Cultura

Anabela Aya em concerto no Centro Cultural Português

Jomo Fortunato |

A expressividade e ousadia vocal em “Kuameleli” revelam um exercício singular que ultrapassa os limites da nossa circunscrição discográfica e estão próximas do legado histórico do jazz norte-americano no feminino.

Anabela Aya teve formação vocal na Igreja Metodista Independente onde a mãe é professora
Fotografia: Contreiras Pipa | Edições Novembro

Vencedora da edição, 2017, do Festival da Canção de Luanda da LAC, Luanda Antena Comercial, Anabela Aya revelou o seguinte sobre a sua relação com a música, “Canto aquilo de que gosto e me toca do fundo da minha alma! Acho-me versátil e consigo interpretar vários estilos porque encaro a arte como um processo de várias aprendizagens e temos que experimentar tudo e avaliar os resultados”.
Voz aclamada pela crítica mais exigente do gospel e do afro-jazz angolano, Anabela Aya tem trabalhado com esforço, modéstia e dedicação, atributos que, felizmente, têm orientado a sua jovem carreira. Em palco, faz-nos lembrar, Dinah Washington, Sarah Lois Vaughan,  Billie Holiday e, fundamentalmente, Ella Fitzgerald. Por esta razão, estamos certos que surgiu uma cantora cuja expressividade e ousadia estão ultrapassar, de forma vertiginosa, os limites da nossa circunscrição doméstica, constituindo uma voz com ingredientes para se impor fora das nossas fronteiras.
Importa referir que o contexto musical angolano dos últimos vinte anos, tem sido abalado, positivamente, pelo surgimento de novas vozes e propostas musicais que, embora estejam fora do sucesso comercial da música de consumo imediato, representam um importante segmento que aposta nos benefícios artísticos da qualidade, pela renovação estética de clássicos do cancioneiro tradicional e de temas referenciais da história da Música Popular Angolana.
Dodó Miranda, uma das referências mais importantes do gospel angolano, e companheiro da música de Anabela Aya, fez a seguinte apreciação da cantora: “Não houve alteração substancial na forma de interpretação de Anabela Aya, comparada aos tempos em que a conheci , em  2005,  na Igreja Metodista Independente, Caridade. Digo, sem receio de errar, que estamos perante uma grande intérprete, que tem demonstrado muita calma,  ponderação, e precisão na sua atitude com a música, ou seja, gosto da forma como ela interpreta as canções, e a alma que ela  transporta no canto. Diria que ela tem uma forma de estar, musicalmente, muito singular, e, por esta razão, distingue-se das demais. Digo isto porque se avaliarmos a tipologia das canções que ela selecciona, apresenta-nos sempre propostas fora do comum. Só posso desejar sucessos, na sua jovem carreira.”

Percurso
Filha de Marcos Manuel Pipa e de Maria João Dias, Anabela Virgínia Dias Pipa, Anabela Aya, nasceu no dia 9 de Setembro de 1983, em Luanda. Oriunda de uma família religiosa, iniciou o seu contacto com a música aos cinco anos de idade, ouvindo os cânticos religiosos do coro da Igreja Metodista Independente, Caridade, onde a mãe ainda é professora.
Anabela Aya teve formação vocal na sua igreja, criando as bases técnicas que depois permitiram a sua versatilidade e propensão para interpretar os géneros: gospel, base da sua formação musical, bossa nova,  soul, r&b, reggae, semba, incluindo o fado. Sempre disposta a cantar para os vários espaços e eventos culturais, de média dimensão, onde é convidada, Anabela Aya já dividiu o palco com: Maya Cool, Dodó Miranda, Mário Gama, e Nelo Carvalho,  Angola, Tânia Tomé, Moçambique, Tito Paris, Cabo Verde, Tricia Boutte e a Banda Gumbo, da Noruega. 

Teatro
A representação de pequenas histórias bíblicas, marcou o início de um processo que levou Anabela Aya para o Elinga Teatro, convidada, primeiro, pelo actor Raúl Jorge  Resende de Barros  Rosário, para dar aulas de canto, tendo acabado por  participar na peça, “Guerra é guerra”, dirigida pelo actor Orlando Sérgio. Na sequência, seguiram-se várias  acções de formação na Escola da Noite  , em Coimbra, e pequenos seminários com a francesa Brigitg Bentolila, e o brasileiro Sérgio Menezes, promovidos pelo Elinga Teatro.

Promoção
No quadro do seu desígnio de promover a arte e apoiar os artistas, o Camões-Centro Cultural Português, patrocinouo concerto de Anabela Aya, cedendo gratuitamente o seu Auditório, apoiando a respectiva produção e divulgação, sem quaisquer contrapartidas. No Concerto, Anabela Aya interpretou todas as canções do seu CD, “Kamueleli”, incluindo uma nova versão do tema, “Mabelé”, do Óscar Neves, tendo sido acompanhada por Kris Kasinjombela, viola baixo, Mário Gomes, guitarra, Nino Jazz, teclas e direcção musical, Dilson Peter, bateria, com participação especial do guitarrista, Carlos Praia.

Kuameleli
Com produção de Nino Jazz, Mestre Freddy, Artur Maia e Munir Hossn, o CD, “Kuameleli”, foi apresentado ao público em Abril de 2018, com um concerto intimista, no Miami Beach, em Luanda. Com 10 faixas musicais, nos estilos Afro-Jazz, Blues e Gospel, para além de composições de Anabela Aya, o CD teve a participação de vários compositores, com destaque para Filipe Mukenga, Freddy Mwankié, Sashondel Jofre e Artur Nunes. Estão alinhadas no CD as canções, “Kuameleli”, “Nangobe”, “Caríssimo”, “Teu nome é um”, “I loveyoubué”, “Tia”, “Mestre Hermeto”, “Oração”, “TicTac” e “Kaumba”. “Kuameleli” condensa a soma de quinze anos de fulgurantes experiências musicais. Diríamos então que, embora contemporânea e numa relação metafórica, a suavidade da voz da Anabela Aya ecoa dos mares bravios da escravatura e dos mistérios seculares da ancestralidade africana. Anabela Aya encarna uma soberba personalidade artística sobre a qual já temos, incontornavelmente, imensas saudades do futuro.

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