Cultura

“Angolanização” iconográfica da animação infanto-juvenil

Jomo Fortunato

Criar ícones de entretimento infanto-juvenilinspirados na simbologia da cultura angolana, sobretudo para o grafismo e cinema, é um desafio que passa, entre outros aspectos de natureza técnica, pela formação de criadores, realizadores e pela emergência do surgimento de uma indústria de produção, que venha a englobar os vários momentos da animação.

Alice Berenguel imortalizou a personagem “ Vavô Ximinha
Fotografia: Edições Novembro

Alice Berenguel, apresentadora de televisão que imortalizou a personagem,  Vavô Ximinha, tem o seu nome gravado na história do entretenimento infanto-juvenil e defende a “angolanização” plena das figuras e da oralidade narratológica da cultura angolana, “temos um imaginário fértil de contos e podemos lutar pela “angolanização”das personagens no processo de entretenimento das nossas crianças”, defende a animadora. 
Alice Berenguel, iniciou os seus estudos primários em 1962, na cidade de Malanje, na então, Vasco da Gama, e na cidade de Henrique de Carvalho, actual Saurimo, e terminou a fase  de iniciação dos seus estudos em Luanda,  na Escola Primária pública do Bairro Popular, em 1968. Frequentou o Liceu de Saurimo, até o quarto ano ,em 1969,  tendo ingressado depois para o Magistério Primário no Curso de Formação de Professores Primários, dando início à sua carreira profissional, em 1976, como professora na escola pública da mesma cidade.
Ainda na sequência da sua formação, Alice Berenguel, passou pelo Curso de Educação Física Escolar, durante um programa entre o Ministério da educação e a então Secretaria de Estado dos Desportos, à época dirigida pelo prestigiado professor,  Rui Mingas.
Durante o seu percurso profissional, depois de ter leccionado durante cinco anos na escola primária de ensino especial, Marien Ngouabi, Alice Berenguel participou em vários festivais gimno-desportivos, criando esquemas coreográficos infantis e quadros humanos até 1981. Participouainda numa formação na Academia de Música de Luanda, em 1986, e tem  dedicado seu tempo a realizar actividades culturais e palestras aos jovens e crianças.
Destacamos, no âmbito da sua carreira, a participação na organização dos espectáculos de váriasedições do “Jardim do Livro Infantil” do Ministério da Cultura. Enquanto animadora e pedagoga, trabalhou pela organização norte-americana, “Save de Children”, província do Huambo, durante três meses, com crianças do meio rural. Alice Berenguelfoi criadora dos grupos de animação infantil, de 2004 a 2018, na Classe Infantil, A, do Carnaval de Luanda,e júri daClasse A, na avaliação da categoria canção e corte.
Filha de João da Silva Berenguel, descendente do Conde das Astúrias, Espanha, nascido no Huambo, à época Nova Lisboa, empresário reformado,  e de Maria da Conceição Martinho natural do Mussuco, linhagem do Reino Bassuko, doméstica, Maria Alice da Silva Berenguel, nasceu no dia 12 de Novembro de 1955, na vila de Capenda-Camulemba região Tchimbangala. 

Televisão
Alice Berenguel entrou para a TPA, Televisão Pública de Angola, em 1985, como apresentadora do programa “Carrocel”, e depois no papel de Avó Ximinha. Como impulsionadora de actividades culturais infanto-juvenis, sentiu a necessidade de criar projectos de animação com figuras emblemáticas das fábulas angolanas. Foi neste espírito que nasceu o “projecto Grilo e Makas”, em parceria com o compositor, Filipe Zau, com marionetas, construídas na TPA, inspiradas na canção homónima de Filipe Zau, interpretada, em dueto, com Alice Berenguel, e produzido o primeiroclip musical com a animação de marionetas. Ainda em televisão, produziu e apresentou várias rubricas, com destaque para  “A cozinha dos pequeninos”. No entanto, com o fito melhorar a grelha de programas infantis,  o programa, “Carrossel”, passou a diário, e Alice Berenguelfoi convidada a criar  o programa, “Domingo Infantil”, com conteúdos mais animados para os fins-de-semana. Em 2004 até 2010,  criou o  programa  “Angolândia”, na TPA, onde se apresentou como Vovó Ximinha,  personagem que valorizava, no interior das famílias, a importância dos valores morais e cívicos.

Rádio
Alice Berenguel foi convidada pela direcção da RNA, Rádio Nacional de Angola,  em 1983, a fazer parte do elenco que compunha o programa “Sala Piô”, um espaço criado pelo escritor, Octaviano Correia e Luísa Fançony , que tinha como objectivo a formação artística infantil, e  preparava conteúdosradiofónicos e  espectáculos alusivos ao Dia Mundial da Criança.

Internacionalizações
Alice Berenguel foi convidada, em 2015, a apresentar um projectode animação no âmbito do tema “Nutrir o planeta, energia pelo mundo”, na Expo de Milão, tendo acompanhado a produção do projecto. Durante seis meses, como Directora e produtora do projecto infantil do Pavilhão de Angola, desenvolvido com muito sucesso, ilustrando o tema e a cultura na angolanidade a cerca de 2 000 crianças dia, provenientes das várias escolas de Itália. Em 2011 faz parte de um grupo artístico infanto-juvenil naExpo da Coreia do Sul, em Seul.

Livros
No domínio da literatura infanto-juvenil, Alice Berenguel publicou o seu primeiro livro, “União faz a força”, 2007, uma edição da Comissão Organizadora do Jardim do Livro Infantil do Ministério da Cultura, onde a autora apela as crianças a terem em conta que “todos devemos trabalhar para resgatar os valores morais relativos à solidariedade, honestidade, amor ao próximo e  união na construção do homem novo, respeitando e reconhecendo o outro”. Tem igualmente editado o livro, “Os meus cristais, edição da Expo-Angola, lançado em Milão, 2015, traduzido em cinco línguas, que conta uma faceta da infância da autora com a sua avó. 

Compositora
As primeiras composições da Alice Berenguel, “Amiguinhos da selva” e “Ágil sou”, surgiram em 1979, na sequência da criação de um esquema coreográfico. Em 2004, Alice Berenguel editou o primeiro CD ,“Brincando com Alice”, com  quinze canções, com destaque para as canções, “Esta nossa escola” , “Passeio na Huíla, interpretadas pela Chana Fançony e Analisa, e o tema “Marta Lagarta”, foi interpretada pela sua folha, Vanessa.  Pelo sucesso e importância do clássico “Brincamos Juntos”, transcrevemos a letra, “Brincamos Juntos/ naquele jardim/ dei-te um abraço/ sorriste para mim/ De hoje em diante/ seremos amigos/ caminharemos os dois unidos/ Somos amigos no Rádio Piô/ estivemos mesmo brincando/ lado a lado/ sempre juntos cantaremos/ Vamos os dois para escola/ Voltamos os dois a pé/ e no Domingo comprar os bilhetes  e vamos a matineé (…).

Tempo

Multimédia