Antologia angolana traduzida em alemão

Jomo Fortunato|
18 de Agosto, 2014

Fotografia: Paulino Damião

“Oxalá cresçam pitangas, literatura de Angola, um livro bilingue” é o título de uma sugestiva colectânea de textos poéticos e ficcção narrativa, em língua portuguesa, traduzidos em alemão, que inclui poemas e contos de 13 autores de diversos períodos e gerações literárias.

Com o objectivo de introduzir no universo da língua alemã textos representativos de variados momentos diacrónicos da produção literária angolana, a antologia “Oxalá cresçam pitangas, literatura de Angola, um livro bilingue” inclui escritores consagrados como Agostinho Neto, com o texto, “Poema”,  e Arnaldo Santos, com o “Desterro do ambaquista”. No domínio da ficção narrativa a colectânea inclui ainda Zetho Cunha Gonçalves, com o conto “O inferno e a morte na palma da mão”, Tuzuary Nkeita, com “A caixa negra”, o escritor Carmo Neto com “Ah! Jeremias”, Roderick Nehone, “Catador de bufunfa”, Isabel Ferreira, “Xaimita zungueira-fina”, Sónia Gomes, “A filha do general”, Amélia Dalomba, “O mar no signo do laço”, Arnaldo Santos, “Tesouro de quianda”, e João Melo, com “O engenheiro nórdico”.
No domínio da poesia, os nomes de Amélia Dalomba e Zetho Cunha Gonçalves reaparecem com os poemas “Espigas do Sahel” e “Quatro poemas de guerra”, respectivamente. António Gonçalves está incluído com “Intervalo com jindungo kahombo”, José Luís Mendonça, “O resto é poesia”, e Décio B. Mateus, com o poema “O candongueiro”.
Circunscrita às bibliotecas universitárias e a raros alfarrabistas, a história da tradução da literatura angolana, em língua alemã, está representada, unicamente, pela obra poética de Agostinho Neto, a ficção narrativa de Manuel Rui e José Luandino Vieira, três autores com textos que datam do período imediatamente após a independência de Angola. Daí que esta antologia vem preencher um vazio que recai, fundamentalmente, aos estudiosos e demais interessados no conhecimento da mais recente produção literária angolana, como se lê no prefácio: “Nesta antologia apresenta-se uma selecção de textos literários de autores angolanos para prover uma primeira impressão referente à cena literária contemporânea e vital deste país. Os autores conhecidos e desconhecidos - com residência dentro ou fora de Angola - continuam a publicar novas o bras sem parar”.

Traduções


A União dos Escritores Angolanos celebrou vários acordos de cooperação com as embaixadas de Angola em Portugal, Israel, Egipto, Brasil e França, que visam a divulgação e tradução de autores angolanos, assim como está concluída a obra “Como se viver fosse assim: antologia do conto angolano”, em árabe, com textos seleccionados pela escritora Domingas de Almeida, somando uma tiragem de mil exemplares.
No âmbito da literatura infantil, a União dos Escritores Angolanos converteu para inglês e hebraico as obras: “As duas amigas”, de Cássia do Carmo, e “Jonito, Vovo Jujú e o arco-íris”, da escritora Paula Russa, que, tal como a antologia de Domingas de Almeida, foram lançadas em Telavive, Israel. “Conversas de homens, antologia de contos angolanos”, uma selecção de António Quino, esteve presente no certame “Correntes da escrita”, de 23 a 25 de Fevereiro de 2014, na cidade do Porto, com apoio da embaixada de Angola em Portugal.
A União dos Escritores Angolanos editou ainda uma antologia, em francês, pela Présence Africaine, editora fundada por Alioune Diop, em 1947,  que teve a tradução de Dominique Stoenesco e Iva Flores. O conjunto de textos denominado “Contes et nouvelles d’Angola” inclui 23 autores angolanos seleccionados: António Fonseca, Arnaldo Santos, Benúdia, Boaventura Cardoso, Carmo Neto, Costa Andrade, Fragata de Morais, Henrique Abranches, Isaquiel Cori, Jacinto de Lemos, Jacques Arlindo dos Santos, João Melo, Jofre Rocha, José Eduardo Agualusa, José Luís Mendonça, José Mena Abrantes, Manuel Rui, Ondjaki, Óscar Ribas, Pepetela, Roderick Nehone, Rosário Marcelino e Uanhenga Xitu.

Projecto


O reforço do diálogo intercultural é um dos objectivos da União dos Escritores Angolanos, estando em curso um ambicioso projecto de traduções, que passam pela versão em inglês, francês e italiano, incluindo a língua árabe, alemão,  de títulos referenciais da literatura angolana, concretizando um propósito que visa, fundamentalmente, o diálogo intercultural, entre os países, pela via da literatura.
Com diversas variantes linguísticas, a língua árabe é falada por 280 milhões de pessoas, é o idioma oficial de 22 países, está próxima do hebraico e das línguas neo-aramaicas, e possui mais falantes, dentro do tronco linguístico semita.
Embora existam muitos autores angolanos traduzidos, sobretudo nas línguas naturais europeias, recorde-se o “World of Mestre Tamoda”, de Uanhenga Xitu, e a versão francesa de “Quem me dera ser onda”, de Manuel Rui, e a obra de Pepetela, um dos autores angolanos mais traduzidos, a intervenção da literatura angolana, no universo da língua árabe, pelo menos enquanto projecto, é inédita e denota uma intenção ambiciosa da União dos Escritores Angolanos.
As traduções em língua árabe podem ser mais importantes do que possam parecer, porque não podemos perder de vista que há um substrato africano em toda a cultura mediterrânica, espaço de influência milenar da cultura árabe, e a divulgação da literatura angolana vai instaurar o reencontro de culturas, que, por sua vez, vai poder propiciar o surgimento de clássicos universais, porque desconhecemos qual o impacto da recepção da estética da literatura angolana, no universo dos virtuais leitores do mundo árabe.

Título

O título da antologia foi inspirado no filme, “Oxalá cresçam pitangas - histórias de Luanda” ,  do escritor Ondjaki e do artista plástico Kiluanje Liberdade, que, segundo podemos ler na sinopse:  “revela a realidade por detrás da permanente fantasia luandense. Dez vozes vão expondo com ritmo, dignidade e coerência, um espaço ocupado por várias gerações de dinâmicas sociais complexas”.

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