Literatura da Huíla (Setembro, 1980), de que o autor destas linhas foi co-fundador, e a Brigada Jovem de Literatura do Huambo (Novembro, 1983).

*Ensaísta e professor universitário

Revista “Lótus”

A Associação dos Escritores Afro-Asiáticos publicava, desde 1968, uma revista literária trimestral trilingue “The Call” (O Apelo). Até ao fim da década de 70, a edição em árabe era impressa no Cairo. Já as edições em inglês e francês eram impressas na República Democrática Alemã. Após a cisão registada na Associação dos Escritores Afro-Asiáticos, por força do chamado diferendo sino-soviético de 1966 de que resultaram dois secretariados da Associação dos Escritores Afro-Asiáticos, um em Pequim e outro no Cairo, a revista editada no Cairo passou a designar-se “Lótus: Afro-Asian Writings”, (Lótus: Textos Afro-asiáticos). Na China, era impresso e publicado o jornal “The Call”, tal como tinha sido decidido na Reunião Extraordinário de Pequim em 1966.

A revista “Lótus” teve uma vida útil de duas décadas, até 1991. O escritor paquistanês Faiz Ahmad Faiz foi o seu editor-chefe durante dez anos. A redacção funcionou inicialmente em Beirute e depois no Cairo. Com o fim da guerra israelo-árabe e dos acordos de Camp David a revista teve as suas redacções em Tunis e em Moscovo. Deixou de ser impressa após a Perestroika na antiga União Soviética.

A revista “Lótus”, que contou com a colaboração de Agostinho Neto, era distribuída pelas associações de escritores e circulava nos Estados-membros da OSPAA. Proporcionava um conhecimento da diversidade das literaturas nos dois continentes, através da obra de autores que poderiam constituir o cânone literário afro-asiático. Em Angola, a revista “Lótus” era vendida em diversas livrarias.

Prémio
O Prémio “Lótus”, conhecido como “Prémio Lótus Internacional de Literatura” ou “Prémio Lótus de Literatura Afro-Asiática”, foi aprovado na quarta sessão do Bureau Permanente da Associação de Escritores Afro-Asiáticos, realizada no Cairo, em 1968, tendo sido atribuído pela primeira vez no ano seguinte a Alex La Guma (África do Sul), Mahmoud Darwish (Palestina) e To Hoai (Vietnam). Distinguia os escritores Afro-Asiáticos em três géneros literários, poesia, teatro e prosa narrativa, de acordo com os seguintes critérios: a) alto valor literário e artístico; b) representação das realidades objectivas da sua época; c) atitude militante contra qualquer forma de discriminação nacional ou racial e contra a desigualdade social; d) denúncia de qualquer agressão ou infiltração imperialista; e) expressão das aspirações do povo por uma vida melhor.

Portanto, as literaturas afro-asiáticas adquiriam assim dois instrumentos de legitimação, na senda do espírito da Conferência de Bandung de 1955.

Laureados
1969: Alex La Guma (África do Sul), Mahmoud Darwish (Palestina), To Hoai (Vietnam)
1970: Agostinho Neto (Angola), Zulfia (Uzbekistão), Harivansh Rai Bachchan (Índia)
1971: Sonomyn Udval (Mongólia), Sembéne Ousmane (Senegal), Taha Hussein (Egipto)
1972: Hiroshi Noma (Japão), Mikhail Naimy (Líbano), Marcelino dos Santos (Moçambique)
1973: Kateb Yacine (Argel), Ng?g? wa Thiong’o (Quénia), Thu Bon (Vietnam)
1974: Aziz Nesin (Turquia), Yusuf al-Sibai (Egipto), Anatoly Sofronov (Rússia), Kamal Nasser (Palestina), Ghassan Kanafani (Palestina)
1975: Chinua Achebe (Nigéria), Faiz Ahmad Faiz (Paquistão), Muhammad Mahdi al-Jawahiri (Iraque), Kim Chi-ha (Coreia do Sul)
1976: Subhas Mukherjee (Índia), Tawfiq al-Hakim (Egipto), Mikhail Sholokhov (Rússia)
1977–78: Meja Mwangi (Quénia), Nguyen Ngoc (Vietnam), Yoshie Hotta (Japão)
Kamil Yashen (Uzbekistão), Abu Salma (Palestina), Sami al-Droubi (Síria)
1979–80: Muin Bseisu (Palestina), António Jacinto (Angola), Bhisham Sahni (Índia)
Husayn Muruwwa (Líbano), Gunasena Vithana (Shri Lanka), Atukwei Okai (Ghana), Choizhilyn Chimid (Mongólia)
1981–82: Georgii Markov (Rússia), Assefa Gebremiriam (Etiópia), Sulaiman al-Issa (Síria), Ataol Behramo?lu (Turquia)
1983: Sarvar Azimov (Uzbek SSR), Nguyen Dinh Thi (Vietnam), José Craveirinha (Moçambique), Kaifi Azmi (Índia), Mustapha Fersi (Tunis)
1984: Sulaiman Layeq (Afeganistão), Jeane-Fernand Brierre (Haiti-Senegal), Omar Azraj (Argel), H. Karunatilake (Sri Lanka)
1985: Abdulaziz al-Maqaleh (Iêmen), Rasul Gamzatov (Rússia), Chon Se Bong (Coreia do Norte)
1986: Tahsin Saraç (Turquia)
1987: Makoto Oda (Japão)
1988: Chinghiz Aitmatov (Kirgiz SSR)

 

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