"Aqui vendem lapiseiras?"

Francisco Pedro |
11 de Setembro, 2016

Dois rapazes caminhavam ontem de manhã pelo passeio da histórica cervejaria Bicker, na Baixa de Luanda, um deles espreitou na produtora Óscar Gil e perguntou se vendiam lapiseiras, o outro respondeu: “Não, é casa de fotos”.

Dez minutos antes desse caricato episódio, o proprietário da produtora, Óscar Gil, operador de câmara, montador e realizador com mais de 40 anos de profissão entre África e Europa, com experiência em televisão e cinema, encontrou-me à entrada a conversar com o seu discípulo Domingos Crispim, um dos três funcionários que “sobraram”, outros abandonaram a empresa, porque o mercado do audiovisual tem sido uma “caixinha negra” para os profissionais angolanos que vivem ou tentam viver da sétima arte.
A empresa, caminha à falência, não por que vivemos momentos da crise, por que não recebeu o pagamento pelas produções efectuadas nos últimos dez anos, entre novelas e telefilmes, encomendadas por várias instituições públicas.
Outrossim, tão pouco aparecem novas encomendas de cadeias de televisão, ou propostas vindas de empresas de distribuição e exibição de filmes para divulgação dos seus produtos nas salas de cinema.
Ao longo de quatro décadas, Óscar Gil impôs-se como operador de câmara, realizador, produtor e actor, numa evolução constante do ponto de vista técnico como artístico.
Um dos pioneiros das telenovelas no mercado português, como o malogrado amigo Nicolau Breyner, Óscar Gil prevê, de forma profética, o desaparecimento de mais uma produtora de cinema e vídeo, à semelhança do que aconteceu com a famosa Dread Locks, de Dias Júnior, Nguxi dos Santos e João das Chagas.
Embora existam cerca de 50 produtoras inscritas no Instituto Angolano de Cinema e Audiovisual (IACA), mas raros são os filmes emitidos nas estações nacionais de televisão (TPA, TV Zimbo, TV Palanca e TV Marçal) ou nas salas de cinema da capital, que tenham sido produzidas por produtoras nacionais.
Esta situação leva-nos a colocar as seguintes questões: Será que trabalhar em cinema e audiovisual em Angola é investir em terreno argiloso? Será que os profissionais angolanos produzem filmes (documentário, ficção e animação) cujo conteúdo e qualidade técnica e artística está aquém do que é exigido pelas estações de televisão e pelos proprietários de salas de cinema? Ou será, apenas, que “aqui vendem lapiseira”?  

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