Cultura

Angolanização do rock pelos “Gambuzinos”

Jomo Fortunato |

Num acto de resistência, aproximação aos padrões da cultura ocidental e ousadia estética, conjugando kimbundu, inglês e língua portuguesa, “Os Gambuzinos”, conjunto musical formado em 1968, surgiram num contexto internacional marcado por importantes ocorrências ao nível do rock e da música pop europeia e dos Estados Unidos da América, movimentos culturais que, pelo seu impacto mundial, tiveram reflexos directos na criação artística angolana.

Fotografia: Arquivo do artista

Foram fundadores dos “Gambuzinos”, os irmãos, Freitas Miguel, Leno, pandeireta, João Miguel, Zicas, viola ritmo, e Luís Miguel, Dualy Jair, no violão dedilhado, grupo que, no início teve a designação de “Trio los manos”.
O nome “Gambuzinos” foi um baptismo, definitivo, de José Maria Relvas, sonoplasta da extinta Rádio Clube de Angola e grande promotor do grupo, que por metáfora, “são seres imaginários, que segundo a superstição popular, vivem no campo, embora algumas espécies habitam locais sombrios e húmidos dos parques das cidades”.
Dualy Jair, a principal voz do grupo, começou a carreira aos doze anos, era estudante do primeiro ano do ensino técnico na antiga escola Emídio Navarro, situada próximo da então fábrica “Macambira”, em Luanda. Certo dia, depois das aulas, Jair e Zicas, encontraram, acidentalmente, na rua, a edição de uma revista com uma matéria sobre a vida e obra do conjunto “ Duo Ouro Negro” que incluía um suplemento com canções francesas. Esta ocasional ocorrência foi o despertar de um sonho do Dualy Jair, admirador do Duo Ouro Negro que ansiava, resolutamente, o profissionalismo no canto e no violão.

Aprendizagens
Dualy Jair contou como foi o processo de aprendizagem dos seus primeiros acordes no violão: “Aprendi os primeiros acordes de forma muito curiosa. Foi um guarda-nocturno, meu amigo, que tinha um violão de lata, quemme ensinou os primeiros acordes em troca de três copos de vinho tinto, por semana. O pagamento dos copitos eram feitos com o amealhado de trocos que o meu pai me dava para ver filmes no Ngola Cine.  O cantor Zé Viola, que foi locutor na Emissora Oficial de Angola, também deu-me alguns conhecimentos sobre técnicas de violão e aconselhou-me a comprar o Livro “Como aprender a tocar violão”, do professor, João Maria Vitória.
Depois o meu irmão mais velho, Leno, ofereceu-me um violão e ensinei o Zicas a tocar violão. O meu pai foi Marinheiro da Armada Portuguesa e era muito regrado, e educou-nos de forma severa, ou seja, uma mínima falha na minha demonstração de violão, perante a família, custar-me-ia um castigo exemplar. A verdade é que a minha família gostou de me ouvir tocar e o meu pai, em lágrimas, desejou-me boa sorte e disse, “sei que um dia lá chegarás”.
 
Lançamento
Depois foi o lançamento dos “Gambuzinos” no programa Chá das Seis no Cine Restauração, em Abril de 1968, ano oficial da formação do grupo. Neste ano, ocorre a primeira saída do grupo com Zicas que, por motivos académicos, embarcou para Lisboa, tendo sido substituído pelo Guilherme Guerra, amigo e colega de carteira de Dualy Jair na Escola Técnica. “Foram tempos difíceis, porque o Guilherme Guerra não sabia tocar violão, contudo, mais uma vez com muito empenho e determinação conseguimos ultrapassar o problema”, recordou Dualy Jair.

