Antiguidades do Iraque no mercado negro


4 de Outubro, 2014

Fotografia: AFP

Peças iraquianas antigas estão a surgir regularmente no mercado negro à medida que militantes do Estado Islâmico usam intermediários na venda de tesouros inestimáveis para financiar as suas actividades depois de dominar o norte do país, afirmaram, na quarta-feira, as autoridades do Iraque.

Os militantes adquiriram alguma experiência com as antiguidades depois de assumirem o controlo de grande parte da Síria, mas quando capturaram a cidade de Mossul, no norte do Iraque, e a província de Nínive, em Junho, tiveram acesso a quase dois mil dos 12 mil sítios arqueológicos registados naquele país.
A Mesopotâmia, que é uma parte do Iraque, foi uma das primeiras grandes civilizações. “O seu nome significa ‘entre os rios’ em grego, uma referência aos rios Tigre e Eufrates, que tornaram a região um epicentro de comércio e uma encruzilhada de civilizações”, destacam as autoridades numa nota de imprensa.
O lugar onde ficavam as antigas cidades de Nínive e Babilónia, cujos jardins suspensos eram uma das sete maravilhas do mundo antigo, foi o lar dos sumérios, que deram ao mundo a escrita cuneiforme – a mais antiga forma de escrita ocidental – aproximadamente em 3.100 a.C.
O responsável pelo Museu de Bagdad, Qais Hussein Rasheed, alertou, numa conferência da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), realizada em Paris, sobre o risco da herança cultural iraquiana ser destruída pelos grupos islâmicos. “É uma máfia internacional de artefactos”, declarou aos repórteres. “Eles identificam os objectos e dizem o que podem vender”, disse, acrescentando que como algumas das peças têm mais de dois mil anos, é difícil saber o seu valor exacto.
Rasheed, citando autoridades locais ainda em áreas dominadas pelo Estado Islâmico, afirmou que o maior exemplo de pilhagem até agora ocorreu no grande palácio de Kalhu, do rei assírio Assurbanípal II, do século nove a.C. “Tábuas assírias foram roubadas e encontradas em cidades europeias”, disse. “Alguns destes objectos são cortados e vendidos em partes”, referiu. Outra autoridade iraquiana, que não quis identificar-se, disse que os artefactos também estão a ser escavados e alguns países vizinhos, como Jordânia e Turquia, precisam de fazer mais para evitar que tais peças cruzem as fronteiras.
“As coisas estão a passar pelas fronteiras e a ir parar em casas de leilões no exterior. Infelizmente, muito do lucro destes artefactos é usado para financiar o terrorismo”, lamentou.
Um diplomata ocidental declarou ser cedo para avaliar exactamente a quantidade de tesouros iraquianos atravessaram as fronteiras. “Vimos centenas de milhões de dólares em peças sírias surgirem depois de os seus sítios serem saqueados. É razoável esperar o mesmo do Iraque”, disse.
A conferência internacional da UNESCO, que reuniu diplomatas, autoridades iraquianas e especialistas na herança cultural do Iraque, realiza-se antes da assembleia-geral daquela organização, na qual a França apresenta uma resolução para chamar a atenção dos países-membros e criar uma missão para ajudar o Iraque a avaliar os danos.

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