Cultura

Amélia Dalomba encerra ciclo de tertúlias literárias

Jomo Fortunato

A tertúlia “Textualidades, conversa com leitores”, projecto literário do Memorial Dr. António Agostinho Neto, investe na valorização da produção literária nacional, através do contacto directo entre escritores e leitores, constituindo um importante contributo para o conhecimento da dimensão estética e histórica das várias gerações da literatura angolana.

A poesia foi uma importante ferramenta de contestação contra o regime colonial
Fotografia: Dombele Bernardo | Ediçõe Novembro

O poeta Bendinho Freitas inaugurou o projecto no dia 28 de Fevereiro do corrente ano, e distinguiu-se pela sua eloquente oratória e rigor metodológico na apresentação da sua obra, que teve como mote o seu livro de estreia, “A pitoresca etnia das palavras”, 2016. O debate, largamente participado, decorreu à volta do seu processo criativo e da pertinência das suas propostas temáticas.
Na sequência, seguiu-se o poeta e contista, João tala, no dia 13 de Abril, um autor que mudou o panorama literário angolano com a publicação de “A forma dos desejos”,1997,  livro que inaugurou uma forma inusitada de construção poética, em que a memória da palavra, mesmo fora do verso, potencia múltiplos universos de significação, estimulando infinitamente o imaginário e as experiências íntimas do leitor.
O convite para o “Textualidades, conversa com leitores”, estendeu-se ao poeta, Lopito Feijóo, a 27 de Abril, nome prestigiado da geração de oitenta, autor que “tem assumido a ruptura com os cânones semânticos e estéticos tradicionais, propondo uma estética assente no experimentalismo visual e linguagem dissonante de forte dimensão metafórica”.
O projecto “Textualidades, conversa com leitores” pretende motivar a aparição de novos actores no processo de comunicação literária, criando um espaço de tertúlia, onde os autores desmistificam a sua imagem perante os que querem saber mais sobre o percurso literário, conteúdo das obras e processo criativo dos escritores, na sua relação com os leitores reais ou virtuais.
De natureza inclusiva, a tertúlia, “Textualidades, conversa com leitores”,  é uma singular oportunidade para empreendermos uma reflexão especulativa sobre a natureza e os mecanismos de construção textual da poesia, valorizando as diversas vozes da poética angolana, que têm absorvido, ao logo da sua gloriosa história, múltiplas marcas, caminhadas e peregrinações, onde os silêncios no passado gritaram de mágoa, e, hoje, os desesperos ressuscitam de esperança, no processo heróico e irreversível da construção da “Nova Angola”.

Percurso

Filha de Mateus da Lomba e de Antónia Gracinda da Silva Barros, Maria Amélia Gomes Barros da Lomba do Amaral, Tichinha, nasceu no dia 23 de Novembro de 1961, em Cabinda. Poetisa e jornalista angolana, formou-se em Psicologia em Moscovo e trabalhou como jornalista na Emissora Provincial de Cabinda, RNA, Rádio Nacional de Angola e nos jornais “A Célula” e  “Jornal de Angola”, em Luanda. Frequentou diversos seminários de Jornalismo, Administração e Gestão de Empresas e Formação Política.Foi secretária da Missão Internacionalista Angolana em São Tomé e Príncipe. Membro da UEA, União dos Escritores Angolanos, onde já ocupou diversos cargos directivos, foi galardoada com a Ordem do Vulcão, Medalha de Mérito de 1º Grau da República de Cabo Verde, em 2005.

Crítica
A investigadora e professora universitária, Ana Lúcia Sá, escreveu o seguinte sobre a poesia de Amélia Dalomba,  “Numa poesia em que, a nível formal, se destaca a estética minimalista, as palavras jogam sedutoramente connosco, mostram-se e escondem-se, convidando-nos a tantas releituras quanto as necessárias para tornarmos também nossa a mensagem do eu lírico. (…) A reflexão sobre o estado da humanidade realiza-se pela palavra poética: substitui-se a palavra imediata e evidente pela palavra dissimulada e metafórica. Recorre-se à arte pictórica como motivo de eternização de uma poética de Madrid sangrenta, evocam-se realidades já representadas para revelar novos males, ou antes, novas actualizações de velhos males, como a fome, a morte, a ira, as situações de injustiça a nível mundial, a incompreensão, o abatimento, a desigualdade abissal de riqueza entre os diversos mundos que constituem, ou que deveriam constituir… a humanidade.”
História
A poesia angolana, importante ferramenta de contestação contra o regime colonial, com a obra de Agostinho Neto, viveu ao longo da sua formação, um período naturalista, romântico e contestatário, e tem evocado, mais recentemente, o lirismo e a liberdade subjectiva dos seus poetas mais jovens, instaurando a construção livre e a sucessiva desconstrução de mundos possíveis.    O projecto “Textualidades, conversa com leitores”  consideraque a literatura está mais viva e não acredita no fim da poesia, tal como advogam alguns profetas da “necrologia do verso”, pois consideram-na cada vez mais  actuante, num mundo vertiginosamente globalizado e diverso. 

Publicações
Amélia Dalomba publicou, “Ânsia”, poesia, 1995, UEA, “Sacrossanto refúgio”, 1996, Edipress, “Espigas do Sahel”, 2004, Kilomlombe, “Noites ditas à chuva”, 2005, UEA , “Sinal de mãe nas estrelas”, 2007, Zian , “Aos teus pés quanto baloiça o vento”, 2008, Zian Editora, “Cacimbo 2000”, editora Patrick Houdin-Alliance Française de Luanda, “Nsinga – O Mar no Signo do Laço”,  2012, Mayamba, “Uma mulher ao relento”, 2011, Nandyala Editora,  e o CD “Verso Prece e Canto”, 2008, editora NGola Música.  Amélia Dalomba tem o seu nome incluído nas seguintes antologias, “Antologia da Poesia Feminina dos PALOP”, 1998, org. Xosé Lois Garcia, “Antologia do mar na poesia africana de língua portuguesa do século xx Angola”, 2000, org. Cármen Lúcia Tindó, “O amor tem asas de ouro”, 2006, UEA, “Antologia da Moderna Poesia Angolana”,  2006, UEA, org. Botelho de Vasconcelos, e “Meu céu, céu de todos, céu de cada um”, 2006, Editora Zian, org. Renan Medeiros, e a mais recente, “Antologia, Amélia Dalomba”, 2018, que reúne a sua obra completa.

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