Arquivo de García Márquez nos EUA


1 de Dezembro, 2014

Fotografia: Divulgação |

O arquivo pessoal do escritor colombiano Gabriel García Márquez, Nobel da Literatura, passou, desde ontem, a pertencer à Universidade do Texas, nos EUA, informou o jornal norte-amricano “The New York Times”.

Reunindo manuscritos, blocos de notas, fotografias, correspondência e objectos pessoais, o arquivo de García Márquez, que morreu em Abril aos 87 anos, tem material relacionado com todas as suas obras importantes, incluindo a versão final de “Cem Anos de Solidão” (1967), dactilografada, que o escritor enviou à editora com uma nota de cabeçalho, e uma cópia de “En Agosto nos vemos”, o romance que estava a trabalhar há dez anos e deixou por concluir, sendo parcialmente publicado na revista norte-americana “TheNewYorker” e no jornal colombiano “LaVanguardia”.
Entre os objectos pessoais do escritor que vão para os Estados Unidos estão duas máquinas de escrever Smith Corona e cinco computadores Apple. Entre as duas mil cartas do arquivo estão exemplares de correspondências com os escritores Graham Greene, MilanKundera, JulioCortázar, GünterGrass e Carlos Fuentes.
Nos 40 álbuns fotográficos estão os poucos materiais ligados às actividades políticas do Nobel nascido na Colômbia, mas exilado no México desde a década de 1960, quando se viu obrigado a deixar Nova Iorque, onde era correspondente internacional, devido à sua defesa pública do regime cubano de Fidel Castro.
“Gabo”, como era carinhosamente conhecido na América Latina, preferia tratar de política em pessoa ou por telefone. Mesmo assim, o arquivo contém uma carta em que o escritor recusa uma entrevista para a edição espanhola da “Life”, explicando não querer dar com a sua presença a falsa ideia de a revista ser aberta a ideais de esquerda. Há também notas de uma visita em 1998 à Casa Branca, quando perguntou a Bill Clinton se tinha consultores que não fossem “fanaticamente anti-Castro”.
Nem o jornal “The New York Times” ou o diário espanhol “El País” avançavam um valor para a aquisição do espólio, negociada com a família do escritor. As duas publicações explicavam apenas que o Harry Ransom Center, do Texas, é dos mais importantes arquivos literários do mundo, guardando os espólios de nomes tão fundamentais da literatura como James Joyce, Ernest Hemingway, William Faulkner e Jorge Luís Borges – entre 36 milhões de manuscritos, um milhão de livros raros, cinco milhões de fotografias e 100 mil obras de arte.
O anúncio da venda do espólio do escritor começou já a provocar polémica na Colômbia.“É uma pena”, disse a ministra da Cultura colombiana, Mariana Garcés, citada pelo “El País”. No entanto, Gonzalo García, um dos dois filhos do escritor, disse num programa de rádio que “o Governo colombiano nunca se fez presente nem apresentou qualquer oferta” – a família tomou a sua decisão porque queria que o espólio de Gabriel García Márquez estivesse “bem acompanhado”. 
“É muito apropriado que GarcíaMárquez se junte às nossas colecções. É difícil pensar num romancista de impacto tão abrangente”, disse Steve Ennis, director do Harry Ransom Center.
O “The New York Times” adianta ainda que o maior interesse para investigadores pode residir nos manuscritos dos livros que se seguiram a “Cem Anos de Solidão”. O espólio, disse ao mesmo jornal José Montelongo, especialista em literatura latino-americana, “é como uma janela aberta sobre o laboratório de um alquimista de renome que nem sempre gostava de mostrar as receitas das suas poções ao público”.
José Montelongo, que está ligado à Universidade do Texas, visitou a casa de Gabriel García Márquez na Cidade do México em Julho, com Steve Ennis, para avaliar os materiais contidos no arquivo. “Mostram as fraquezas, as versões descartadas, as palavras eliminadas. Vê-se de facto a luta da criação.”
Para alguns especialistas em literatura a aquisição do espólio pela Universidade de Texas é um facto insólito já que durante décadas, mesmo depois da onda de celebridade internacional criada pelo livro “Cem Anos de Solidão”, o Nobel esteve proibido de entrar nos Estados Unidos.

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