Gravações

Os “Gambuzinos” ensaiavam em casa, com uma itinerância pelas residências dos seus integrantes, pois tocavam para a família e amigos, distantes de qualquer intenção de profissionalização. Em Novembro de 1967, numa tarde chuvosa foram interpelados por Pitragrós Dias e Norberto Franco, dois Directores da Rádio Clube de Angola, para uma audição seguida de gravação.
 A autorização dos pais para gravação e prossecução de uma carreira profissional não foi fácil,“o meu pai opunha-se ao seguimento de uma carreira artística para os filhos. Foram um longo processo de conversações até que as partes concordaram”,  contou Dualy Jair.   No início, embora não muito seguro, Leno foi a voz principal da audição com a sonoplastia de José Maria Relvas, tendo sido depois escolhida uma canção, interpretada pelo trio, com a voz de Dualy Jair, indicada por unanimidade, enquanto compositor de todos os temas do grupo.
 Os “Gambuzinos” tiveram aulas de canto coral e coreografia, na Rádio Clube de Angola, e solfejo no regimento das tropas do R-20. Surgiram depois os tempos de glória, com muitos convites para espectáculos e viagens por Angola. Estávamos em 1971 e surgiu o momento da gravação do primeiro disco um LP que se desdobrou em três “singles”, “Kalumba” /“Este bairro”, “Muloji” /“Aida”,e, em 1972, “Filho do Marinheiro /“Rita”. A Orquestra Casal Ribeiro, residente do programa “Chá das Seis”, um projecto musical realizado no Cinema Restauração, acompanhou, com o músico de nome, Pleno, no saxofone, os principais registos discográficos dos “Gambuzinos”.

Mudanças

Os “Gambuzinos” arrebataram o Festival da Canção Folclórica de Angola, em 1971, no entanto o grupo perdeu a prestação do Guilherme Guerra, no dia do Festival, por determinação do seu pai, levando mais uma vez ao vazio de menos um violão. Para a sua substituição avançou um outro grande amigo de carteira de Dualy Jair, Filipe Vieira Lopes, que, por sua vez foi substituído pelo cantor Pedrito, que naquela altura também não sabia tocar violão, sendo mais um a ensinar.
Os “Gambuzinos” chegaram a tocar em palco com uma guitarra simulada, preenchida pelo violão de doze cordas de Dualy Jair, que agradeceu as personalidades que tornaram possível o projecto “Gambuzinos”, “Essa engenharia musical só foi possível graças ao desempenho e estratégia do nosso grande empresário, José Maria Relvas, e dos grandes agentes culturais da época, Luís Montez, Alves Neto, Batalha Júnior, o belga, Van Den Berg, e o radialista, Francisco Simons”.

  Registos discográficos da carreira a solo de Dualy Jair


Filho de Sebastião Miguel
e de Joana Bartolomeu, Luís Sebastião Miguel, Dualy Jair, nasceu em Luanda, Vila Alice, no dia 3 de Maio de 1955.
Em1972, viajou para Lisboa, Portugal, com o objectivo de dar continuidade aos seus estudos, tendo sido admitido na Academia Militar da Força Aérea Portuguesa, deixando em Luanda “Os Gambuzinos”. Paralelamente à vida académica, Dualy Jair decidiu enveredar por uma carreira a solo, com o prestimoso apoio do cantor e compositor, Milo Mac-Mahondo “Duo Ouro Negro”, ocasião em que gravou dois “singles”, em vinil, na companhia do maestro Jorge da Costa Pinto e do cantor angolano Vum-Vum, considerado o pai do rock angolano.
Em 1991, Dualy Jair introduziu no mercado, pela ENDIPU, o LP, “Semba Sambila”, com as canções “Kassumbula”, “Kizaka”,o grande sucesso, “Meu amigo João”,  “Ngolê”, “Kambuta rijo”, “Monangambé”, e “Garota”, um disco sintetizado por Ket Hagaha, teclas do Afra Sound Star, gravado em casa do Raúl Ouro Negro. De regresso a Portugal, em 1995, gravou, em 1997, pela editora “Sonovox”, o LP “Dibengo” com os temas “Ajude-me a esquecer”, “Dibengo”,  “Uenjiuami”, “Capitão bate mukila”, “Puxa comigo”, “Kimbuelela” e “Titia”, acompanhado pelo “Semba Master’s”, integrado por antigos integrantes do “Facho”.

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