Cultura

Aprendizagem intra-familiar e herança musical de Pirica Duia

Jomo Fortunato

Tal como o irmão, Eduardo Manuel Bernardo Garcia Adolfo, Bebé Duia, primeiro a tocar violão na família, António Idalino Garcia Adolfo, Pirica Duia, começou a aprender os primeiros acordes de guitarra com a mãe, Maria João Manuel Bernardo Adolfo, e esta, por sua vez, aprendeu com o marido, Eduardo Garcia Adolfo, Duia, histórico guitarrista do conjunto os Gingas.

Pirica Duia começou a aprender os primeiros acordes de guitarra com a mãe, Maria Adolfo
Fotografia: DR

Na sequência, a aprendizagem das cordas desdobrou-se aos demais membros da genealogia familiar, com destaque para, Mara Adolfo (cavaquinho) e Teresa Adolfo, Jandaia, (violão e baixo eléctrico), num processo de contínua absorção de saberes musicais no interior da família, que culminou com a constituição da Banda Duia, formação musical que perdura até a actualidade. 

No início, Bebé Duia começou por tocar violão e percussão,por imposição do pai, enquanto Pirica executava o cavaquinho, e as meninas,Teresa Adolfo, Jandaia, e Mara Adolfo, eram responsáveis pelo violão, e, só muito mais tarde entrou a Joveli Adolfo, a mais nova das meninas, que participava nos coros.
É curioso realçar que houve um período em que Teresa Adolfo, Jandaia, destacou-se no violão, com apenas 12 anos de idade, chegando a superar, temporariamente, aquele que veio a ser o grande guitarrista da família, na actualidade, Pirica Duia.
Em casa da família Duia, situada na Rua B5, casa Nº 6, do Bairro Nelito Soares, muito próximo da cadeia de São Paulo, eram frequentes as tertúlias e debates sobre a história da Música Popular Angolana, ocasião em que o pai dialogava com os filhos, em encontros com forte dimensão musical, poética e emotiva. “Lembro-me de um encontro de cordas ente o Pirica e o meu pai, cheio de emoção, em que o Duia voltou aos tempos de juventude e fez solos que nós nunca tínhamos ouvido... foi uma época de ouro de intensa musicalidade e encontros intermináveis na nossa família, contagiávamos a rua inteira”, lembrou Bebé Duia.
Aberto às sonoridades da música universal, Pirica Duia vem desenvolvendo técnicas de execução da guitarra, com forte acento nas malhas rítmicas dos preceitos mais autênticos da Música Popular Angolana, estendendo-se aos segmentos mais modernistas e ousados da música africana e universal.
Filho de Eduardo Garcia Adolfo, Duia, e de Maria João Manuel Bernardo Adolfo, António Idalino Garcia Adolfo, conhecido no universo musical angolano por, Pirica Duia, nasceu em Luanda no dia 30 de Agosto de 1976.

Bandas
Durante a ainda curta mas brilhante carreira, Pirika Duia passou pela “Banda Vozes Negras”, com Vando Moreira (baixo), Hélio Cruz (bateria), Tavinho e Pascoal (teclas),“Banda Kapanda”, também com Vando Moreia no baixo, Pascoal (teclas), “Kimbambas do Ritmo” com Manú (voz e percussão), Juca (bateria), Alex Samba (guitarra solo) e Eliseu (viola baixo). A sua passagem pela “Banda Maravilha”, um momento alto da carreira, aconteceu em 2003, onde substituiu o guitarrista Carlos Venâncio, formação musical constituída, à época, por Moreira Filho (baixo e vocal), Marito Furtado (bateria), Chico Santos (percussão e vocal), Miqueias Ramiro (teclas), e Izaú Baptista (guitarra). Actualmente dirige a “Banda Duia”, onde canta, toca guitarra, cavaquinho e dikanza, vulgo reco-reco, com Mara Adolfo (cavaquinho), Teresa Adolfo, Jandaia, (violão e baixo eléctrico) e Bebé Duia, na bateria.

Canções
As canções dos Gingas recuperam temas do cancioneiro popular luandense e abordam questões relacionadas com o pitoresco quotidiano, amor e conflitualidade social. Além do clássico “Lamento”, instrumental do Duia, gravado pela Banda Maravilha no CD “As nossas palmas” (2015), com solo recriado pelo Pirica Duiae pelo exímio guitarrista brasileiro Nelson Faria, a Banda Duia, na senda da herança e simbolismo dos Gingas, tem interpretado as canções, “Sobe sobe”, “Ngana”, “Rapsódia”, “Mariana”, “Carolina”, “Monami” e “Ngazuze. Note-se que as canções de autor,pertencem ao Zé Maria (Kiavulanga), considerado o grande compositor do conjunto os Gingas.

Produtor
Guitarrista versátil e visionário, PiricaDuia, enquanto produtor e sensível aos arranjos, passou a ser um instrumentista muito solicitado pela velha e nova geração de cantores, com destaque para Elias dya Kimuezu, Lulas da Paixão, Yuri da Cunha, Maya Cool, Caló Pascoal, Chico Viegas, DJ Mania, Dias Rodrigues, Kalibrados e Esquadrão 8, é, actualmente, dos instrumentistas de eleição de Paulo Flores, nas digressões que realiza tanto no país como no estrangeiro.

Herança
A herança dos ensinamentos do guitarrista Duia, enquanto professor de prestígio incontornável, perdura até aos nossos dias e a nobreza da sua arte atravessou várias gerações de importantes guitarristas angolanos. Marito Arcanjo de os Kiezos e Zé Keno, Jovens do Prenda, dois instrumentistas que marcaram a história da guitarra angolana, dizem claramente terem sido influenciados pelo Duia. A excepção vai para o Carlitos Vieira Dias, outro nome incontornável da guitarra angolana, que, embora afirme não ter sido influenciado pelo Duia, fez parte do agrupamento os Gingas, na condição de percussionista.

Duia
O Duia, pai, que pertenceu a uma nata de instrumentistas que começou por tocar tambor nos conjuntos Tubiayáxikelela e Demónios do Ritmo, aprendeu depois o violão com o seu irmão mais velho, António Adolfo, que tinha vindo, em 1950, do Congo Democrático. Zarga, Honorato Silva e Laurindo Lopes são nomes ligados à formação inicial do conjunto os Gingas. Mário Fernandes, guitarra solo dos Negoleiros do Ritmo, recebeu lições do Duia, e estávamos numa época, anos 1960, em que eram frequentes as deslocações de artistas angolanos famosos a Portugal, contudo os Gingas, salvo uma deslocação a São Tomé e Príncipe, já nos finais dos anos setenta1970, nunca saíram de Angola. A única gravação dos Gingas, que ficou na história pela qualidade sonora final, foi captada em condições técnicas adversas. Este registo inclui o clássico “Ngazuzé”, uma canção de Carnaval. Destacamos a figura de Zé Maria (Kiavulanga), que também foi responsável do Kissanji, um célebre grupo de dança, do Ressurreição, homenageado numa canção por Elias dya Kimuezo, e da Raquel Pitagrós, pouco referenciada, mas que foi uma das bailarinas, mais famosas dos Gingas.

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